Do Brasil ao Punjab: A tragédia de Catucha Flores, uma mãe solteira assassinada pelo seu ‘marido’ estrangeiro para a silenciar.

A história de Catucha Flores é daquelas que, de tão inacreditáveis e dolorosas, parecem ter saído do roteiro de um filme de suspense. No entanto, para a família de uma esteticista gaúcha de 29 anos, esta narrativa é uma realidade brutal que deixou um vazio irreparável e muitas perguntas sem respostas. O que começou como o sonho de um romance internacional transformou-se em um pesadelo de cárcere, medo e, finalmente, uma morte prematura em solo estrangeiro.
Tudo teve início em 2023, quando Catucha, moradora de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, conheceu Navijot Singh pela internet. O homem, um indiano na casa dos 30 anos, rapidamente estabeleceu um relacionamento virtual. Com promessas de casamento, uma vida estável e até uma futura mudança para o Canadá, ele conseguiu conquistar o coração de uma mãe solo que trabalhava arduamente para prover sustento aos seus quatro filhos. Para Catucha, o encontro virtual parecia a chance de um recomeço glorioso ao lado de alguém que prometia cuidar dela e de sua família.
A família de Catucha, especialmente sua mãe, Rejane, e sua irmã, Jéssica, sempre desconfiou das intenções de Navijot. Eles tentaram alertá-la, insistindo que seria mais prudente que o homem viesse primeiro ao Brasil. No entanto, o indiano sempre apresentava desculpas – problemas familiares, vistos, ou outras burocracias – para evitar o encontro em território brasileiro. Apesar dos avisos de que aquilo poderia ser uma “furada”, o sonho romântico falou mais alto. Em setembro de 2024, Catucha partiu para a Índia, na região de Punjab, planejando uma estadia inicial de três meses.
Os primeiros meses foram marcados por contatos diários. Fotos e mensagens mostravam uma rotina que, aparentemente, corria bem. Mas, gradualmente, o cenário mudou. O relato da família é aterrorizante: Navijot teria passado a restringir o acesso de Catucha à internet, trocando senhas e isolando-a do contato com os entes queridos. O que começou como uma história de amor transformou-se rapidamente em uma situação de cárcere privado. Catucha relatou à família que sofria agressões verbais e físicas, sendo impedida de sair sozinha ou de agir por conta própria.
Sob a ameaça constante de morte, ela teria sido obrigada a se casar com ele em novembro de 2024. Em mensagens desesperadas enviadas aos familiares no Brasil, ela deixou claro: “Agora eu estou sendo obrigada a casar porque se eu não casar ele vai me matar”. A esperança de Catucha passou a ser unicamente o retorno ao Brasil. Ela estava coletando provas de tudo o que havia sofrido e planejava, assim que pisasse em solo brasileiro, contratar um advogado para denunciar os abusos.
O dia fatídico chegou em 23 de março de 2025. Catucha tinha a passagem marcada e estava a caminho do aeroporto de Amritsar. Em um movimento que a família considera suspeito, Navijot insistiu que não seria necessário pegar um táxi, pois ele conhecia um motorista particular — que, segundo relatos, poderia ser um familiar dele — para levá-los. Ela acabou entrando no carro com Navijot e esse motorista.
Horas depois, a família recebeu uma imagem de partir o coração: o corpo de Catucha com ferimentos graves, após o que foi classificado pelas autoridades indianas como um acidente de trânsito. O carro teria colidido com um caminhão. O detalhe que choca a família até hoje é o fato de que Navijot e o motorista saíram praticamente ilesos, enquanto Catucha, que estava no banco do passageiro — lado que sofreu o maior impacto da colisão na Índia, onde a direção é do lado direito — morreu no local.
Para a família, não houve acidente, mas sim um crime. A teoria é de que o indiano, ao saber que Catucha possuía provas de seus abusos e planejava denunciá-lo no Brasil, teria planejado o “acidente” para silenciá-la permanentemente. Além disso, surgiram informações de que Navijot já possuía um relacionamento de longa data com outra mulher no Canadá e que usava mulheres brasileiras apenas como um meio para conseguir cidadania e, consequentemente, facilitar sua entrada naquele país.
A falta de uma investigação criminal aprofundada pelas autoridades indianas frustrou os familiares, que viram o caso ser encerrado como um simples acidente de trânsito. O Itamaraty prestou auxílio consular, mas o traslado do corpo, com custos altíssimos, tornou-se um obstáculo financeiro insuperável, deixando a família sem poder trazer Catucha de volta para o Brasil.
Este caso serve como um alerta urgente para mulheres de todas as idades que buscam conexões online. A rapidez com que o sonho se tornou um pesadelo mostra como é crucial desconfiar de promessas excessivamente perfeitas, especialmente de pessoas que insistem em evitar encontros presenciais em locais neutros ou controlados. A história de Catucha Flores não é apenas uma tragédia pessoal; é um lembrete severo sobre os perigos da vulnerabilidade exposta nas redes sociais. Enquanto a família continua sofrendo a ausência e buscando respostas, o caso permanece como um sinal de alerta para que outras mulheres não caiam na mesma armadilha, protegendo suas vidas e seus sonhos antes que seja tarde demais. O silêncio das autoridades estrangeiras deixa uma cicatriz aberta, e o desejo de justiça permanece como o único legado possível para uma mulher que apenas queria viver um amor, mas encontrou um final trágico longe de casa.