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REVIRAVOLTA CHOCANTE: Laudo aponta que tiro que matou soldado em Sorocaba partiu de arma da polícia

REVIRAVOLTA CHOCANTE: Laudo aponta que tiro que matou soldado em Sorocaba partiu de arma da polícia

A madrugada do dia 11 de abril parecia trazer apenas mais uma ocorrência de rotina para a Polícia Militar de Sorocaba, no interior de São Paulo. No entanto, o desfecho de uma caçada humana contra uma quadrilha de assaltantes de farmácias transformou-se em uma tragédia sem precedentes e, agora, em um dos maiores escândalos da corporação nos últimos anos. O soldado Mateus Almeida Rodrigues, de apenas 28 anos, perdeu a vida em serviço. Mas, ao contrário da narrativa inicial registrada nos boletins oficiais, o inimigo mortal não estava no banco dos réus. Um laudo pericial avassalador revelou que o disparo fatal partiu, na verdade, de uma arma compatível com as utilizadas pela própria polícia.

A notícia caiu como uma bomba no comando da corporação e na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), levantando suspeitas ainda mais sombrias: a de que os policiais envolvidos teriam tentado adulterar a cena do crime para encobrir um terrível erro de “fogo amigo”.

A Emboscada na Madrugada de Sorocaba

Tudo começou por volta das duas horas da manhã, no bairro nobre do Parque Campolim. Uma quadrilha especializada, monitorada pela inteligência policial, havia saído da capital paulista com um objetivo claro: assaltar uma drogaria de alto padrão no interior. Imagens do circuito interno do estabelecimento registraram os quatro criminosos agindo com rapidez. Eles sabiam exatamente o que procuravam. O foco principal eram as cobiçadas canetas emagrecedoras, além de outros medicamentos de alto custo e o dinheiro do caixa. Ao todo, mais de 60 caixas de remédios foram ensacadas.

O que os criminosos não sabiam é que a Polícia Militar já estava montando uma campana estratégica nos arredores. A rua escolhida pelos assaltantes para a fuga era sem saída. Quando o motorista da quadrilha manobrou o veículo — que havia sido roubado dias antes em Franco da Rocha —, deu de frente com as viaturas que chegavam taticamente com as luzes apagadas.

O cerco estava fechado. O que se seguiu foi uma cena de guerra que acordou os moradores da vizinhança. Moradores do 12º andar de um prédio próximo relataram o terror de ouvir uma sequência avassaladora de tiros. Três dos assaltantes foram baleados e morreram instantaneamente dentro do veículo. Um quarto criminoso conseguiu abrir a porta e fugir a pé por terrenos baldios e áreas de mata nos fundos de uma construção.

O Mistério da Queda: Onde Estava o Atirador?

Enquanto parte da equipe tática iniciou uma busca implacável pelo fugitivo no gramado vizinho, outros policiais se aproximaram do carro crivado de balas para garantir que não haveria reação dos assaltantes já neutralizados. Foi nesse momento que o soldado Mateus Almeida Rodrigues chegou para prestar apoio à ocorrência. Ele foi um dos últimos a se posicionar na cena.

PM morto em SP foi baleado um minuto após disparos de colegas

Câmeras de monitoramento captaram o momento exato em que uma nova e misteriosa sequência de disparos aconteceu. Nas imagens, é possível ver um dos policiais correndo para se proteger atrás de uma viatura. Logo em seguida, o soldado Mateus é atingido e cai abruptamente no chão.

A primeira incoerência do caso começou na mecânica do próprio corpo da vítima. Especialistas e analistas criminais apontaram um detalhe crucial: Mateus caiu para frente. Fisicamente, se um indivíduo está de pé e recebe um impacto de projétil na testa, a tendência natural é que o corpo seja projetado para trás. A queda para frente indicava, de forma quase inequívoca, que o impacto havia ocorrido na parte posterior da cabeça. O laudo necroscópico confirmou a suspeita: o tiro entrou pela região temporal direita e o projétil foi recuperado na região temporal esquerda, traçando uma trajetória que desmentia o confronto direto com o carro dos bandidos.

