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De morador humilhado a chefão de 17 favelas: A ascensão meteórica, o império milionário e a queda brutal do traficante Sassá

De morador humilhado a chefão de 17 favelas: A ascensão meteórica, o império milionário e a queda brutal do traficante Sassá

O Ponto de Virada: Como o Medo Criou um Império

No início da década de 1990, a rotina de Edmilson Ferreira dos Santos em nada lembrava a realidade violenta que mais tarde ilustraria as páginas policiais dos jornais cariocas. Morador da Vila do João, uma das comunidades que integram o vasto Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, Edmilson levava uma vida pacata. Sem qualquer anotação criminal ou envolvimento com a criminalidade, ele trabalhava diariamente para garantir o próprio sustento. Contudo, em um dia comum, um incidente banal mudou drasticamente o rumo de sua existência: ele esbarrou, de forma totalmente involuntária, no chefe do tráfico de drogas que dominava a sua localidade.

A resposta do criminoso foi desproporcional e implacável. Edmilson foi severamente humilhado em público, diante de vizinhos e conhecidos. Na dinâmica da criminalidade periférica daquela época, desavenças ou desrespeitos — ainda que acidentais — direcionados à liderança local eram frequentemente punidos com a morte. Sabendo que sua vida corria um risco iminente e tomado pelo pânico de ser executado a qualquer momento, o trabalhador tomou uma decisão drástica para garantir a própria sobrevivência: decidiu abandonar a legalidade e buscar refúgio no próprio universo que temia.

Para se proteger, ele atravessou as fronteiras invisíveis da comunidade e pediu abrigo na Vila do Pinheiro, uma favela vizinha que se encontrava sob o controle de uma quadrilha rival. O chefe daquela região era ninguém menos que Elinaldo Pinto de Medeiros, amplamente conhecido como “Linho”, um dos maiores e mais poderosos barões de armas e entorpecentes do Rio de Janeiro. Aceito no bando de Linho, Edmilson recebeu o apelido que marcaria sua trajetória no crime: Sassá.

A Escalada Silenciosa: Da Contabilidade à Linha de Frente

Diferente do estereótipo do jovem que ingressa no crime ostentando armas e buscando visibilidade rápida, Sassá iniciou sua jornada na base da estrutura criminosa de forma discreta. Suas primeiras funções envolviam tarefas simples e de vigilância nos pontos de venda de drogas, as chamadas “bocas de fumo”. No entanto, não demorou muito para que ele começasse a se destacar dos demais soldados da organização por duas características raras naquele ambiente: uma rígida disciplina pessoal e uma notável capacidade de organização.

Enquanto a maioria dos homens da favela consumia as próprias substâncias que comercializava, Sassá mantinha-se sóbrio, o que lhe conferia uma clareza mental superior para gerenciar os negócios. Sua facilidade com os números chamou a atenção de Linho, que percebeu no novo recruta um talento natural para controlar a contabilidade complexa do tráfico da Vila do Pinheiro. À medida que ganhava a simpatia e a confiança do líder máximo, Sassá passava a receber missões de responsabilidade cada vez maior.

Para consolidar de vez a sua posição de liderança e afastar qualquer desconfiança interna sobre o seu passado como trabalhador civil, Sassá entendeu que precisava demonstrar que também era capaz de agir com extrema violência. Em agosto de 1996, ele liderou um grupo armado que invadiu a residência de Jorge Luiz da Silva, localizada na própria Vila do Pinheiro. O motivo da invasão era uma cobrança severa sobre o desaparecimento de uma carga de entorpecentes. As justificativas apresentadas pela vítima não convenceram o grupo e, para dar um exemplo de autoridade, Sassá executou o homem a tiros dentro do próprio imóvel. Esse episódio cruel eliminou as dúvidas que pairavam sobre sua capacidade de usar a força e selou sua promoção a gerente-geral de todas as comunidades controladas por Linho.

O Nascimento da Facção e a Herança do Poder

Guerra na Pedreira, em Costa Barros, foi motivada por traição a antigo  chefe do tráfico - Jornal O Globo

Na transição para os anos 2000, o cenário do crime organizado no Rio de Janeiro passou por uma profunda reestruturação geográfica e estratégica. A quadrilha liderada por Linho na Vila do Pinheiro uniu forças com diversos outros grupos criminosos de relevância nas zonas Sul e Norte da capital fluminense. Dessa fusão de interesses e territórios, nasceu uma nova e poderosa organização criminosa: a facção Amigos dos Amigos (ADA).

