O “Intercâmbio” do Crime: Criminosos do Rio são flagrados fardados na Ucrânia jurando lealdade às facções
Introdução: A Inesperada Conexão entre as Favelas Cariocas e o Front no Leste Europeu
A globalização do século XXI e o advento das redes sociais criaram pontes inimagináveis, conectando realidades distantes de maneiras complexas e, muitas vezes, perigosas. Um dos fenômenos mais recentes e alarmantes dessa interconexão é o alistamento de cidadãos brasileiros na guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Atraídos por promessas de altos ganhos financeiros espalhadas pela internet, por anúncios de recrutamento digital ou pelo desejo de vivenciar uma experiência militar real, dezenas de voluntários têm deixado o Brasil rumo ao fronte de batalha europeu. Contudo, por trás do fluxo de combatentes voluntários tradicionais, esconde-se uma vertente muito mais complexa e sombria: a presença de integrantes das maiores facções criminosas do Rio de Janeiro — o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP) — em trincheiras ucranianas.
Esse fenômeno de migração de criminosos cariocas para um teatro de operações militares internacional foi jogado sob a luz dos holofotes por investigações jornalísticas e relatórios das agências de inteligência da segurança pública brasileira. A ida desses indivíduos para o Leste Europeu não se resume a uma mera busca por aventura; ela é moldada por dois vetores diametralmente opostos. De um lado, existem criminosos que enxergam no alistamento militar internacional uma “porta de saída” desesperada para abandonar o submundo do tráfico, limpar o histórico pessoal e recomeçar a vida do outro lado do mundo. Do outro lado, reside a real preocupação das autoridades brasileiras: o envio de “soldados” do tráfico para o fronte com o objetivo explícito de absorver o know-how de guerra moderna, aprender a operar tecnologias de monitoramento e ataque, e replicar essas táticas letais no cenário da guerra urbana que assola a região metropolitana do Rio de Janeiro há décadas.
O debate ganha contornos de urgência à medida que o conceito de “ucranização” passa a fazer parte do vocabulário de especialistas em segurança pública e comandantes de forças policiais. O medo de que o armamento tecnológico que sobra dos campos de batalha europeus e o conhecimento de táticas de guerrilha assimétrica desembarquem nos portos, aeroportos e fronteiras brasileiras acendeu o sinal de alerta máximo no governo e nas polícias do Rio de Janeiro.

O Recrutamento na Era Digital e a Ilusão dos Ganhos no Fronte
O processo de recrutamento de combatentes estrangeiros para a Ucrânia baseia-se amplamente na pulverização de informações por meio das redes sociais, fóruns de internet e aplicativos de mensagens. Agentes recrutadores ou intermediários divulgam propostas que, à primeira vista, parecem irrecusáveis para jovens oriundos de realidades socioeconômicas vulneráveis ou para indivíduos sem grandes perspectivas de evolução profissional no Brasil. As promessas padrão envolvem contratos de engajamento militar com duração média de seis meses, alojamento, alimentação custeada pelo governo local e salários mensais que giram em torno de R$ 18.000 (cerca de 3.000 a 4.000 dólares, dependendo das cotações e das bonificações de combate).
Entretanto, a realidade encontrada pelos voluntários ao desembarcarem no Leste Europeu costuma ser drasticamente diferente daquela vendida pelas campanhas de marketing militar digital. Especialistas em conflitos internacionais apontam que o pagamento integral desses valores está diretamente atrelado ao cumprimento de missões de altíssimo risco na chamada “linha de frente” ou “fronte”. Indivíduos que acabam alocados em posições de retaguarda, suporte logístico ou que não chegam a participar ativamente das incursões mais perigosas muitas vezes não recebem as quantias prometidas.
Além disso, a burocracia militar, os descontos contratuais e a desorganização administrativa inerente a um estado de guerra prolongado fazem com que muitos combatentes fiquem desamparados. Em casos mais extremos, voluntários estrangeiros com pouca ou nenhuma preparação militar prévia são utilizados como força de desgaste em posições vulneráveis, enfrentando o poder de fogo massivo de artilharia pesada e ataques aéreos coordenados. O sonho do enriquecimento rápido e da estabilidade financeira transforma-se, em questão de dias, em uma luta brutal pela sobrevivência em um ambiente onde a expectativa de vida pode ser medida em semanas.

