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REVIRAVOLTA: LULA FAZ JOGADA DE MESTRE CONTRA A DOSIMETRIA E JOGA NO COLO DE ALEXANDRE DE MORAES!

Há momentos na história política de um país em que as cortinas dos bastidores se abrem por acidente, revelando não apenas os acordos escusos, mas também o nível de amadorismo de quem se considera dono do poder. O Brasil assiste agora a um desses episódios emblemáticos. O que deveria ser apenas mais uma manobra tradicional da velha política para beneficiar grupos específicos transformou-se, de forma espetacular, numa crise institucional e jurídica sem precedentes. O Congresso Nacional tentou manipular as regras penais através da chamada “Lei da Dosimetria”, esbarrou numa barreira constitucional intransponível e, agora, vê uma verdadeira bomba-relógio prestes a explodir nas mãos do Supremo Tribunal Federal (STF).

Para compreender a magnitude desta reviravolta, é preciso olhar para a origem do problema. O legislativo brasileiro aprovou alterações na dosimetria das penas, um termo técnico que, na prática cotidiana, significa a fórmula matemática utilizada por juízes para calcular o tempo que um criminoso passará atrás das grades. Contudo, não estávamos a falar de uma reforma genérica para pequenos delitos. A alteração aprovada beneficiava de forma direta e calculada crimes gravíssimos, abrindo brechas para a redução de penas de líderes de facções criminosas, milicianos, sequestradores e indivíduos condenados por estupro. Era uma afronta direta à segurança pública, disfarçada de ajuste jurídico.

A reação popular não tardou. Assim que os detalhes da medida vieram a público, uma onda de indignação tomou conta das redes sociais e das ruas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ciente do desgaste social e do perigo que a medida representava para a estrutura de segurança do país, agiu prontamente e vetou o texto. Até este ponto, o sistema democrático de freios e contrapesos funcionava como esperado: o Legislativo propõe uma lei polêmica, a sociedade pressiona, e o Executivo utiliza a sua prerrogativa constitucional para travar a medida. O problema, e a subsequente crise, nasceram do orgulho e da teimosia de um Congresso que não aceita ser contrariado.

Ao invés de aceitarem o veto presidencial e reconhecerem o erro de terem aprovado um projeto que beneficia a criminalidade organizada, as lideranças do Congresso, encabeçadas por figuras como o senador Davi Alcolumbre, decidiram dobrar a aposta. Tentaram uma solução improvisada, clássica daqueles que tentam apagar um incêndio atirando-lhe gasolina. A ideia genial do chamado “Centrão” foi fatiar o veto de Lula. O objetivo era manter o veto apenas nas partes mais sensíveis e impopulares do texto, mas derrubar o restante para preservar a essência da manobra original. Queriam, por outras palavras, posar de defensores da lei e da ordem para a população, enquanto garantiam o relaxamento das penas nos gabinetes fechados.

Ocorre que esta “engenharia criativa” esbarra num obstáculo intransponível: a Constituição Federal do Brasil. A lei máxima do país é clara e não deixa espaço para interpretações criativas neste aspeto. O veto presidencial tem de ser analisado na sua totalidade. O legislativo tem apenas duas opções constitucionais: ou derruba integralmente o veto do presidente, ou o mantém de forma integral. Não existe a figura jurídica do fatiamento de vetos. Ao tentar contornar a pressão popular com este remendo inconstitucional, o Congresso cometeu um erro primário, uma ilegalidade flagrante que transferiu imediatamente o poder de resolução para o poder judicial.

