O Caso Raíssa Sotero: Como o Ciúme e a Crueldade Conduziram a um Crime Transmitido ao Vivo

O ano era 2019. A pacata rotina da cidade de Paulista, na Região Metropolitana do Recife, Pernambuco, foi estilhaçada por um dos episódios mais sombrios e estarrecedores da crônica policial brasileira contemporânea. Raíssa Sotero, uma adolescente de apenas 14 anos, descrita por familiares e amigos como uma jovem meiga, inocente e que sempre buscava viver de forma tranquila, teve sua vida ceifada de maneira brutal. O que tornou o cenário ainda mais aterrador foi o requinte de crueldade: a tortura e a execução da menor foram filmadas e transmitidas em tempo real nas redes sociais, deixando marcas indeléveis na sociedade e levantando debates profundos sobre a violência juvenil e a impunidade.
O Início de um Ciclo de Abuso
Para compreender a gênese dessa tragédia, é preciso retroceder a 2017. Na escola, Raíssa conheceu uma jovem, cujas iniciais preservadas pelo segredo de justiça são JFRS — a quem chamaremos de JF. O que começou como uma amizade adolescente rapidamente evoluiu para um relacionamento amoroso. No entanto, o que deveria ser um período de descobertas e afeto transformou-se em um pesadelo de controle e submissão.
Aos poucos, o comportamento de Raíssa mudou drasticamente. Em 2018, a jovem começou a se afastar dos pais, abandonou os estudos temporariamente e passou a desrespeitar os horários familiares. O ápice desse isolamento ocorreu quando Raíssa fugiu de casa, permanecendo desaparecida por cerca de 60 dias ao lado de JF. A mãe da adolescente só tomou conhecimento da real gravidade da situação através do diretor do colégio, que revelou que JF costumava ir até a instituição para vigiar Raíssa, ameaçando e intimidando outros estudantes para evitar qualquer interação social da namorada.
A oposição da família ao relacionamento não se baseava na orientação sexual das jovens, mas sim no histórico alarmante de JF. Apesar da pouca idade, ela já acumulava antecedentes criminais por assaltos e tentativas de homicídio, tendo inclusive passado pelo sistema socioeducativo em 2017. Diante do comportamento autodestrutivo da filha, a mãe de Raíssa buscou o auxílio do Conselho Tutelar em julho de 2018, onde recebeu a recomendação de acompanhamento psicológico.
O relacionamento, sufocado pelo abuso físico e psicológico, chegou ao fim em abril de 2019. Raíssa, decidida a retomar o controle de sua vida, exibia cicatrizes das agressões que sofrera, mas demonstrava o desejo genuíno de mudar. Ela mudou-se para a casa da mãe, matriculou-se em uma nova escola e engajou-se em um novo relacionamento, desta vez saudável, com um jovem de 18 anos. Contudo, o fantasma do passado continuava a rondá-la: a casa de seu pai ficava próxima à residência de JF, e o medo de represálias era uma constante velada.
O Dia do Crime: A Emboscada e o Trajeto
A manhã de 25 de junho de 2019 começou com uma aparente normalidade, mas carregava o prenúncio da tragédia. Existem duas linhas de investigação sobre como Raíssa foi abordada. A primeira sugere que ela teria planejado matar aula para se encontrar voluntariamente com JF em um ponto específico, tendo pedido a uma amiga que justificasse sua ausência aos professores. A segunda hipótese, sustentada pelas autoridades, aponta que Raíssa foi arrancada ou atraída para fora dos portões da escola por JF e sua nova companheira.
Antes de desaparecer, Raíssa encontrou o namorado em seu local de trabalho. Em um gesto que misturava carinho e uma sutil despedida, ela declarou seu amor, pegou R$ 11 emprestados para o transporte e levou consigo o aparelho celular dele. Seria o último contato entre os dois.