O Caso dos Dissidentes do TCP: A Guerra como Rota de Fuga do Crime
Em maio de 2026, uma reportagem investigativa de grande repercussão nacional, veiculada pelo programa Domingo Espetacular, da Rede Record, e conduzida pelo jornalista Tino Júnior, trouxe à tona a história de três jovens brasileiros que atuavam no comércio ilegal de entorpecentes no Rio de Janeiro. Identificados na matéria pelos codinomes “GS”, “Mestre” e “Predador”, os três rapazes eram integrantes ativos do Terceiro Comando Puro (TCP), uma das organizações criminosas mais violentas do estado. Motivados pelas promessas de remuneração em moeda estrangeira e pela possibilidade de cortar em definitivo os laços com a criminalidade organizada no Brasil, eles decidiram se alistar e embarcar para a Ucrânia.
Durante as entrevistas concedidas ao jornalista, os ex-membros do TCP relataram que o alistamento militar funcionou como uma espécie de salvo-conduto ou mecanismo de reinvenção pessoal. Para eles, a distância geográfica e o status de combatente legalizado sob uma bandeira estrangeira representavam a única oportunidade real de deixar para trás o estigma do narcotráfico e a constante ameaça de morte ou prisão que os perseguia no Rio de Janeiro. A narrativa apresentada por esses jovens carregava um forte viés de regeneração: a disposição de enfrentar uma guerra formal entre duas nações soberanas como um preço a pagar para obter uma nova identidade social e uma folha de serviços limpa.
Ao final do período de contratação e após sobreviverem aos horrores dos combates, o destino desses rapazes confirmou, em parte, a busca pela mudança de vida. A reportagem revelou que o indivíduo identificado como “GS”, após conseguir se desvincular do fronte ucraniano, não retornou para as favelas do Rio de Janeiro. Ele migrou para a Europa Ocidental e conseguiu estabelecer-se legalmente em Portugal, onde passou a trabalhar no setor de segurança privada. O caso demonstra que, para uma parcela dos voluntários oriundos do crime, a guerra internacional funcionou de fato como uma ponte drástica para a emigração e para a saída do circuito do tráfico doméstico.

O Fronte Ucraniano Versus a Guerra Urbana no Rio: A Percepção dos Combatentes
Apesar de terem sido criados e inseridos no contexto da guerra de facções no Rio de Janeiro — um ambiente marcado por tiroteios diários, invasões de territórios e uso de fuzis de assalto —, os ex-combatentes do TCP foram categóricos ao afirmar que nada do que viveram no Brasil se compara à escala de destruição da guerra entre Rússia e Ucrânia. A percepção dos jovens expõe a diferença fundamental entre a violência de segurança pública e um conflito bélico de alta intensidade entre exércitos regulares de duas potências militares.
Segundo os relatos de “GS”, “Mestre” e “Predador”, o fronte de batalha ucraniano é um “verdadeiro inferno na Terra”, onde o fator humano e a habilidade individual com armas leves são frequentemente anulados pelo uso maciço e impessoal de artilharia pesada, bombardeios de saturação e, principalmente, pelo emprego ostensivo de veículos aéreos não tripulados (drones). Os combatentes destacaram que, no Rio de Janeiro, os confrontos costumam ser de curta distância, focados no controle de pontos de venda de drogas ou na contenção de incursões policiais, onde o conhecimento do terreno urbano oferece vantagens táticas. Na Ucrânia, por outro lado, a morte chega de forma invisível, vinda do céu, a quilômetros de distância, sem que o soldado tenha qualquer chance de reação ou defesa direta.
A intensidade do conflito no Leste Europeu desmistificou a suposta “preparação” que a vivência no crime carioca teria proporcionado a esses indivíduos. A exposição a bombardeios ininterruptos, o inverno rigoroso, a barreira linguística e a imensidão dos campos de batalha abertos forçaram uma rápida adaptação psicológica. Eles constataram que a letalidade da guerra formal opera em uma dimensão industrial e tecnológica completamente distinta da realidade das operações policiais e dos confrontos entre o CV e o TCP nas comunidades fluminenses.