Nesse novo organograma, Linho consolidou-se como o principal chefe das ruas, enquanto Sassá foi alçado ao posto de seu braço direito operacional, assumindo a responsabilidade direta por controlar toda a engrenagem de distribuição de drogas dentro do Complexo da Maré. A estrutura da facção, no entanto, sofreu um abalo sísmico no ano de 2003. Linho viajou para o estado de São Paulo com o objetivo de negociar a compra de um grande lote de armamentos e desapareceu de forma misteriosa. Embora a polícia trabalhasse com a forte suspeita de que ele teria sido traído e assassinado por parceiros de negócios, seu corpo jamais foi localizado.

Sendo o homem de total confiança e o segundo na linha de comando, Sassá assumiu a liderança das favelas deixadas por Linho e o posto de principal chefe da Amigos dos Amigos em liberdade. No controle absoluto do território, ele redesenhou a estratégia comercial do grupo. Sassá cortou os intermediários da cadeia de suprimentos e passou a negociar a compra de entorpecentes diretamente com grandes fornecedores baseados nos estados de São Paulo e Mato Grosso.

Com grandes carregamentos chegando sem interrupções e com custos reduzidos, a facção expandiu agressivamente seus domínios, alcançando o controle do comércio ilegal em pelo menos 17 favelas da região metropolitana do Rio, incluindo o Complexo do Caju, a favela do Muquiço e os Morros do Juramento e da Pedreira. Para proteger esse verdadeiro consórcio criminoso, ele montou um exército particular estimado em 300 homens armados e adquiriu um arsenal de guerra composto por cerca de 150 fuzis de assalto.

Conexões de Luxo, Alta Tecnologia e Blindagem

O robusto fortalecimento financeiro permitiu a Sassá traçar alianças estratégicas de grande impacto. A principal delas foi firmada com Erismar Rodrigues Moreira, o “Bem-Te-Vi”, que chefiava o tráfico na favela da Rocinha, na Zona Sul da cidade. A Rocinha era um mercado consumidor gigantesco e altamente lucrativo, mas enfrentava sérias dificuldades logísticas para receber drogas diretamente dos grandes fornecedores nacionais. Sassá assumiu o papel de fornecedor oficial de cocaína para a Zona Sul, enviando carregamentos semanais que atravessavam a cidade de ponta a ponta, uma parceria que injetava milhões de reais semanalmente nos cofres da cúpula da facção.

Além do comércio de substâncias ilícitas, o grupo diversificou suas atividades econômicas migrando fortemente para o roubo e desvio de cargas de caminhões que trafegavam pelas importantes rodovias federais e estaduais situadas nos arredores do Complexo da Maré. A lucratividade gerada transformou as favelas sob o comando de Sassá em um porto seguro para criminosos de grande expressão de outras áreas.

Um dos casos mais emblemáticos foi o de Pedro Machado Lomba Neto, conhecido nacionalmente como “Pedro Dom”, o líder de uma quadrilha especializada em assaltar edifícios residenciais de luxo no Rio de Janeiro. Pedro Dom passou a utilizar a Vila do Pinheiro como seu principal esconderijo. Em contrapartida pelo abrigo seguro e pela severa proteção armada que recebia da ADA, ele pagava propinas semanais em dinheiro em espécie, barras de ouro e joias valiosas de alto padrão. Esses recursos eram imediatamente revertidos por Sassá na compra de mais armas pesadas para a facção.

Para garantir que essa engrenagem multimilionária continuasse funcionando longe do alcance do Estado, Sassá estruturou um sofisticado esquema de contrainteligência e corrupção:

  • Suborno Sistemático: Pagamento de propinas fixas estimadas em R$ 500 semanais a policiais militares da região para que a quadrilha recebesse avisos antecipados sobre qualquer operação planejada.

  • Comunicação por Satélite: Ciente de que os órgãos de segurança monitoravam as ERBs (Estações Rádio Base) de telefonia convencional, ele proibiu o uso de celulares comuns entre os gerentes.

  • Criptografia Digital: Investiu na importação de aparelhos de telefone via satélite e rádios transmissores equipados com modernos sistemas de criptografia digital, permitindo conversas diretas com seus subordinados sem o risco de interceptações telefônicas judiciais.