Sob o efeito de substâncias entorpecentes, JF e sua nova namorada — uma adolescente de 14 anos com as iniciais JVC, que também possuía histórico de medidas socioeducativas — conduziram Raíssa por um trajeto de aproximadamente 40 quilômetros. Utilizando ônibus e transporte por aplicativo, o trio partiu de Recife em direção à Praia do Pontal de Maria Farinha, em Paulista. O destino escolhido não foi aleatório: trata-se de uma faixa de areia isolada, cercada por casas abandonadas e pedras pontiagudas, deserta durante os dias de semana — o cenário perfeito para a execução de um plano macabro.
Barbaridade em Tempo Real

O que se seguiu na areia de Maria Farinha desafia os limites da empatia humana. Raíssa foi submetida a uma sessão de espancamento covarde, sofrendo socos, chutes e pontapés que rapidamente mancharam seu uniforme escolar de sangue. Toda a ação começou a ser registrada pelo celular que estava com a vítima. Enquanto desferiam os golpes, as agressoras justificavam o ato com falsas acusações de traição, gritando frases que ecoariam com horror na mente de quem assistiu às imagens.
Em meio ao desespero e à dor, Raíssa implorou por sua vida:
“Me deixa, por favor, Jo. Me deixa.”
O apelo clamando por misericórdia foi friamente ignorado. As agressoras arrastaram a adolescente para a água do mar para concluir a execução. A namorada de JF puxou uma faca e desferiu múltiplos golpes contra a cabeça de Raíssa. Não satisfeita, utilizou o peso do próprio corpo para submergir a cabeça da vítima na água, provocando o afogamento. A água do mar misturou-se ao sangue da jovem enquanto ela resistia desesperadamente, até que suas forças se esgotaram por completo e ela parou de se mover. Uma banhista que passava pelo local ainda tentou intervir, mas Raíssa já estava sem vida.
Parte da tortura e do homicídio foi transmitida ao vivo através de uma live no Instagram. Os cortes e gravações de tela da transmissão rapidamente viralizaram, gerando uma onda de choque e indignação que ultrapassou as fronteiras de Pernambuco. A crueldade do crime atingiu a família de forma devastadora: o pai de Raíssa soube da morte da filha ao reconhecê-la em um vídeo mostrado por um frequentador de uma lanchonete, enquanto a mãe passou mal ao assistir, impotente, às cenas de barbárie na tela de seu aparelho.
Desfecho Judicial e o Destino das Envolvidas
Após o clamor público e o acionamento da polícia por testemunhas, JF e sua comparsa foram apreendidas em flagrante nas proximidades do local do crime. Elas foram autuadas por ato infracional equiparado ao crime de homicídio duplamente qualificado. Durante as investigações, imagens extraídas de redes sociais mostraram JF fazendo símbolos de facções criminosas, como o “tudo dois”, sugerindo sua ligação com o crime organizado local.
Por serem menores de idade à época dos fatos, a legislação brasileira impediu que as duas executoras fossem condenadas a penas de reclusão em presídios comuns. Em vez disso, receberam a medida socioeducativa máxima prevista pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA): três anos de internação na Fundação de Atendimento Socioeducativo (FUNASE). Mesmo dentro da instituição, denúncias apontaram que uma das jovens continuava a acessar redes sociais de forma ilegal.
Em julho de 2022, ao atingirem o tempo limite de internação, ambas foram colocadas em liberdade. Devido à imensa revolta popular e ao risco iminente de linchamento, a Justiça determinou que as duas fossem inseridas em um programa de proteção, sendo transferidas para locais sigilosos sob segredo de justiça. Relatos extraoficiais que circulam nas investigações e na comunidade indicam caminhos distintos para as criminosas após a soltura: uma delas teria fugido do estado para paradeiro desconhecido, enquanto JF teria sido executada em decorrência de acertos de contas no submundo do crime. O caso de Raíssa Sotero permanece como um símbolo doloroso da violência extrema que pode se ocultar por trás de obsessões juvenis e da urgência de suporte psicossocial nas escolas.