A Suspeita que Assombra as Autoridades: O Comando Vermelho e a Importação de Know-How
Se o caso dos integrantes do TCP foi interpretado como uma tentativa de fuga e abandono da criminalidade, as movimentações identificadas em ala do Comando Vermelho (CV) acenderam os alertas de inteligência por motivos diametralmente opostos. Em novembro de 2025, investigações conduzidas pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro e pela Subsecretaria de Inteligência (SSINTE) apontaram indícios contundentes de que a maior facção criminosa do Rio estaria utilizando o conflito na Ucrânia de forma estratégica, enviando quadros técnicos para receber instrução militar avançada e atuar como multiplicadores de conhecimento tático dentro das favelas controladas pela organização.
O principal foco dessa investigação centrou-se na figura de Felipe Marx Pinto. De acordo com os relatórios policiais, Felipe possui ligações estreitas com a cúpula do Comando Vermelho, integrando a estrutura criminosa liderada por Antônio Ilio Ferreira, conhecido vulgarmente pelos vulgos “Rabicó” ou “Coroa”. Rabicó é uma das lideranças históricas da facção e comanda com mão de ferro, há décadas, o Complexo do Salgueiro, localizado em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O Complexo do Salgueiro é historicamente reconhecido pelas forças de segurança como um reduto estratégico do CV, caracterizado por extensas áreas de mata, forte armamento e a realização de treinamentos táticos de guerrilha por parte dos traficantes.
A suspeita de que Felipe Marx Pinto teria ido à Europa não para passear ou fugir, mas para se especializar em táticas de combate militar, baseou-se no monitoramento de seus deslocamentos internacionais e em suas próprias publicações em redes sociais e aplicativos de mensagens privadas. A inteligência policial identificou que, entre os anos de 2023 e o final de 2025, Felipe realizou pelo menos três viagens em direção ao continente europeu, utilizando Portugal como principal porta de entrada e base logística de trânsito.
O Rastro de Felipe Marx Pinto: Viagens, Uniformes e Saudações à Facção
O monitoramento detalhado realizado pelas forças de segurança pública do Rio de Janeiro mapeou com precisão os passos de Felipe Marx Pinto. Os registros migratórios da Polícia Civil apontaram três entradas de Felipe em território europeu a partir de 2023. A última movimentação documentada ocorreu em setembro de 2025, quando ele desembarcou novamente em Portugal. A partir desse ponto, as autoridades brasileiras não identificaram nenhum registro oficial de retorno do suspeito ao Brasil, levantando a forte hipótese de que ele teria se deslocado por vias terrestres ou voos internos na Europa em direção às bases de recrutamento da Legião Internacional da Ucrânia.
As suspeitas ganharam materialidade quando a inteligência localizou e interceptou conteúdos audiovisuais de Felipe em solo ucraniano. Em fotos e vídeos que circularam em canais restritos, ele aparece utilizando o fardamento militar padrão, com os padrões de camuflagem oficiais adotados pelas Forças Armadas da Ucrânia. O material não deixava dúvidas sobre o seu envolvimento direto com as rotinas militares do conflito contra as forças russas.
O elemento mais alarmante e inequívoco da conexão criminosa foi um vídeo em que Felipe Marx Pinto aparece em um ambiente de instrução militar, demonstrando alta familiaridade técnica ao desmontar e montar com rapidez uma espingarda de combate. Durante a gravação, olhando diretamente para a câmera, ele profere uma saudação explícita à sua organização de origem no Rio de Janeiro: “Comando Vermelho puro e sem mistura”. A declaração foi interpretada pelos analistas de segurança como uma prova contundente de que, mesmo vestindo a farda de um exército estrangeiro em meio a uma guerra geopolítica de proporções globais, a lealdade ideológica e o vínculo operacional do indivíduo permaneciam atrelados à estrutura do narcotráfico carioca, servindo como uma espécie de “prestação de contas” ou demonstração de evolução técnica para as lideranças do Complexo do Salgueiro.
A Tecnologia dos Céus: O Uso de Drones na Guerra e no Tráfico
Uma das principais revoluções tecnológicas da guerra na Ucrânia é o uso intensivo, doutrinário e descentralizado de veículos aéreos não tripulados (drones). Equipamentos que antes eram restritos ao lazer, à produção audiovisual ou à vigilância industrial foram transformados pelas forças ucranianas e russas em armas táticas de alta letalidade, capazes de alterar o curso de pequenas batalhas e neutralizar blindados multimilionários.
