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O Pacto de Sangue de Fafe: A Teia Internacional de Ganância e Morte que Uniu Portugal, França e Holanda

O Pacto de Sangue de Fafe: A Teia Internacional de Ganância e Morte que Uniu Portugal, França e Holanda

A história do crime em Portugal guarda capítulos que parecem extraídos de um roteiro de cinema noir, onde a realidade supera a ficção pela sua crueza e alcance geográfico. O caso que ficou conhecido como o “Pacto de Sangue” é, talvez, o exemplo mais emblemático de como uma disputa doméstica por herança pode evoluir para uma conspiração internacional, resultando em uma cadeia de homicídios preventivos que atravessou três fronteiras europeias.

O Silêncio Enganador do Minho

Fafe, agosto de 1994. No coração do Minho, entre o verde generoso das montanhas e o ritmo pausado de uma cidade marcada pela indústria têxtil e pela emigração, um crime brutal romperia a paz das noites de verão. Joaquim Cunha, conhecido como “Mandinho”, um homem de 44 anos com um histórico de problemas com o álcool e sem emprego fixo, foi encontrado morto em sua casa.

O cenário era dantesco. O corpo de Mandinho estava crivado com dezenas de facadas — uma violência desproporcional que indicava uma fúria cega ou um desequilíbrio emocional profundo dos agressores. Não houve precisão cirúrgica; houve frenesi. A princípio, as autoridades locais trabalharam com a hipótese de um assalto que correu mal, o chamado “roubo seguido de morte”. No entanto, em cidades como Fafe, os segredos apenas mudam de dono, mas raramente morrem no esquecimento.

Os olhares da comunidade e, posteriormente, dos inspetores da Polícia Judiciária (PJ), rapidamente se voltaram para Júlia Cunha, a esposa. Filha de um construtor civil bem-sucedido, Júlia era herdeira de um vasto patrimônio de imóveis e terrenos. O casamento era uma “guerra fria” de desgaste. O divórcio era iminente, mas a perspectiva de dividir a herança do seu pai com um marido que ela considerava irresponsável era, para ela, inaceitável. Júlia não queria apenas a separação; ela queria a preservação total dos seus bens. Entre o tribunal e o crime, ela escolheu o sangue.

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O Recrutamento no Subúrbio de Paris

Sem querer sujar as mãos diretamente e buscando um álibi de distanciamento, Júlia recorreu a um velho laço da rede de emigração: Hilário Soares, um amigo de infância estabelecido na periferia de Paris. Por uma quantia de 5.000 contos — uma pequena fortuna para a época —, Hilário aceitou o encargo de “resolver o problema”.

Em um ato de negligência paternal extrema e quase incompreensível, Hilário não contratou assassinos profissionais. Ele transmitiu a missão ao próprio filho, João Soares, de apenas 18 anos. João, nascido e criado nos bairros periféricos parisienses, recrutou dois amigos: José Martins Castro e um terceiro cúmplice.

O trio viajou de comboio de Paris até Fafe. Júlia, a mandante, forneceu as chaves da residência e o cronograma do marido. Naquela noite de agosto, a execução foi marcada por uma brutalidade amadora. O excesso de facadas revelava o pânico e a adrenalina de jovens que não eram criminosos de carreira, mas que se tornaram carrascos por lealdade ou ganância. Após o crime, regressaram a França, acreditando que a fronteira seria o seu escudo definitivo.

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A Espiral de Homicídios Preventivos

O que Júlia e os Soares não previram foi o peso esmagador da consciência humana. José Martins Castro, o mais jovem do grupo, tornou-se o elo fraco. Assombrado pelas imagens do corpo de Mandinho, ele começou a sofrer de insônias e visões. O arrependimento corroía o pacto de silêncio.

Numa tentativa desesperada de desabafo e busca por redenção, José confessou o crime a um conhecido em Paris, Armando Nogueira. Esta confidência, feita num momento de fragilidade, ativou a lógica perversa da sobrevivência criminal: a “limpeza” de testemunhas. Para João Soares e os demais, José e Armando tornaram-se “pontas soltas” que poderiam levar todos à prisão perpétua.

Em 1996, Armando Nogueira foi atraído para o densos bosques de Larchant, perto de Paris. Lá, foi executado de forma traiçoeira com um tiro de arpão. O seu corpo foi regado com gasolina e queimado, uma técnica para destruir vestígios de ADN e dificultar a identificação, transformando um homicídio num desaparecimento misterioso.

O Fim da Linha em Amesterdão

José Martins Castro percebeu que o cerco estava a apertar. Após sofrer uma agressão violenta em Paris — um aviso claro de que o grupo sabia da sua “traição” —, ele fugiu para o norte, buscando o anonimato nos canais de Amesterdão.

No entanto, o “braço” do pacto era longo e implacável. Na noite de 16 de abril de 1997, no Westerpark, José foi finalmente alcançado. Ele foi executado com 23 facadas — um número que muitos investigadores acreditam ter sido um eco deliberado do ataque a Mandinho em Fafe, quase como uma assinatura ou um castigo simbólico. O jovem que procurava a paz através do desabafo encontrou a morte sozinho num país onde era um estranho.

A morte de José Martins foi, ironicamente, o erro que desmoronou a teia. A polícia holandesa, ao identificar o corpo e notar cicatrizes de agressões recentes tratadas em França, iniciou uma cooperação internacional sem precedentes para a época. O quebra-cabeça começou a unir as peças: a vítima de Amesterdão estava ligada aos desaparecidos de Paris, que por sua vez tinham raízes em Fafe, onde um crime de 1994 continuava sem solução oficial.

A Justiça Tardia, mas Implacável

A investigação durou mais de uma década. Exigiu o cruzamento de dados entre a PJ portuguesa, a Gendarmerie francesa e a polícia holandesa. O castelo de cartas caiu quando Hilário Soares, o pai que recrutou o filho, foi confrontado com as provas forenses e os depoimentos colhidos no círculo de imigrantes em Paris. Sob o peso da culpa e da possibilidade de ver o filho apodrecer na prisão por múltiplos crimes, Hilário confessou o papel de intermediário.

Em 2009, 15 anos após o primeiro golpe em Fafe, as sentenças foram finalmente proferidas:

  • Júlia Cunha: Foi condenada em Portugal a 18 anos de prisão como mandante do homicídio do marido. O tribunal considerou que a sua ganância foi o motor inicial de toda a tragédia.

  • João Soares e David Jandin: Foram condenados em França a 10 anos de prisão cada um, pelos homicídios de Fafe e Larchant.

  • Maria Soares (mãe de João): Foi condenada a 7 anos por cumplicidade na ocultação de provas e auxílio aos criminosos.

O Legado de uma Tragédia

Hoje, a casa em Fafe onde Mandinho morreu tem novos proprietários e uma nova vida. O Westerpark, em Amesterdão, continua a ser um local de lazer para famílias e turistas. Mas a história do “Pacto de Sangue” permanece na memória coletiva como uma advertência sombria.

Este caso é estudado como um exemplo de “homicídios preventivos”, onde o medo da justiça leva criminosos a cometerem atos ainda mais graves para encobrir o original. Mostra também que a lealdade baseada no sangue ou no dinheiro é frágil perante a consciência. Júlia Cunha, que queria preservar a sua herança, acabou por perder a liberdade, a reputação e o convívio com os filhos, provando que o crime, além de não compensar, cobra juros em vidas humanas.

A justiça chegou tardia e imperfeita, mas serviu para honrar a memória de quem foi sacrificado no altar da ganância transfronteiriça.