A Vila da Morte: O Segredo Macabro das “Fazedoras de Anjos” que Chocou o Mundo

Em julho de 1929, a pequena vila de Tiszazug, na Hungria, tornou-se o centro das atenções de todo o mundo. O que começou com cartas anônimas enviadas à promotoria local culminou em uma das cenas mais perturbadoras da história criminal europeia: um cemitério inteiro sendo escavado, enquanto a vila assistia em silêncio absoluto. Ali, debaixo da terra, jazia um segredo macabro que durou quase duas décadas. O caso, que ficaria conhecido mundialmente como o das “Fazedoras de Anjos”, revelou como o arsênico, destilado de forma rudimentar, tornou-se uma ferramenta de libertação e extermínio para dezenas de mulheres em uma sociedade camponesa profundamente patriarcal.
Tudo começou com uma série de cartas anônimas enviadas à promotoria real de Szolnok, que acusavam mulheres de Tiszazug de terem envenenado seus próprios maridos e familiares. Inicialmente, as autoridades, demonstrando uma negligência chocante, apenas processaram quem enviava as denúncias por calúnia. No entanto, a persistência dessas cartas e a crescente frequência de mortes repentinas — cujos sintomas eram convenientemente confundidos com doenças comuns como a cólera — tornaram o silêncio insustentável. Quando, em 1929, uma dessas cartas finalmente levou a polícia ao caminho certo, a confissão de um casal local desencadeou um efeito dominó.
A polícia rural montou uma base em Tiszazug e, em apenas três meses, formalizou 77 denúncias de assassinato em uma comunidade de apenas mil habitantes. A decisão de exumar os corpos foi a medida que transformou o caso regional em um escândalo global. Quando os peritos analisaram os restos mortais, encontraram níveis letais de arsênico. De cada 50 corpos exumados, 46 apresentavam concentrações da substância capazes de matar até dez adultos. O “custo” daquela descoberta era o tamanho real do horror que ocorria na pacata vila húngara.
Para entender como uma comunidade inteira pôde sustentar tal esquema, é preciso olhar para a condição da mulher na Hungria do início do século XX. O casamento, naquela região rural e isolada, não era uma escolha. As mulheres eram entregues pelas famílias em uniões arranjadas das quais, legalmente ou socialmente, não havia saída. A chegada da Primeira Guerra Mundial, em 1914, alterou essa dinâmica. Com a ausência dos maridos, as mulheres assumiram o controle das lavouras e da rotina, vivendo uma independência inédita por quatro anos. Quando os homens retornaram — muitos mutilados, traumatizados e decididos a restaurar o controle absoluto — o conflito tornou-se inevitável.
Nesse cenário, surgiu a figura central de Zsuzsanna Fazekas, a “Tia Juji”. Parteira desde 1893, ela exercia também o papel de curandeira em uma região sem assistência médica adequada. Mais do que um procedimento de saúde, Tiszazug via em Fazekas uma aliada. As mulheres que buscavam seu auxílio para lidar com relacionamentos abusivos, maridos viciados, ou o peso de um fardo familiar, recebiam uma solução simples e silenciosa: o arsênico. O veneno era obtido de uma forma assustadora, fervendo papel mata-moscas para extrair a substância. Sem cor, sem cheiro e facilmente misturável em sopas, cafés ou bebidas alcoólicas, o arsênico imitava os sintomas de infecções comuns, tornando a morte uma “ocorrência natural” aos olhos dos funcionários locais, que, em muitos casos, faziam parte do círculo de influência da parteira.
O que consolidou o esquema como uma “moda” doméstica foi a impunidade. O atestado de óbito era frequentemente assinado por figuras ligadas à parteira, garantindo que nenhum questionamento fosse feito. As mulheres, muitas vezes movidas pelo desespero, pela busca por heranças ou pela simples vontade de viver em paz, viam no veneno um “remédio” para suas dores. Relatos de julgamentos posteriores mostram que a percepção de culpa era mínima; elas falavam do arsênico como quem fala de um remédio necessário para resolver um problema cotidiano.
Quando o cerco policial finalmente se fechou em julho de 1929, Fazekas, temendo o julgamento, cometeu suicídio bebendo uma solução de soda cáustica. A líder do esquema, que havia ajudado a nascer boa parte da vila, saiu de cena sem dizer uma palavra em juízo. Esse fato complicou a justiça, já que, sem a figura central, as sobreviventes no banco dos réus tentaram minimizar seus papéis, muitas vezes retirando confissões anteriores. No total, os processos foram morosos e frustrantes para a justiça. Das dezenas de envolvidas, apenas uma fração foi condenada, com penas que variaram entre a forca e prisões de longa duração.
O legado de Tiszazug é um lembrete sombrio da fragilidade da moralidade em sociedades onde a opressão é a regra. Embora historiadores apontem que as mortes podem ter chegado a 300, a interrupção das investigações — motivada talvez pelo medo das autoridades de expor o tamanho real daquela “zona do arsênico” — deixou o número final para sempre no campo das especulações. O apelido “Fazedoras de Anjos” resumia a ironia cruel do caso: a crença de que, ao eliminar maridos ou mesmo crianças indesejadas, elas estariam enviando almas puras para o céu.
Décadas depois, entrevistas com sobreviventes da época revelaram uma verdade perturbadora: após o escândalo de 1929, o comportamento dos maridos em Tiszazug mudou drasticamente. A violência doméstica diminuiu, não necessariamente por uma mudança cultural, mas talvez pelo medo latente do veneno. O caso das “Fazedoras de Anjos” continua a desafiar psicólogos, historiadores e criminologistas, dividindo opiniões: teriam sido essas mulheres assassinas implacáveis, ou seriam elas próprias vítimas de um sistema patriarcal que não lhes deixava outra rota de fuga?
Hoje, quase um século após o desfecho trágico em Tiszazug, o caso permanece como um dos estudos de caso mais complexos sobre violência doméstica e controle social. A história da “Vila da Morte” ensina que, onde não há justiça para quem sofre, o desespero encontra caminhos inimagináveis — e, por vezes, esses caminhos são pavimentados com o silêncio e o arsênico. O julgamento da história pode ter se encerrado nos arquivos húngaros, mas a pergunta central sobre o que realmente constitui um “monstro” em uma sociedade opressora continua ressoando através das décadas.