Essa doutrina de emprego de drones foi categorizada em duas frentes principais no Leste Europeu:
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Drones de Reconhecimento e Coordenação de Tiro: Utilizados para mapear posições inimigas em tempo real e corrigir as coordenadas de peças de artilharia ou morteiros.
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Drones Kamikazes (FPV – First Person View): Equipamentos de alta velocidade pilotados por meio de óculos de realidade virtual, carregados com explosivos de impacto, que se chocam diretamente contra alvos humanos ou veículos.
No Rio de Janeiro, o reflexo dessa evolução tecnológica já começou a se fazer notar de forma contundente. Embora os ex-membros do TCP tenham afirmado em entrevista que, no fronte oficial da Ucrânia, a operação desses equipamentos de alta tecnologia é restrita aos cidadãos ucranianos nativos, a difusão do conhecimento e o acesso comercial global a esses dispositivos facilitaram a sua adoção pelas facções cariocas.
As polícias Militar e Civil do Rio de Janeiro acumulam registros e apreensões que comprovam que tanto o Comando Vermelho quanto o Terceiro Comando Puro incorporaram os drones em suas rotinas operacionais. Áudios e vídeos gravados pelos próprios traficantes — como os registros interceptados na região de Vigário Geral e Parada de Lucas (áreas sob influência do chamado “Complexo de Israel”, controlado pelo TCP) — revelam a comunicação eufórica de criminosos coordenando ataques e monitorando o avanço de blindados da polícia (os populares “caveirões”) por meio de imagens aéreas capturadas em tempo real. Os criminosos utilizam os drones para antecipar as rotas de entrada das forças de segurança, alertar comparsas sobre a aproximação de bondes de facções rivais e planejar emboscadas em pontos cegos das comunidades.
Da Ucrânia para as Favelas: A Evolução da Engenharia Explosiva Rudimentar
A correlação entre as táticas aplicadas no Leste Europeu e as práticas do crime organizado no Rio de Janeiro não se limita à mera observação passiva. Conforme explicado por analistas militares, no início do conflito em 2022, as forças ucranianas enfrentavam uma severa escassez de armamentos de precisão. Para contornar essa limitação, os soldados desenvolveram uma engenharia rudimentar extremamente eficiente: utilizavam drones comerciais comuns (da linha civil) e adaptavam neles um mecanismo de liberação mecânica de carga, muitas vezes acoplado a ganchos eletrônicos ou servo-motores simples.
Um dos métodos mais difundidos consistia em colocar uma granada convencional de fragmentação dentro de um copo descartável de plástico ou acoplada a um pino modificado. O copo servia para manter a colher de segurança (o gatilho da granada) pressionada. Quando o drone se posicionava exatamente acima de uma trincheira ou de um grupo de soldados russos estáticos, o operador acionava o comando mecânico de liberação. Ao cair no ar, o copo se soltava ou o pino era puxado, liberando o gatilho e iniciando a contagem de tempo para a detonação por percussão exatamente no momento do impacto ou poucos metros antes do solo.
Essa exata técnica de adaptação de engenhos explosivos civis e militares foi importada de forma quase idêntica pelas facções criminosas fluminenses. Em disputas territoriais intensas, como as observadas na Zona Oeste do Rio de Janeiro e em municípios da Baixada Fluminense, traficantes e milicianos passaram a acoplar granadas e explosivos caseiros (conhecidos no jargão policial como “procedimentos”) a drones de médio porte comprados legalmente no mercado eletrônico.
Utilizando conhecimentos de eletrônica básica difundidos em tutoriais de internet e alimentados pela circulação de vídeos reais do fronte ucraniano, os criminosos cariocas romperam a barreira da violência tridimensional. O Rio de Janeiro testemunhou episódios em que explosivos foram lançados do alto contra redutos de facções rivais, provocando pânico generalizado e demonstrando uma preocupação inédita para as autoridades de segurança pública, que agora precisam formular estratégias de defesa anti-drone para proteger seus agentes e a população civil.
Mimetismo Tático: Roupas Camufladas e os “Homens-Planta” no Rio de Janeiro
A evolução do crime organizado no Rio de Janeiro caminha a passos largos no que diz respeito à adoção de estéticas e procedimentos puramente militares. Além da incorporação de fuzis de assalto de calibres variados (como 5.56, 7.62 e .30) e do uso generalizado de coletes balísticos de alta proteção, as facções passaram a adotar padrões de uniformização e camuflagem que mimetizam os exércitos regulares e os grupos de guerrilha internacional.
