FALOU QUE SÓ NAMORAVA BANDIDO E ACABOU ASSIM: O Trágico Destino de Paola Correa

“Para me pegar tem que ter no mínimo três passagens. E se quiser namorar comigo, namorar sério, tem que ter pelo menos um homicídio, um 33 de tráfico.” A frase, dita em tom de desabafo ou de uma trágica ostentação em um áudio gravado pela própria Paola Avaly Corrêa, esconde uma realidade que milhares de jovens insistem em romantizar, mas que cobra um preço alto demais. O mundo do crime não tem regras de cavalheirismo, não aceita términos e não perdoa o que considera uma afronta. Para Paola, o que começou como uma atração pelo perigo e pelo status de “namorada de chefe” terminou em uma cova fria, no meio de um matagal em Porto Alegre, após horas de pura tortura psicológica.
A história de Paola, que tinha apenas 18 anos quando sua vida foi ceifada, é o retrato brutal de uma armadilha invisível. Uma armadilha que atrai pela ilusão de poder, proteção e dinheiro fácil, mas que se fecha de forma violenta, sem deixar qualquer rota de fuga.
Da Família Estruturada ao Fascínio pelo Perigo
Ao contrário do que muitos possam imaginar ao ouvir o áudio que viralizou nas redes sociais, Paola não cresceu em um ambiente de criminalidade. Ela nasceu e foi criada em Porto Alegre, no seio de uma família trabalhadora, sem qualquer histórico de envolvimento com o tráfico de drogas ou com facções criminosas. No entanto, o ano de 2017 marcou uma virada drástica em seu comportamento. Com apenas 17 anos, a jovem começou a se afastar do convívio familiar e a se aproximar de um círculo de amizades que a mãe rapidamente identificou como perigoso.
Os avisos foram muitos. Parentes e amigos próximos tentaram alertar a jovem sobre os riscos de frequentar certas rodas, mas o magnetismo do submundo falou mais alto. Foi nesse período que ela conheceu Nathan Cirangelo. Ele não era apenas um jovem rebelde; Nathan já ocupava uma posição de liderança e destaque no tráfico de drogas na região do bairro Bom Jesus, na capital gaúcha. Mesmo com Nathan preso preventivamente desde 2016, Paola decidiu seguir em frente com o relacionamento. Assim que completou 18 anos, ela se cadastrou oficialmente como visitante e passou a frequentar as galerias do Presídio Central de Porto Alegre.
A Desconstrução de uma Vida: A Ilusão do Controle
Entrar para o universo de um líder de facção exige um preço imediato. Aos poucos, a identidade de Paola foi completamente desmantelada. Ela abandonou os estudos, pediu demissão do emprego e cortou os laços com a família, saindo de casa para viver em imóveis mantidos e controlados pela organização criminosa de Nathan. A liberdade que ela achou que encontraria transformou-se em um cárcere privado psicológico.
Mesmo de dentro de uma cela de segurança, Nathan gerenciava a rotina de Paola com precisão cirúrgica. Ele determinava onde ela dormiria, com quem poderia conversar e como deveria se comportar nas ruas. O dinheiro que a sustentava vinha diretamente do tráfico, tornando-a financeiramente dependente. O ambiente era de constante pressão e vigilância. O suposto romance logo revelou sua verdadeira face: o ciúme doentio e a violência. Em uma das visitas no presídio, as discussões romperam as barreiras das grades, e Paola foi agredida fisicamente por Nathan dentro da cadeia, necessitando da intervenção direta dos agentes penitenciários para não sofrer algo pior.
O Rompimento e o Tribunal das Redes Sociais
A violência e o controle sufocante começaram a quebrar o encanto. Nas redes sociais, Paola deixava rastros de seu sofrimento em postagens que misturavam desabafo, ironia e um medo latente. Em uma de suas publicações, ela chegou a escrever, em tom irônico, que estava fazendo “faculdade no crime”. Era o sinal claro de alguém que começava a enxergar as paredes da armadilha, mas já não sabia como pular os muros.