A pergunta que intrigou a todos desde o primeiro dia foi: se os três bandidos já estavam mortos dentro do carro e o quarto havia fugido na direção oposta, quem estava atrás do soldado Mateus? A resposta era incômoda: ali, só havia policiais militares.

A Prova Técnica: A “Impressão Digital” da Arma

A versão oficial que os policiais militares registraram logo após o tiroteio sustentava que o tiro fatal contra o soldado Mateus havia saído da arma de um dos assaltantes, em um último suspiro de reação enquanto o carro era revistado. Contudo, a ciência forense desmantelou completamente essa narrativa.

O laudo da perícia técnica indicou que o projétil retirado da cabeça de Mateus é de calibre $.40$ ($10\text{ mm}$). Essa informação mudou o rumo das investigações por um motivo simples e matemático: as armas apreendidas com os criminosos mortos eram dois revólveres calibre $.38$ e um simulacro (arma falsa) de pistola. Por outro lado, todos os policiais militares que participavam daquela operação portavam pistolas Glock G22, cujo calibre é estritamente $.40$.

A balística forense funciona como uma biometria para armas de fogo. O interior do cano de cada pistola possui ranhuras helicoidais chamadas “raias”, projetadas para fazer o projétil girar e ganhar estabilidade no ar. Quando a bala passa por essas raias, o metal maleável do projétil é microscopicamente arranhado. Cada arma deixa uma assinatura única, uma verdadeira “impressão digital”.

Para individualizar a conduta e descobrir exatamente de qual coldre saiu o disparo que ceifou a vida do jovem soldado, os peritos submeterão todas as 11 armas dos policiais envolvidos a um teste de microcomparação balística. Tiros de teste serão disparados em um tanque de água para coletar os projéteis intactos e compará-los, sob microscópio, com a bala extraída do cérebro de Mateus.

Suspeita de Fraude e Cena de Crime Modificada

O caso ganhou contornos ainda mais graves com o surgimento de denúncias de que os policiais teriam tentado “arredondar a ocorrência” — jargão policial utilizado para definir o ato criminoso de modificar o cenário de um crime para legitimar uma ação desastrosa.

Existe a forte suspeita, sob investigação da Corregedoria e da Polícia Civil, de que um dos agentes teria se abaixado próximo ao corpo do motorista morto para plantar uma “arma fria” (uma arma verdadeira, mas sem registro oficial) nas mãos do assaltante. O objetivo seria simular um tiroteio que justificasse o caos dos disparos. A principal hipótese levantada pelos investigadores é de que, durante esse processo tenso e atrapalhado de modificação e fraude da cena do crime, a arma de um dos próprios policiais militares teria disparado acidentalmente, atingindo o soldado Mateus na nuca.

Diante das graves contradições entre os depoimentos dos agentes e as evidências técnicas colhidas no local, a Corregedoria da Polícia Militar agiu com rigor e afastou imediatamente das funções operacionais das ruas todos os 11 policiais que participaram da ação.

Luto e Busca por Justiça

O confronto terminou como o evento com maior número de óbitos dos últimos dez anos na cidade de Sorocaba. Enquanto o quarto bandido que havia fugido pelo gramado acabou sendo preso em flagrante e está à disposição da Justiça, a família do soldado Mateus chora uma perda que poderia ter sido evitada.

Mateus Rodrigues estava na Polícia Militar desde 2019. Era noivo, cheio de planos para o futuro e descrito por seus companheiros de batalhão como um jovem apaixonado pela missão de proteger a sociedade. No cemitério, sob forte comoção e salvas de tiros para o alto, a dor da ausência misturou-se com o clamor por respostas. A Secretaria de Segurança Pública informou que as investigações correm em paralelo entre a Polícia Civil e a Militar para que nenhuma conduta fique impune. A verdade começou a aparecer, mas o preço pago por ela foi alto demais.