Meu nome é Renata. Tenho 31 anos e existe uma cena que eu revivo toda vez que fecho os olhos num lugar silencioso. Não é a cena que você imagina. Não tem grito, não tem choro, não tem porta batendo, é uma cena quieta, uma sala de jantar cheia de gente, velas acesas, a louça boa que dona Célia só tira em datas importantes.
Meu marido de pé, taça na mão, sorrindo com os dentes, fazendo aquele brinde que ele tinha ensaiado. E eu, sentada à mesa, com um envelope bege dentro da bolsa. Um envelope que eu tinha passado três meses montando folha por folha, recibo por recibo, transferência por transferência. Minha mão estava completamente quieta quando coloquei aquele envelope sobre a toalha de linho branco.
Nenhum tremor, nenhuma hesitação, porque quando você espera o momento certo, quando você prepara com cuidado, quando você escolhe agir em vez de reagir, o corpo para de tremer, o corpo sabe. Mas deixa eu te contar como eu cheguei até aquela mesa, porque essa história começa muito antes daquele jantar.
Começa com uma torta de limão e uma frase dita baixinho numa tarde de abril. Antes de eu continuar, me faz um favor. Se essa história está te tocando de alguma forma, se você já se sentou numa mesa onde parecia invisível, se você já engoliu uma humilhação em silêncio porque o momento não era o certo, curta esse vídeo e se inscreva no canal.
Não porque eu preciso dos números, mas porque cada pessoa que fica aqui até o fim é alguém que entende que algumas histórias precisam ser contadas com calma, sem pressa, sem atalho. Deixa nos comentários de onde você está assistindo agora. Pode ser a cidade, pode ser só o estado. Eu leio tudo agora. Me deixa te levar de volta ao começo.
Deixa eu te levar de volta ao começo de abril. Curitiba em abril ainda tem aquele frio que pega de surpresa. A temperatura cai de 12 para 6 graus numa tarde e você não viu chegar. Eu me lembro que naquela manhã de sábado eu acordei antes das 7, como sempre faço, e já estava com a batedeira ligada às 8:30. Torta de limão siciliano. A receita da minha mãe que aprendeu com a mãe dela, que aprendeu com uma vizinha italiana lá no bairro Alto.
Aquela receita que eu não troco por nada. Massa amanteigada, creme de limão com gemas frescas. merengue tostado na hora. Dá trabalho, mas era o churrasco de Páscoa na casa de dona Célia e eu sempre levava alguma coisa feita em casa. Esse era o meu jeito de tentar pertencer. Fábio estava no quarto assistindo a um jogo no tablet enquanto eu cozinhava.
Ele apareceu na cozinha só quando o cheiro do merengue tostado tomou conta do apartamento. “Ficou boa?”, ele perguntou sem tirar os olhos do tablet. “Ficou ótima”, eu disse, “Como sempre. Ele pegou uma colher, provou direto da forma, fez aquela careta de aprovação, a mesma que ele fazia desde o começo do nosso casamento, 4 anos antes, e voltou pro quarto.
Eu cobri a torta com papel filme, peguei minha bolsa e fui me arrumar. Esse era o nosso sábado normal. Eu cozinhava, ele aprovava, a gente ia junto, parecia funcionar. Nos quatro anos de casamento, eu e Fábio havíamos construído uma vida que por fora parecia sólida. Apartamento de 87 m no Baté, o bairro mais valorizado de Curitiba.
Dois carros, um Civic prata, que era o meu, e uma Hilux preta que Fábio usava. uma conta conjunta que eu gerenciava porque eu sou analista financeira e ele confiava nos meus números dizia ele, mais do que em qualquer banco. E a construtora que Fábio tocava com o irmão Gilson, uma empresa que nos últimos dois anos havia crescido de forma impressionante.
O que eu não sabia ainda é que cresceu em parte com o meu dinheiro, mas em abril eu ainda não sabia disso. Em abril, eu ainda chegava ao churrasco da família Menezes, carregando minha torta de limão, como quem carrega uma oferta de paz. A casa de dona Célia fica em São José dos Pinhais, a 20 minutos de carro de Curitiba.