O ápice da crise aconteceu no dia 9 de maio de 2018. Após mais uma visita conturbada no presídio, Paola tomou a decisão que selaria seu destino: ela colocou um fim no relacionamento com Nathan. No entanto, na lógica das facções, uma mulher não termina com um líder. O término foi recebido por Nathan como uma humilhação pública e uma perda inaceitável de autoridade perante seus subordinados.
Para piorar a situação, boatos falsos começaram a circular nos grupos de mensagens da facção, sugerindo que Paola estaria conversando com integrantes de uma organização rival. No submundo, o boato tem o mesmo peso de uma sentença. Com o orgulho ferido e a paranoia alimentada pelas fofocas do crime, Nathan começou a arquitetar, de dentro de sua cela, o plano para a execução da ex-namorada.
A Madrugada de Terror no Dia das Mães
O plano foi desenhado com requintes de crueldade e uma divisão milimétrica de tarefas. Nathan acionou Bruno Cardoso Oliveira, seu homem de confiança nas ruas, para coordenar a logística do crime: quem buscaria a jovem, quem cederia o cativeiro, quem cavaria a sepultura e quem faria as imagens da execução.
O crime foi marcado para o domingo, 13 de maio de 2018 – ironicamente, o Dia das Mães. Paola pretendia almoçar com a mãe e a irmã, mas não teve a chance. A madrugada daquele domingo transformou-se em um pesadelo. Ela passou a receber ameaças contínuas por telefone. Desesperada e percebendo que o perigo era real, ela ligou duas vezes para o número de emergência da polícia (190) clamando por socorro, mas, segundo os registros do inquérito, as ligações não foram atendidas. Às 4h da manhã, fez sua última postagem nas redes sociais expondo a perseguição que sofria. Às 8h, coagida pelas circunstâncias e por ordens diretas, ela foi até um ponto de encontro combinado e entrou voluntariamente em um veículo conduzido pelos criminosos.
Duas Horas Diante da Própria Cova
Paola foi levada para um cativeiro temporário na Vila Tamanca, no bairro Lomba do Pinheiro. Lá, amarrada e sob a mira de armas, foi obrigada a passar por um “tribunal do crime” por telefone, onde Nathan exigia explicações. Mesmo sob extrema pressão, os relatos apontam que ela não cedeu às acusações. A ordem final de execução foi dada.
A jovem foi escoltada até um matagal próximo. Ali, o horror atingiu o ápice da perversidade humana. Paola foi mantida imobilizada, sendo obrigada a assistir, durante cerca de duas horas, a escavação da cova onde seria enterrada. Sem qualquer chance de defesa, ela viu a terra ser removida palmo a palmo, sabendo exatamente qual seria o seu fim. Por volta das 17h30, o executor, Vinícius Mateus da Silva, apontou a arma. Outra integrante do grupo, Thaí Cristina dos Santos, ligou a câmera do celular. Foram 11 segundos de vídeo que registraram os disparos fatais. As imagens foram enviadas imediatamente para o celular de Nathan, na cadeia, como prova do “serviço cumprido”, e logo depois foram jogadas nas redes sociais para servir de exemplo.
A Resposta da Justiça e o Alerta que Fica
O desaparecimento de Paola chocou a família quando ela não apareceu para o almoço festivo. Quatro dias depois, após o vídeo viralizar na internet e a polícia identificar a jovem pelas roupas, o corpo foi localizado. A investigação da Polícia Civil foi rápida e, em poucos dias, todos os envolvidos foram identificados e indiciados.
O desfecho judicial ocorreu em março de 2023, quase cinco anos após o crime, no Tribunal do Júri de Porto Alegre. A justiça foi implacável com o bando:
O caso de Paola Correa não é apenas uma crônica policial; é um alerta doloroso enviado por sua própria família a milhares de outras jovens. O envolvimento com o crime organizado traz uma ilusão passageira de poder, mas cobra o preço com a própria vida. No mundo das facções, as pessoas não são parceiras; são propriedades descartáveis.