O Cerco se Fecha: O Bunker Sob o Arroz

A virada de jogo das autoridades ocorreu quando a Polícia Civil alterou sua metodologia de investigação, deixando de focar apenas no conteúdo das conversas e passando a utilizar o rastreamento técnico avançado. Através do cruzamento minucioso de dados de localização geográfica de sinais eletromagnéticos, os agentes conseguiram mapear os pontos exatos de onde partiam as comunicações da liderança da facção. O cerco começou a se fechar de forma definitiva no final de outubro de 2005, quando Bem-Te-Vi, o principal parceiro comercial de Sassá na Zona Sul, foi morto em um violento confronto com a polícia na Rocinha.

Privado de seu principal aliado e com suas coordenadas de comunicação completamente expostas, Sassá virou o alvo prioritário de uma grande operação deflagrada no dia 4 de novembro de 2005, na localidade conhecida como “Salsa e Merengue”, dentro do Complexo da Maré. Policiais cercaram o galpão de um supermercado que vinha sendo utilizado estrategicamente como ponto de apoio e reuniões da cúpula do tráfico.

Durante uma varredura minuciosa no imóvel, os policiais notaram uma irregularidade estrutural e localizaram um fundo falso perfeitamente camuflado sob uma grande pilha de sacos de arroz. Ao perceber que havia sido descoberto e diante de dezenas de fuzis apontados para o interior do seu esconderijo subterrâneo, Sassá optou por não reagir. O homem que comandava um exército nas ruas saiu do bunker com as mãos para cima, sem disparar um único tiro. No interior do abrigo, os agentes apreenderam duas pistolas, uma granada de fragmentação, quatro bombas caseiras, rojões de fabricação argentina e um lança-rojão militar. No ato da prisão, em uma última tentativa de manter a liberdade, o traficante ofereceu uma propina de R$ 1 milhão em dinheiro vivo aos policiais, mas a proposta foi recusada. Na mesma manhã e no mesmo galpão, outro membro do alto escalão da facção, Cristiano Santos Guedes, o “Mickey”, também foi capturado.

Ordens de Dentro da Cadeia e o Resgate Sangrento

Sassá foi transferido sob um forte aparato de segurança para o presídio de segurança máxima de Bangu 1. Imediatamente, a liderança das ruas no Complexo da Maré foi repassada para Marcélio de Souza Andrade. A gestão de Marcélio, contudo, foi efêmera, sendo ele preso pela polícia pouco mais de um mês após assumir o cargo. Mas a demonstração mais clara da audácia da quadrilha ainda estava por vir.

Em 27 de dezembro de 2005, um grupo fortemente armado interceptou um furgão da Polinter bem na porta do fórum da Ilha do Governador. O veículo realizava o desembarque de detentos que passariam por audiências criminais. O plano, arquitetado detalhadamente pelo próprio Marcélio por meio de um telefone celular de dentro da prisão, tinha como único objetivo o seu resgate para que ele pudesse retomar as rédeas do tráfico na Maré.

O ataque resultou em um tiroteio de grandes proporções no meio da rua, que culminou na morte trágica de dois policiais civis que faziam a escolta do furgão. Os criminosos conseguiram retirar Marcélio do veículo e fugiram em alta velocidade. No entanto, a reação do Estado foi imediata. Uma caçada humana foi iniciada e, poucas horas depois, Marcélio e um cúmplice foram encurralados em uma área de mata densa situada dentro de um terreno pertencente à Aeronáutica. Em um novo confronto armado, ambos foram baleados e morreram no local. O episódio expôs a fragilidade do sistema de custódia de presos do Rio de Janeiro, levando o governo a fechar definitivamente a carceragem da Polinter e a determinar a transferência imediata de lideranças como Sassá para o recém-criado Sistema Penitenciário Federal de Segurança Máxima, visando o isolamento total de suas influências externas.

O Declínio de um Império: Traições e o Tribunal do Crime

Durante os longos anos em que Sassá permaneceu isolado em penitenciárias federais, distante do Rio de Janeiro, a geografia do crime na Maré sofreu modificações profundas e irreversíveis. Em 2009, uma ala de criminosos da própria Maré optou por mudar de lado e selou uma aliança com a facção rival Terceiro Comando Puro (TCP). Esse movimento culminou em um golpe armado violento que expulsou os homens que ainda eram leais a Sassá de todas as bocas de fumo da Vila do Pinheiro e da Vila do João, os palcos de sua ascensão.