Uma casa de tijolinho aparente num condomínio fechado, jardim bem cuidado, sempre cheirando a planta molhada e carne assada. Naquele sábado havia 12 pessoas. Dona Célia, 62 anos, ex-professora, elegante no tom e precisa nas palavras. O marido dela, seu Antônio, que fica quieto na maioria das conversas e aparece na hora da carne.
Gilson, o irmão de Fábio, com a namorada nova que eu estava conhecendo pela segunda vez, uma moça chamada Patrícia, que sorria muito e falava pouco, como eu mesma fazia no começo. Duas tias, um casal de primos, a sobrinha de 6 anos chamada Isabela, que sempre corria para mim quando eu chegava porque eu sabia o nome de todos os personagens do desenho dela.
Eu entrei com a torta, beijei dona Célia no rosto. Ela cheirava a Chanel número cinco e tinha as mãos sempre frias. Renata, que bom. Precisava de sobremesa mesmo. Ela disse com aquele sorriso que nunca chegava nos olhos. Coloquei a torta na bancada da cozinha e fui me juntar às mulheres na sala. Naquele ponto da tarde, Fábio já estava no quintal com os homens em volta do churrasqueiro.
Essa era a divisão não dita, mas absolutamente clara nos churrascos da família Menezes. Os homens do lado de fora, as mulheres do lado de dentro. Eu nunca me conformei completamente com isso, mas aprendi a navegar. A tarde foi passando. Carne, cerveja gelada, risada de homem vinda do quintal. dentro conversa sobre escola, sobre preço de mercado, sobre uma reforma que dona Célia estava planejando na cozinha.
Aí eu cometi o erro de participar. Dona Célia, essa reforma, eu disse num momento natural da conversa. A senhora já tem orçamento? Porque a nossa reforma do apartamento saiu muito mais barata do que a gente esperava. Eu posso te passar o contato do marceneiro. E foi aí. Fábio estava entrando da área externa com um prato na mão.
Ele ouviu a metade do que eu disse e com a voz calma de quem está corrigindo um equívoco menor, como se eu tivesse tropeçado numa palavra, ele disse: “Renata, esse é um assunto de família. Você não faz parte disso.” 12 pessoas na sala, 10 pares de olhos que se desviaram imediatamente. Isabela parando de brincar com o boneco por dois segundos.
O som do churrasqueiro lá fora, o relógio da parede. Silêncio. Eu olhei para Fábio. Ele já estava indo em direção à geladeira, como se não tivesse dito nada, como se fosse uma frase razoável. Como se eu fosse um convidado que havia cruzado uma linha. 4 anos de casamento, 60% da entrada do apartamento que eu paguei, reforma que eu estava bancando, conta conjunta que eu gerenciava todo mês.
E eu não fazia parte disso. Eu sorri. Um sorriso pequeníssimo, fechado. Peguei um prato, cortei um pedaço da minha torta de limão, a minha torta, aquela que eu tinha acordado cedo para fazer, e sentei do lado de Isabela. “Me conta do desenho novo”, eu disse para ela. E ela contou 20 minutos sobre borboletas com poderes mágicos.
às 21 horas, eu disse que tinha reunião cedo. Beijei dona Célia, despedi dos demais, peguei minha bolsa. Fábio me acompanhou até o carro, como fazia sempre. Na frente de casa, no escuro do condomínio, ele disse: “Você ficou brava?” Não era uma pergunta. “Não, eu disse.” “Estou bem.” Entrei no Civic, liguei o motor, saí e durante os 40 minutos de volta para o Batel, eu não ouvi música, não liguei o rádio.
Fiquei no silêncio completo, com as mãos firmes no volante e um pensamento tomando forma devagar, como quando você junta os pedaços de um quebra-cabeça que esteve espalhado na mesa há tempo demais. Você não faz parte disso. Tudo bem. Então, eu ia descobrir exatamente de que parte eu fazia. Na segunda-feira de manhã, enquanto o Fábio estava no escritório, eu sentei na mesa da sala com meu notebook, um bloco de notas e um café preto.
E eu comecei do começo. Eu sou analista financeira. Eu sei o que procurar. Eu sei onde números se escondem quando alguém não quer que você os veja. O primeiro documento que abri foi o contrato de compra do apartamento do Baté, assinado em março de dois anos antes. Eu tinha dado de entrada R$ 120.000. Fábio tinha dado 72, o restante era financiamento. 120 contra 72.