Um dos exemplos mais claros e visíveis dessa transição é o uso crescente de trajes de camuflagem avançados conhecidos no meio militar como roupas Ghillie. Esse tipo de vestimenta, historicamente desenvolvido para atiradores de elite (snipers) e forças de operações especiais, consiste em capas, túnicas ou uniformes recobertos por tiras de pano, franjas, redes e réplicas de folhagens que quebram a silhueta humana e permitem que o combatente se misture perfeitamente com a vegetação ao redor.
A adoção dos trajes Ghillie pelas facções cariocas, com destaque para o Comando Vermelho no Complexo do Salgueiro e em áreas de mata da Zona Oeste, transformou os traficantes nos chamados “homens-planta”. Em operações policiais recentes, agentes de batalhões especiais, como o BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e o BPChoque, relataram o enfrentamento com criminosos escondidos em copas de árvores ou entrados na vegetação densa das encostas de morros, utilizando essas roupas camufladas para realizar emboscadas contra as patrulhas.
Essa tática de ocultação e engajamento a partir de posições naturais fortificadas guarda imensa semelhança com a dinâmica de combate de infantaria observada na guerra da Ucrânia, onde as linhas de árvores (tree lines) situadas entre as plantações agrícolas são os principais pontos de ocultação de soldados contra o monitoramento aéreo. A reprodução dessa estética e dessa técnica no Rio de Janeiro demonstra que o crime organizado local não se enxerga mais como meros bandidos de bairro, mas sim como uma força paramilitar constituída, que estuda, adapta e aplica as tendências globais da ciência militar contemporânea.
A Análise do Especialista: O Diagnóstico de Paulo Storani sobre a “Ucranização”
Para compreender a fundo o impacto técnico e psicológico dessa transição tática nas favelas cariocas, é fundamental recorrer à análise de especialistas que acumulam experiência prática no gerenciamento de crises urbanas e no estudo de doutrinas militares. Um dos nomes mais unânimes e respeitados nesse campo é Paulo Storani, antropólogo, consultor de segurança pública e capitão veterano na reserva do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.
Storani tem sido um dos principais analistas a alertar para o processo que chama de espelhamento tático ou cópia direta de metodologias de combate internacional por parte das facções criminosas locais. Segundo o especialista, o fluxo maciço de conteúdos audiovisuais gerados diretamente no fronte da Ucrânia por militares, correspondentes de guerra e pelos chamados “influenciadores de guerra” funciona como uma vasta enciclopédia prática, aberta e gratuita para organizações criminosas ao redor do mundo.
Conforme pontua Paulo Storani em suas avaliações técnicas sobre o cenário atual:
“Este modelo foi copiado diretamente do que está a acontecer no conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Vídeos foram massivamente partilhados — e ainda continuam sendo compartilhados diariamente nas plataformas digitais e em canais de aplicativos como o Telegram — mostrando militares envolvidos nesse conflito sendo atingidos por lançamentos precisos de engenhos explosivos. São bombas e granadas que detonam por percussão ao tocarem o alvo ou o solo, mas que são libertadas a partir de um comando de controlo remoto operado à distância por um piloto de drone.”
O diagnóstico de Storani evidencia que a facilidade de acesso à informação transformou a internet em um vetor de transferência de tecnologia militar para o crime organizado. O especialista ressalta que o perigo reside no fato de que o Rio de Janeiro já possui uma “massa crítica” de criminosos habituados ao uso de violência extrema e armas de guerra. Quando esses indivíduos passam a ter acesso a métodos de automação e ataques remotos inspirados no Leste Europeu, a letalidade das ações atinge um novo patamar, dificultando as estratégias tradicionais de contenção policial e colocando os agentes de segurança em uma posição de vulnerabilidade tática inédita.
O Fluxo Global de Armas: O Perigo do Pós-Guerra e as Lições da História
A preocupação das autoridades de inteligência e dos formuladores de políticas de segurança pública no Brasil vai muito além do aprendizado tático imediato; ela projeta um cenário de médio e longo prazo extremamente perigoso, baseado no histórico de grandes conflitos bélicos internacionais. O axioma fundamental da história militar demonstra que, toda vez que uma guerra de grandes proporções chega ao fim, estabiliza-se ou sofre uma redução drástica de intensidade, ocorre um excedente maciço de armamentos, munições e equipamentos tecnológicos.