A única grande área remanescente de sua antiga estrutura que se manteve fiel às suas diretrizes foi o Complexo da Pedreira, localizado no bairro de Costa Barros. A partir de 2010, a liderança operacional das ruas na Pedreira foi assumida por Celso Pinheiro Pimenta, o “Playboy”. Apadrinhado por Sassá no início de sua trajetória criminosa, Playboy manteve uma conduta de absoluta fidelidade ao padrinho aprisionado. Ele gerenciava os pontos de venda e enviava regularmente parcelas significativas dos lucros para o sustento da família de Sassá, além de arcar com os altos honorários de suas equipes de advogados.

Playboy transformou o Complexo da Pedreira no maior centro de roubo de cargas do estado, mantendo a estrutura financeiramente robusta até agosto de 2015, quando foi localizado e morto em uma operação policial. A morte de Playboy representou o fim da última liderança que impunha o cumprimento das ordens de Sassá naquelas comunidades.

Os gerentes que herdaram o controle da Pedreira, conhecidos pelos vulgos de “Raro” e “Arafat”, decidiram romper os laços de fidelidade e passaram a reter integralmente os lucros da venda de drogas. O isolamento de Sassá agravou-se definitivamente em setembro de 2017, quando uma guerra civil interna pelo controle da favela da Rocinha — dividida entre os traficantes “Nem” e “Rogério 157” — culminou na migração de Rogério para a facção Comando Vermelho (CV). A perda da Rocinha sufocou financeiramente a Amigos dos Amigos em todo o estado do Rio de Janeiro.

Temendo uma invasão iminente do Comando Vermelho e sem receber qualquer suporte logístico ou financeiro da cúpula da ADA, Raro e Arafat negociaram secretamente uma transição de bandeira com os chefes do Terceiro Comando Puro. Entre o final de 2017 e o início de 2018, o Complexo da Pedreira e o Complexo do Caju passaram oficialmente a integrar o TCP.

Para consolidar a nova gestão e eliminar qualquer foco de resistência ou vazamento de informações para o antigo chefe no presídio, os novos donos do morro instituíram uma política de purga interna. O traficante Raro criou o temido “Tribunal do Roberto Carlos” — uma gíria local utilizada para sentenciar à morte imediata no “micro-ondas” (pneus incendiados) qualquer aliado que demonstrasse simpatia ou tentasse repassar informações para Sassá. Os poucos soldados sobreviventes e leais ao antigo líder foram obrigados a abandonar o território e buscar refúgio no vizinho Complexo do Chapadão, controlado pelo Comando Vermelho.

O Último Movimento no Tabuleiro

Ao tomar conhecimento dentro da cela federal de que havia perdido todos os seus territórios e de que seus homens de confiança haviam sido brutalmente executados, Sassá rompeu em definitivo seus laços históricos com a ADA. Em uma jogada política desesperada de sobrevivência no xadrez do crime organizado, ele negociou sua entrada na facção rival, o Comando Vermelho. Em troca de proteção, armas e soldados para tentar retomar seus antigos domínios, Sassá ofereceu ao CV o mapeamento detalhado de todos os acessos estratégicos e pontos vulneráveis do Complexo da Pedreira.

Em outubro de 2019, o plano de retomada foi colocado em prática. Tropas de invasores do Comando Vermelho, utilizando o Complexo do Chapadão e o Complexo do Alemão como bases de lançamento, iniciaram uma pesada ofensiva militar contra a Pedreira. O intenso conflito armado estendeu-se por vários dias, espalhando o pânico na Zona Norte e paralisando vias de transporte. Contudo, a tentativa de invasão terminou em um completo fracasso tático para o Comando Vermelho, que não conseguiu desalojar as posições defensivas bem estabelecidas pelo TCP na Pedreira.

O desfecho dessa guerra selou de maneira definitiva a perda de qualquer resquício de poder ou influência que Edmilson Ferreira dos Santos ainda tentava exercer das sombras do cárcere. Por conta de seu extenso histórico de liderança e pelo papel central que desempenhou nas sucessivas guerras de facções que moldaram a segurança pública do Rio de Janeiro, ele permaneceu por quase duas décadas sob o regime rigoroso do Sistema Penitenciário Federal. Atualmente, Sassá cumpre o restante de sua pena em uma unidade prisional no próprio estado do Rio de Janeiro, totalmente destituído de suas antigas glórias, sem homens sob seu comando e sem qualquer controle sobre os territórios que um dia governou com mão de ferro.

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