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A Queda da Herdeira: Prisão de Monalisa Escafura Desmantela o Legado de Poder do Contraventor Piruinha

A Queda da Herdeira: Prisão de Monalisa Escafura Desmantela o Legado de Poder do Contraventor Piruinha

O cenário da contravenção no Rio de Janeiro foi abalado profundamente na manhã de 28 de maio de 2026. A prisão de Monalisa Neves Escafura, filha do lendário José Carlos Escafura, o “Piruinha”, em um luxuoso apartamento em Ipanema, marca não apenas o fim de uma era, mas a queda definitiva da herdeira que tentou manter o controle de um dos maiores impérios do Jogo do Bicho no país. Para as autoridades, a prisão de Monalisa, deflagrada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), não foi um evento isolado, mas o desfecho de uma investigação minuciosa sobre a formação de uma nova cúpula que herdou os negócios após a morte de seu pai, ocorrida em janeiro de 2025.

O Legado de Sangue e Poder

Piruinha foi uma das figuras mais longevas e temidas da história da contravenção carioca. Ao lado de nomes como o Capitão Guimarães, ele representava a “velha guarda” que controlava vastos territórios com mãos de ferro e uma mistura singular de carisma, corrupção e autoridade bruta. Com 19 filhos, a sucessão do império de Piruinha era um tema que gerava disputas internas latentes. O destino parecia reservado a Aílton Carlos Gomes Escafura, treinado para assumir o espólio. Contudo, em 2017, Aílton foi executado em um hotel na Barra da Tijuca, em um crime que chocou até os investigadores mais experientes pela precisão cirúrgica, atribuída na época ao famigerado “Escritório do Crime”. A morte do sucessor natural abriu uma lacuna de poder que, segundo as investigações, foi gradualmente preenchida por Monalisa.

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A Ascensão no Mundo Masculino

Tradicionalmente, o comando do Jogo do Bicho e das redes de máquinas caça-níqueis foi um reduto estritamente masculino. A tentativa de mulheres ocuparem posições de comando sempre encontrou resistência por parte dos patriarcas da contravenção. Entretanto, Monalisa Escafura quebrou paradigmas. Segundo o Gaeco, após o falecimento do pai, ela não apenas assumiu o comando, mas profissionalizou a estrutura criminosa. A denúncia aponta que a filha de Piruinha atuava como líder de uma estrutura armada, responsável pela exploração ilegal de jogos de azar em bairros da zona norte do Rio de Janeiro, um território que seu pai controlava desde a década de 1970.

A sofisticação das operações sob sua liderança era notável. Diferente dos métodos rudimentares de décadas anteriores, a gestão de Monalisa focava intensamente na lavagem de dinheiro e no branqueamento de capitais. O uso sistemático de “laranjas” para ocultar a origem ilícita dos valores obtidos com a contravenção tornou-se sua marca registrada. Estima-se que, apenas em movimentações recentes monitoradas pelos órgãos de inteligência, ela tenha manipulado mais de um milhão de reais, um montante que, embora alto, seria apenas a ponta do iceberg de um faturamento muito superior que sustenta a estrutura criminosa até hoje.

Conflitos Familiares e a Justiça

A trajetória de Monalisa não foi desprovida de atritos. Sua relação com os irmãos, após a detenção de Piruinha em 2022, tornou-se conturbada. Segundo registros da polícia, parte da família chegou a acusá-la de ser a responsável pela exposição e subsequente prisão do pai, chegando a proibir sua entrada na casa da família. Esse racha interno não impediu que, para as autoridades, ela continuasse sendo o braço direito e a substituta natural do contraventor.

Vale notar que a própria Monalisa já havia experimentado o peso da lei anteriormente. Em 2024, ela passou um mês encarcerada após um longo período de foragida, acusada de envolvimento na morte de um comerciante, além de crimes de extorsão e lavagem de dinheiro. Naquele episódio, tanto ela quanto o pai foram eventualmente absolvidos da acusação de homicídio, mas as investigações sobre a organização criminosa que ambos comandavam prosseguiram, culminando na operação recente.

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O Fim de uma Era

A prisão de Monalisa Escafura é um reflexo das mudanças profundas no cenário da segurança pública do Rio de Janeiro. Enquanto a velha guarda da contravenção definhava sob o peso da idade e das constantes investidas da polícia, a tentativa dos herdeiros de manter as estruturas operacionais ativas tem se mostrado uma tarefa cada vez mais difícil. O Gaeco tem focado justamente em atingir a espinha dorsal financeira dessas organizações, compreendendo que, sem o fluxo de lavagem de dinheiro e a proteção de estruturas armadas, o Jogo do Bicho perde sua força de sustentação territorial.

A trajetória de Monalisa, filha de uma ex-passista e musa do Salgueiro, que nasceu em um berço de ouro financiado pela contravenção, termina agora sob as luzes frias de uma cela. Sua história é um exemplo claro de como a criminalidade transita entre gerações, mas também de como a sucessão no mundo do crime é, frequentemente, um convite à ruína. O império de Piruinha, que um dia definiu as leis e as fronteiras da zona norte do Rio, está sendo desmontado peça por peça, e a “Monalisa” do crime, apesar de toda a sua articulação, não foi capaz de impedir que a justiça finalmente alcançasse seu legado.

O futuro das bancas e dos pontos de exploração que ela comandava permanece incerto. O que resta é a percepção de que a era da contravenção intocável está chegando ao fim, e que nem mesmo os sobrenomes mais poderosos do Rio de Janeiro possuem hoje a proteção necessária contra o rigor de um sistema de justiça que, finalmente, aprendeu a seguir o rastro do dinheiro.