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Cabo se torna executor: A trajetória terrorista de Bené, arquiteto das milícias do Rio

Cabo se torna executor: A trajetória terrorista de Bené, arquiteto das milícias do Rio

A história da segurança pública no Rio de Janeiro, especialmente a partir da virada do século XXI, não pode ser compreendida sem o estudo minucioso de um fenômeno que transformou a paisagem social do estado: as milícias. Diferente dos grupos de tráfico de drogas tradicionais, a milícia nasceu sob o pretexto de ser uma força de “autodefesa”, uma resposta à suposta negligência estatal. No entanto, o que começou com discursos de ordem transformou-se em uma organização criminosa sofisticada, cujos alicerces foram construídos, ironicamente, por aqueles que deveriam ser os seus guardiões. A figura de Carlos Eduardo Benevides Gomes, o Cabo Bené, é, talvez, o exemplo mais emblemático dessa transição brutal entre a farda e o crime.

A trajetória de Bené, detalhada em obras referenciais como Como Refere Nácio Miliciano, da jornalista Cecília Oliveira, é um mapa para entender como o Rio de Janeiro se tornou um terreno fértil para esse tipo de criminalidade. Carlos Eduardo não era um marginal desde o berço; ele seguiu o caminho que muitas famílias da classe média baixa brasileira consideram a porta para a dignidade: o serviço público. Aprovado no concurso da Polícia Militar do Rio de Janeiro em 2002, Bené iniciou a sua carreira no 27º Batalhão, em Santa Cruz, uma área onde a semente da milícia já germinava com força.

Ali, Bené não estava sozinho. Ao lado de parceiros como Antônio Carlos de Lima, o “Toinho”, ele começou a entender que o poder da farda poderia ser utilizado para muito mais do que o policiamento ostensivo. O que se seguiu foi uma progressão lógica na carreira criminosa. Em 2008, o nome de Bené já figurava na lista dos indiciados pela CPI das Milícias, um documento histórico que continha mais de 200 nomes, dos quais uma parte expressiva era de agentes públicos. A sua detenção, ocorrida em 2009 num bar de Campo Grande, onde foi flagrado com armas de uso restrito e documentos falsos, marcou a sua expulsão da PM, mas foi apenas o pontapé de saída para a sua carreira como criminoso profissional.

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Sob a tutela de figuras como Júlio César Ferraz, o “Passarinho”, Bené consolidou-se na região de Itaguaí. A milícia ali não cobrava apenas por “segurança”; ela operava como uma empresa. O controle do transporte alternativo, o monopólio da venda de água, a exploração do mercado imobiliário e até a interferência em processos eleitorais tornaram-se o cotidiano da organização. Como bem define Cecília Oliveira, a milícia nasce precisamente no momento em que os grupos de justiceiros deixam de agir de forma esporádica e começam a dominar bairros como verdadeiros “empresários do crime”, com o beneplácito de setores da política e da própria segurança.

O “Eletricista do Eco”, grupo ao qual Bené se vinculou, adotou uma estratégia de franquia, obrigando grupos menores a pagarem tributos em troca de armas e proteção. Itaguaí, com o seu porto estratégico, era a joia da coroa. O contrabando e o acesso privilegiado a rotas logísticas faziam daquela área um centro de lucro absoluto. Bené, o antigo policial que cozinhava para os colegas no refeitório do batalhão, revelou-se um administrador implacável. Descrito como um homem quieto e extremamente discreto, ele canalizava uma energia violenta que se manifestava em execuções sumárias daqueles que ousavam desafiar a hegemonia da facção. A frieza com que eliminou homens que cobravam taxas sem autorização do grupo tornou-o uma lenda temida entre os seus pares.

A morte de Cabo Bené, em outubro de 2020, foi o desfecho trágico de uma perseguição policial. Após um baile no bairro do Chaperó, Bené e 11 dos seus companheiros encontraram uma blitz da Polícia Civil e da Polícia Rodoviária Federal numa ponte estratégica. O confronto que se seguiu foi cinematográfico e sangrento, com os milicianos usando os seus próprios veículos como escudo. Bené morreu ali, aos 39 anos, encerrando um ciclo de comando que, ironicamente, começou a desmoronar após a sua morte e a posterior queda de Wellington Braga, o “Eco”.

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O legado deixado por Cabo Bené é uma ferida aberta para a Polícia Militar do Rio de Janeiro e para a sociedade fluminense. Ele representa a falha estrutural de um Estado que não conseguiu impedir que os seus próprios homens de elite se tornassem os arquitetos da desordem. A milícia não é um grupo paralelo; ela é, em muitos casos, um braço que nasceu de dentro do próprio Estado, nutrido por agentes que, ao verem no crime uma alternativa de lucro, desfiguraram a missão policial.

Hoje, enquanto a região luta para se livrar das garras de sucessores como o “Zinho”, o nome de Cabo Bené serve como um alerta. Ele nos lembra que a milícia não se combate apenas com tiros em pontes ou operações policiais isoladas; combate-se com o resgate da integridade das instituições. A história de um homem que trocou o refeitório do batalhão pelo tribunal do crime é a história de um Rio de Janeiro que ainda precisa decidir quem, afinal, detém o comando das suas ruas: aqueles que juraram defendê-las ou aqueles que fizeram da violência o seu modelo de negócio. A lição de Bené, infelizmente, continua sendo uma realidade presente em cada esquina onde a taxa de “segurança” é cobrada como um imposto do medo.

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