O problemão que Alexandre de Moraes arrumou para Lula | VEJA

É exatamente aqui que a jogada política muda de patamar e entra no território do STF. Ministros como Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, que nos últimos anos têm assumido uma postura de tolerância zero contra abusos institucionais, já sinalizaram que esta manobra não passará em branco. O Supremo Tribunal Federal tem agora a justificação legal perfeita para intervir e anular completamente a votação. Se isso acontecer, o Congresso será forçado a refazer o processo, desta vez sob a estrita regra do “tudo ou nada”. Se derrubarem todo o veto, assumem perante o eleitorado que votaram a favor da redução de penas para facções e milícias. Se mantiverem, sofrem uma derrota política humilhante para o governo Lula. Estão, irremediavelmente, num beco sem saída.

Este cenário revela uma contradição gritante, para não dizer uma hipocrisia estrutural, de grande parte dos parlamentares brasileiros. O mesmo campo político e ideológico que passa campanhas inteiras a discursar sobre o combate implacável ao crime, exigindo “lei e ordem” e prometendo tolerância zero, foi o arquiteto de uma lei que, na prática, colocaria de volta às ruas os criminosos mais perigosos do país num tempo muito menor. Eles sabiam exatamente o que estavam a aprovar. O recuo não foi fruto de uma reflexão moral ou de um despertar de consciência, mas sim do puro pânico perante a vigilância da sociedade. Quando a luz do escrutínio público acendeu, as baratas políticas correram para os cantos, tentando disfarçar a responsabilidade através de manobras inconstitucionais.

Mais além da disputa política, as consequências de brincar com a dosimetria das penas são profundamente reais e afetam o dia a dia do cidadão comum. Não estamos a debater abstrações; estamos a debater a capacidade do Estado de manter indivíduos de alta periculosidade afastados da sociedade. Diminuir as penas para crimes que estruturam a violência nas cidades brasileiras é desferir um golpe fatal no trabalho das forças de segurança, desmotivar investigações complexas e passar uma mensagem de impunidade que apenas fortalece as redes criminosas que dominam periferias e assombram o país.

A instabilidade gerada por esta manobra também não fica restrita aos tribunais e delegacias. Ela afeta o tecido económico e a imagem internacional do Brasil. Investidores e parceiros globais observam este constante tensionamento das regras do jogo com extrema desconfiança. Um país cujo poder legislativo tenta rasgar a Constituição para aprovar casuísmos envia um sinal terrível de insegurança jurídica. O governo Lula, que se tem esforçado nos fóruns internacionais para resgatar a credibilidade do Brasil após anos de isolamento e crises institucionais, vê-se agora forçado a gastar capital político precioso para evitar que retrocessos como este se concretizem, paralisando a agenda de desenvolvimento e os programas sociais que a população urgentemente necessita.

Do ponto de vista estratégico, contudo, o erro do Congresso entregou de bandeja ao Palácio do Planalto uma narrativa eleitoral poderosa. O presidente Lula tem agora todas as ferramentas para reavivar o discurso de “o povo contra o sistema”. Ao longo dos anos, a extrema-direita tentou monopolizar a aura de antissistema, mesmo estando intrinsecamente ligada às velhas práticas políticas. Agora, o cenário inverteu-se. O sistema, representado pelo bloco parlamentar que tenta proteger interesses inconfessáveis através de atropelos legais, ficou exposto. O governo apresenta-se como a barreira de contenção que defende a sociedade contra essas elites políticas que legislam em causa própria.

O que se desenha para as próximas semanas é um embate de proporções épicas. O STF deverá ser provocado a manifestar-se, e cada linha da sua decisão moldará o futuro político do Brasil a curto e médio prazo. A base governista tem nas mãos a oportunidade de expor de forma didática aos eleitores quem verdadeiramente defende a segurança e a institucionalidade, e quem utiliza os corredores do Congresso para negociatas sombrias. O erro grotesco da oposição e do chamado Centrão provou que tentar governar nas sombras, ignorando o clamor popular e rasgando a Constituição, tem um preço elevadíssimo. A conta chegou, e ela será cobrada em praça pública, num processo onde a última palavra não será dos políticos, mas dos ministros do Supremo Tribunal Federal e, em última instância, do povo brasileiro nas urnas.