Mistério na Vista Chinesa: Desembargador que estava desaparecido há um mês é encontrado morto no Rio
A rotina de violência e as incógnitas que cercam a segurança pública no Rio de Janeiro ganharam um novo e perturbador capítulo nesta semana. Após mais de 30 dias de angústia, buscas e uma mobilização que movimentou a Polícia Civil, o corpo do desembargador federal Alides Martins Ribeiro Filho foi localizado sem vida em uma zona de mata nas proximidades da Vista Chinesa, um dos mirantes mais emblemáticos e visitados da Zona Norte carioca. A descoberta encerra a espera por notícias sobre o paradeiro do magistrado, mas abre uma caixa de Pandora de questionamentos sobre suas últimas horas de vida e as circunstâncias que o levaram a um fim tão solitário e obscuro em meio à Floresta da Tijuca.

O Último Registro do Magistrado
O magistrado, que tinha 64 anos, foi dado como desaparecido no dia 14 de abril. A investigação, conduzida para mapear os passos finais de Alides, revelou uma movimentação atípica para alguém que ocupava um cargo de tamanha relevância jurídica. Naquele dia, ele foi filmado por câmeras de segurança realizando um saque de 1.000 reais em uma agência bancária. Logo após a transação financeira, ele teria entrado em um táxi, solicitando uma corrida rumo à região da Vista Chinesa, um local frequentemente frequentado por turistas e praticantes de esportes ao ar livre.
Desde aquele momento, o desembargador evaporou. A falta de pistas e o silêncio absoluto que se seguiram ao seu desaparecimento transformaram o caso em uma das maiores incógnitas para os investigadores da Delegacia de Descoberta de Paradeiros (DDPA). O corpo, encontrado por acaso perto de um trilho próximo à floresta, apresentava avançado estado de decomposição, o que dificulta — ao menos preliminarmente — a identificação de sinais de violência física ou a causa imediata da morte, que aguarda laudos periciais detalhados do Instituto Médico Legal (IML).

Uma Trajetória Marcada por Controvérsias
A imagem pública de Alides Martins Ribeiro Filho já não era das mais favoráveis antes do desaparecimento. O desembargador, que atuava no Tribunal Regional Federal da Segunda Região (TRF2), atravessava um período profissional e pessoal crítico. Ele havia sido alvo de uma medida drástica por parte do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que determinou seu afastamento das funções judicantes. O motivo central da punição administrativa era o seu envolvimento em uma grave acusação de lesão corporal contra sua ex-mulher.
O episódio da agressão, que ganhou repercussão na época, foi digno de um roteiro de escândalo jurídico: vizinhos, ao ouvirem pedidos de socorro, acionaram as forças de segurança. A abordagem policial teria se tornado hostil, com o magistrado sendo preso e algemado pelas autoridades após, segundo relatos da ocorrência, ter tentado valer-se de seu cargo para intimidar os policiais que realizavam o atendimento. A imagem de um desembargador — figura que deveria zelar pelo cumprimento estrito da lei — sendo detido por violência doméstica e desacato manchou a reputação da magistratura e colocou um ponto final prematuro em sua ascensão no Poder Judiciário.
O Rio de Janeiro sob o Luto e a Insegurança
A morte do desembargador ocorre em um momento particularmente sensível para a capital fluminense, que enfrenta uma sequência de fatalidades que atinge diferentes camadas da sociedade. No mesmo fim de semana, o Rio foi abalado pela trágica morte da filha de um embaixador estrangeiro, atropelada fatalmente em seu primeiro dia na cidade. Casos como o de Alides Martins Ribeiro Filho, somados à constante criminalidade que assola as ruas cariocas, reforçam uma sensação de vulnerabilidade que parece não poupar ninguém, independentemente do status social ou da influência política.
A pergunta que ecoa entre vizinhos, colegas e a opinião pública é: como um homem do calibre de um desembargador federal pôde desaparecer por mais de um mês sem ser notado, morrendo em uma área conhecida e frequentada, sem que houvesse uma pronta localização? O fato levanta discussões sobre a fragilidade da vida urbana e a dificuldade dos órgãos de inteligência em cobrir todas as frentes de um Rio de Janeiro que, quando não é palco de confrontos entre organizações criminosas, torna-se um cenário de eventos trágicos e inexplicáveis.
![]()
Investigações em Curso
Até o fechamento desta reportagem, a Polícia Civil do Rio de Janeiro seguia com os trabalhos de perícia no local. A ausência de sinais claros de violência no corpo levanta hipóteses que variam desde uma fatalidade médica, como um mal súbito, até decisões extremas motivadas pelo colapso de sua carreira e vida pessoal. O inquérito busca agora reconstruir o percurso do taxista que o transportou até a Vista Chinesa e verificar se houve outros encontros ou contatos antes do óbito.
Enquanto a ciência forense trabalha para determinar a causa da morte, a sociedade carioca observa o caso com um misto de perplexidade e desconfiança. O desfecho trágico de Alides Martins Ribeiro Filho é um lembrete austero da efemeridade da vida. Independentemente da posição que ocupava ou dos erros que cometeu em seu passado recente, o caso encerra um capítulo conturbado da Justiça Federal e deixa uma série de lições sobre a necessidade de maior atenção ao cuidado com o bem-estar e a segurança de todos os cidadãos, estejam eles no topo da hierarquia social ou nas ruas da cidade.
O Rio de Janeiro aguarda, portanto, os próximos capítulos dessa investigação, na esperança de que o silêncio da mata não esconda mais segredos e que a justiça consiga, ao menos, dar uma resposta definitiva para a família sobre o que realmente aconteceu naquele fatídico dia 14 de abril.