Esse fenômeno de escoamento de armas pós-conflito é cíclico. Quando os exércitos regulares reduzem suas atividades ou quando os acordos de cessar-fogo entram em vigor, milhões de armas leves e pesadas que foram injetadas nos fronts perdem sua utilidade imediata para os Estados soberanos. É nesse momento que entram em ação as redes transnacionais de tráfico de armas e os contrabandistas do mercado negro (os chamados “matutos” no jargão do crime brasileiro). Essas armas são desviadas dos estoques oficiais, contrabandeadas por rotas clandestinas e vendidas para países da América Latina, África e Oriente Médio que enfrentam conflitos civis internos ou altos índices de violência urbana.
A história do próprio Rio de Janeiro está intrinsecamente ligada a esse fluxo global de descarte bélico:
| Período Histórico | Conflito de Origem | Impacto no Crime Organizado do Rio de Janeiro |
| Meados dos Anos 1980 | Guerra do Vietnã / Conflitos da Guerra Fria na África e Oriente Médio | Chegada massiva dos primeiros fuzis de assalto modernos (AR-15, FAL, AK-47) às favelas cariocas, alterando o equilíbrio de forças contra a polícia. |
| Anos 1990 e 2000 | Fim da União Soviética / Conflitos nos Bálcãs | Inundação do mercado negro sul-americano com armamento leve de fabricação soviética e do Leste Europeu, canalizado via fronteiras porosas. |
| Perspectiva Pós-2026 | Guerra entre Rússia e Ucrânia | Temor de infiltração de drones de uso militar com criptografia avançada, óculos FPV de alta frequência e armamento leve dotado de miras térmicas. |
As autoridades federais e estaduais temem que a ante-sala de experimentação tecnológica que ocorre na Ucrânia e na Rússia resulte em um transbordo de equipamentos para o mercado ilegal sul-americano. Se os fuzis automáticos mudaram a cara do crime carioca na década de 1980, a chegada de drones militares sobressalentes, sistemas de comunicação criptografada de nível de exército e miras ópticas termais pode consolidar uma transformação ainda mais drástica e letal nos próximos anos.
O Cenário Futuro e o Medo Real da “Ucranização” do Rio de Janeiro
O termo “ucranização” deixou de ser uma metáfora geopolítica distante e passou a representar um risco palpável no horizonte da segurança pública brasileira. O conceito sintetiza o medo de que o padrão de confrontos urbanos no Rio de Janeiro incorpore de forma definitiva e generalizada as tecnologias de destruição remota, a automação de ataques com explosivos e as estratégias de ocultação em ambientes de mata e favela que foram aperfeiçoadas no teatro de operações do Leste Europeu.
Os desdobramentos futuros dependem diretamente da capacidade de resposta do Estado brasileiro em suas diversas esferas. Analistas apontam que as investigações de inteligência precisam ser aprofundadas, estabelecendo canais estáveis de cooperação internacional com agências policiais europeias (como a Interpol e a Europol) para monitorar de perto o fluxo migratório de cidadãos brasileiros com antecedentes criminais que viajam em direção a zonas de conflito. Da mesma forma, o controle de fronteiras terrestres, portos e aeroportos deve ser severamente intensificado para detectar a entrada de componentes eletrônicos sensíveis e kits de modificação de drones que possam ser utilizados para fins militares por facções criminosas.
A guerra da Ucrânia é, indiscutivelmente, o conflito definidor do nosso tempo no que tange à evolução tecnológica da morte e do combate assimétrico. Como o Rio de Janeiro é uma metrópole onde o crime organizado opera com níveis de violência e controle territorial comparáveis a insurgências armadas, a atração dessas metodologias inovadoras de combate para as terras fluminenses é uma tendência natural que precisa ser combatida com urgência. A sociedade civil e as forças de segurança precisam manter-se extremamente alertas e informadas sobre essas conexões globais. Afinal, a compreensão rápida e precisa desses fatos é a única ferramenta capaz de evitar que as táticas devastadoras testadas do outro lado do mundo se instalem definitivamente no cotidiano das comunidades brasileiras.