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Obsessão Fatal na Bahia: O Trágico Fim de Karielle de Souza e de Seu Filho de 6 Anos Após Uma Década de Perseguição

Obsessão Fatal na Bahia: O Trágico Fim de Karielle de Souza e de Seu Filho de 6 Anos Após Uma Década de Perseguição

O Sorriso de Ibirapitanga e a Sombra do Perigo

Em Ibirapitanga, no sul da Bahia, Karielle Lima Marques de Souza era mais do que apenas uma moradora do Bairro Novo. Aos 23 anos, ela personificava a força e a beleza da mulher baiana. Atendente de classe no grupo escolar municipal Edson Ramos, Karielle cuidava do futuro das crianças da sua cidade com o mesmo carinho com que exercia sua segunda profissão: trancista. Com mãos habilidosas, ela transformava o visual de outras mulheres, elevando a autoestima da comunidade. Sua paixão pela capoeira e sua conquista como “Deusa do Ébano” em um bloco afro de Salvador em 2025 eram motivos de orgulho para todos que a conheciam.

No entanto, por trás dessa vida de dedicação e conquistas, Karielle carregava um fardo silencioso e aterrorizante. Desde os 13 anos de idade, ela era alvo de uma perseguição obsessiva por parte de Rollenberg Santos de Pina, um homem nove anos mais velho. O que para alguns poderia parecer um “interesse persistente”, para Karielle era uma sentença de medo que durava uma década. Ela nunca aceitou as investidas de Rollenberg, mas a rejeição, em vez de afastar o agressor, parecia alimentar sua fixação doentia.

A Escalada do Medo e o Grito de Socorro

Com o passar dos anos, Karielle tentou seguir sua vida. Tornou-se mãe de Nicolas, um menino enérgico de 6 anos, e recentemente, no início de 2026, deu à luz seu segundo filho, hoje com apenas 3 meses de vida. Ela mantinha um relacionamento estável e parecia ter encontrado a felicidade, mas Rollenberg continuava à espreita. Em abril de 2026, a perseguição atingiu níveis insuportáveis. O homem rondava sua casa constantemente, gerando um estado de alerta na jovem mãe.

No sábado, 4 de abril, Karielle enviou uma mensagem desesperada a uma prima, relatando que estava com muito medo de sair de casa para almoçar com a avó, pois Rollenberg estava por perto. Ela já havia decidido que não poderia mais viver daquela forma e planejava registrar um boletim de ocorrência na segunda-feira, dia 6 de abril, buscando proteção legal contra o assediador. Infelizmente, o relógio da justiça não correu tão rápido quanto a maldade de quem a perseguia.

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O Domingo Sangrento no Bairro Novo

O domingo, 5 de abril de 2026, amanheceu como qualquer outro. O companheiro de Karielle saiu cedo para trabalhar, deixando-a em casa com as duas crianças. Por volta do meio-dia, Karielle decidiu sair de sua residência com o filho mais velho, Nicolas, possivelmente para visitar um parente na mesma rua. Foi o momento que Rollenberg esperava. Escondido atrás de um veículo estacionado, ele saltou sobre mãe e filho munido de uma faca.

Sem qualquer chance de defesa, Karielle e Nicolas foram atingidos por inúmeros golpes. Os gritos de socorro ecoaram pelo Bairro Novo, mobilizando vizinhos que, em choque, tentaram ajudar as vítimas. Mãe e filho foram levados às pressas para o Hospital Municipal de Ibirapitanga em estado gravíssimo. Contudo, a brutalidade dos ferimentos foi fatal. Horas depois, a equipe médica confirmou o falecimento de ambos, deixando a cidade em luto oficial e um bebê de 3 meses órfão de mãe e irmão.

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A Caçada e o Desfecho na Zona Rural

A Polícia Civil da Bahia e a Polícia Militar iniciaram uma busca intensiva por Rollenberg Santos de Pina imediatamente após o crime. A comoção era total e a pressão para encontrar o assassino crescia a cada minuto. O desfecho, porém, não viria através de uma prisão convencional. Na mesma noite do crime, a polícia recebeu informações sobre o corpo de um homem encontrado em uma área rural de Maraú, no distrito de Piabanha.

Ao chegarem ao local, as equipes confirmaram que se tratava de Rollenberg. Ao lado do corpo, estavam sua motocicleta e a faca utilizada no crime. Segundo o delegado responsável, as evidências indicavam que o agressor havia tirado a própria vida após cometer o bárbaro assassinato. Com a morte do único suspeito, o inquérito policial caminhou para uma finalização rápida, confirmando que a motivação foi a incapacidade do agressor de aceitar a autonomia e a recusa de Karielle em manter qualquer vínculo com ele.

Reflexão: A Falha Sistêmica e a Perseguição Prolongada

O caso de Karielle de Souza é um retrato cruel de uma lacuna na proteção às mulheres. Como um homem consegue perseguir uma criança de 13 anos, tornar-se um adulto de 22 mantendo essa fixação e continuar a assediá-la por mais dez anos sem que o sistema consiga interromper esse ciclo? A perseguição prolongada, muitas vezes minimizada como “insistência”, é um preditor direto de violência letal.

Especialistas alertam que a legislação brasileira, embora tenha avançado com a Lei do Stalking (crime de perseguição, art. 147-A do Código Penal), ainda enfrenta dificuldades na execução de medidas protetivas que realmente mantenham o agressor afastado em áreas rurais ou bairros periféricos onde o convívio é inevitável. Karielle tentou buscar a lei, mas a burocracia e a falta de celeridade custaram sua vida e a de uma criança inocente.

Ibirapitanga se despediu de sua Deusa do Ébano sob lágrimas e revolta no dia 7 de abril. A prefeitura decretou luto e a comunidade clama para que a história de Karielle e Nicolas não seja apenas mais uma estatística, mas um ponto de virada na forma como encaramos a obsessão e a segurança das mulheres em nossa sociedade. O pequeno Nicolas, de apenas 6 anos, teve seu futuro roubado, e o bebê de 3 meses crescerá com a ausência de um colo que lhe foi tirado pela covardia de um homem que nunca soube ouvir um “não”.