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O Sicário do PCM que Sobreviveu a 16 Tiros e Desafiou o Inferno

O Sicário do PCM que Sobreviveu a 16 Tiros e Desafiou o Inferno

Em 2016, um vídeo gravado nos bastidores de uma delegacia no interior do Maranhão quebrou a internet e chocou até os policiais mais experientes. Algemado, evitando o olhar direto da câmera, um homem magro e marcado por cicatrizes profundas exibia uma frieza assustadora. Seu nome: Gledson Boas. Seu vulgo no submundo: Cabo Diabo.

A alcunha, que evoca o próprio horror, não era um exagero retórico. Integrante do Primeiro Comando do Maranhão (PCM), Cabo Diabo carregava nas costas a contagem de pelo menos 16 homicídios. Mas o que transformou sua história em uma lenda urbana do crime organizado não foi apenas a sua letalidade, mas sim o fato de ter sobrevivido ao impensável: um atentado com 16 disparos de arma de fogo. Da canela à cabeça, ele foi metralhado por rivais e sobreviveu. Quando questionado sobre a origem do apelido, a resposta ecoou como um manifesto macabro: “O diabo não me quis no inferno. Falou para mim que dois diabos lá não dá certo. Mandou eu subir e mandar as almas daqui para ele.”

Esta é a crônica de um homem que transformou o próprio corpo em um campo de batalha, que fez da prisão o seu tribunal e que, mesmo após tentar fugir por mais de mil quilômetros, acabou tragado de volta pelo sistema que o criou.

O Berço do Monstro: A Guerra de Pedrinhas e o Nascimento das Facções

Para entender a trajetória de Cabo Diabo, é preciso retroceder aos anos 2000, um período em que o sistema prisional do Maranhão fervilhava em uma rivalidade silenciosa e brutal. De um lado, os detentos oriundos do interior do estado; do outro, os presos da capital, São Luís. O ódio mútuo acumulou-se por quase uma década até explodir, em novembro de 2010, em uma das rebeliões mais sangrentas da história carcerária brasileira, no Complexo Penitenciário de Pedrinhas.

O motim durou 28 horas e deixou um saldo de 18 mortos em condições de extrema barbárie. Foi do rastro de sangue desse massacre que nasceram as duas maiores forças criminosas do estado:

  • O Primeiro Comando do Maranhão (PCM): Fundado majoritariamente pelos detentos do interior.

  • O Bonde dos 40: Formado pelos criminosos da capital.

A guerra pelos pavilhões rapidamente saltou as muralhas de Pedrinhas e invadiu as periferias maranhenses. Foi nesse cenário de terra arrasada, onde a vida valia muito pouco, que Gledson Boas encontrou o seu propósito. Iniciado no crime com apenas 12 anos de idade, ele rapidamente ascendeu dentro do PCM, assumindo a função mais temida de qualquer organização: a de sicário. Gladson tornou-se o executor oficial da facção, o homem enviado para eliminar os alvos do Bonde dos 40.

16 Mortes, 16 Tiros e a “Lei da Selva”

A rotina de Cabo Diabo era ditar quem vivia e quem morria. Contudo, quem vive pela espada, pela espada é ferido. Numa emboscada armada por seus inimigos mortais do Bonde dos 40, Gledson foi encurralado. Os rivais descarregaram suas armas. Foram 16 perfurações pelo corpo. Três delas atingiram sua cabeça.

Qualquer tratado de medicina decretaria o seu óbito instantâneo, mas Cabo Diabo permaneceu vivo. Passou dois anos internado em estado gravíssimo, perdeu parte considerável de seus órgãos internos — restando-lhe funcional apenas o lado direito do torso —, mas sobreviveu. Longe de enxergar o milagre como uma chance de redenção, ele encarou a sobrevida como um pacto de sangue.

Em agosto de 2016, com a sede de vingança renovada, ele viajou até a cidade de Vargem Grande com uma missão clara: executar mais um desafeto. Mas o plano falhou. Detido em flagrante por tentativa de latrocínio, ele deu a famosa entrevista que chocou o país. Diante do microfone, ao ser questionado se realmente havia matado 16 pessoas, desdenhou: “Paz, isso daí posso dizer que sim, nem posso dizer que não. Eu só sei que eu tenho guerra com esses cabocos [Bonde dos 40]”. E disparou uma máxima que resume a sua existência:

“Não é porque eu sinto prazer, é porque é a lei da sobrevivência. Sobrevive o mais forte, é a lei da selva. Em vez de a minha mãe chorar, a mãe deles vai chorar primeiro.”

O Terror Entre os Próprios Presos

Encaminhado de volta para Pedrinhas, a reputação de Cabo Diabo o precedia. Relatos da época apontam que mesmo em um presídio de segurança máxima, habitado por assaltantes de banco e homicidas da pior espécie, outros detentos tinham pânico de compartilhar a cela com ele. Ninguém queria dormir ao lado do homem que o inferno havia rejeitado.

O medo provou-se justificado. Mesmo atrás das grades, Gladson continuou a exercer seu papel de carrasco. Ao descobrir que um dos detentos, José de Ribamar Pereira (conhecido como “Bier”), havia sido preso por assassinar a própria esposa com 30 facadas, Cabo Diabo assumiu a função de juiz e executor. Junto com um comparsa, usou as próprias roupas da cela para estrangular Bier até a morte. O crime demonstrou que, para ele, os muros da prisão não eram um limite para a sua violência.

A Metamorfose e a Captura a 1000 km de Casa

Os anos se passaram e o sistema judiciário brasileiro, por vias de progressão de pena e benefícios, acabou colocando Cabo Diabo novamente nas ruas. Em agosto de 2022, ele foi detido mais uma vez, agora portando uma faca. Visualmente envelhecido e magro, o discurso parecia ter mudado. Ele alegava estar tentando trabalhar em uma firma e pedia uma chance: “Dedo queimado sempre leva a culpa. Onde me olham, ninguém quer me arrastar. Eu não faço mais essas ondas não”. A polícia, por sua vez, desmentia a sua regeneração, apontando-o como o terror local responsável por uma onda de assaltos na região.

O capítulo final — por enquanto — dessa saga ocorreu recentemente. Beneficiado pela saída temporária de Páscoa no dia 1º de abril, Gladson rompeu a tornozeleira eletrônica e decidiu que não retornaria jamais. Iniciou uma fuga desesperada em direção ao Norte do país, cruzando fronteiras estaduais na tentativa de se diluir na imensidão da Amazônia.

No entanto, o instinto violento do sicário foi a sua ruína. Após percorrer mais de 1.000 quilômetros, Cabo Diabo parou em um posto de combustíveis na cidade de Araguaína, no norte do Tocantins, onde se envolveu em uma confusão generalizada. A Polícia Militar foi acionada. Ao ser abordado, ele apresentou documentos falsos e sustentou a história de que era apenas um trabalhador migrante.

A farsa durou pouco. Os policiais notaram inconsistências flagrantes no sistema e entraram em contato direto com a inteligência da polícia do Maranhão. O veredicto do computador foi imediato: o homem no posto de gasolina era ninguém menos que o temido matador do PCM.

Hoje, Cabo Diabo está de volta ao sistema penitenciário de São Luís. Com o corpo crivado de balas velhas e o destino selado pelas grades, ele permanece como um dos personagens mais sombrios e enigmáticos da crônica policial brasileira: o homem que desafiou o Bonde dos 40, a medicina e o próprio diabo.

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