62% da entrada era minha. Coloquei esse número no bloco de notas. Depois abri os extratos da conta conjunta dos últimos 24 meses. Levei 2 horas para ir linha por linha e foi aí que comecei a encontrar as coisas. Transferências para uma conta que eu não reconhecia o número. Valores que variavam 8.000, 12.000, 18.
000, sem nenhuma descrição além de Ted Construtora Menezes e irmão. Eu sabia que a construtora existia. Eu não sabia que estava sendo capitalizada com dinheiro da nossa conta conjunta sem que Fábio tivesse me consultado. Parei o trabalho, liguei para Solange. Solange Ferreira, minha melhor amiga desde a faculdade, contadora.
Mora no Água Verde com o marido e o cachorro enorme que atende pelo nome de contador. Sim, ela nomeou o cachorro assim. Isso diz tudo sobre quem é a Solange. Ela atendeu no segundo toque. Sou eu disse. Você pode vir aqui hoje à noite. Ela ouviu o tom da minha voz. Que horas? 7:30. Leva o notebook pra cozinha. Vou levar o meu.
Às 7:40, a Solange estava sentada na minha mesa com o MacBook dela aberto, dois cadernos e uma caneta vermelha. Eu mostrei o que tinha encontrado. Ela ficou quieta por uns três minutos. lendo os extratos, fazendo conta de cabeça. Então ela disse: “Renata, você assinou alguma coisa relacionada à construtora?” Eu pensei.
Tem uns documentos que ele me pediu para assinar. Ele disse que era questão tributária, que era mais simples ter meu nome. “Você tem cópia desses documentos?” Eu fui até o arquivo que guardo no armário do quarto. Uma pasta azul com elástico, onde eu guardo tudo, contratos, recibos, notas fiscais. Minha mãe me ensinou isso.
Filha, guarda papel. Papel não mente. Encontrei dois documentos com o nome da construtora. Trouxe para Solange. Ela leu em silêncio, depois virou o papel e mostrou para mim. Você é sócia”, ela disse. Quanto? 40%. Silêncio na cozinha. O cachorro do apartamento de cima latiu uma vez. Parou. “Quanto vale a construtora?”, eu perguntei. Solange já estava digitando.
“Precisamos do balanço, mas pelos contratos registrados publicamente.” Ela clicou em algumas páginas. 2,3 milhões, talvez 2,5. Eu me levantei, fui até a janela, olhei para a rua lá embaixo, com as árvores da calçada do batel balançando no vento frio de maio. Uma senhora passava com um carrinho de bebê. Um homem esperava o ônibus.
Você não faz parte disso. 40% de 2,3 milhões. Eu fazia parte disso. Voltei pra mesa, me sentei, peguei a caneta vermelha da Solange. Me ajuda a montar o dossiê, eu disse. E ela disse sem hesitar, já estou montando. Durante os três meses seguintes, maio, junho e julho, a Solange e eu nos encontramos toda terça-feira à noite na minha cozinha ou na dela no Água Verde.
Criamos um sistema. Eu puxava os documentos, ela verificava a validade jurídica de cada um, eu organizava por data, ela indexava por relevância legal. O que fomos montando, folha por folha, o contrato de compra do apartamento com os valores de entrada discriminados, os extratos de 24 meses, mostrando as transferências para a construtora, R$ 87.
000 ao total, sem minha autorização formal. os documentos societários que eu havia assinado sem entender completamente e que me faziam sócia de 40% de uma empresa que eu nem sabia que eu tinha capitalizado. Um contrato de aval de empréstimo, R$ 130.000, R que eu havia assinado como avalista, que Fábio havia usado para quitar uma dívida da construtora e que ele nunca me contou que existia.
A Hilux preta, no meu nome, com o seguro pago por mim, usada exclusivamente por ele. E mais uma coisa que encontrei por acidente. No começo de junho, eu voltei ao apartamento numa tarde que Fábio não estaria lá. Precisava pegar roupas. Eu estava passando cada vez mais noites na casa da Solange, com uma desculpa ou outra, preparando o terreno para a separação, sem que ele percebesse antes da hora.
Estava no quarto colocando coisas na mala quando abri a gaveta da mesa de cabeceira, procurando o meu chaveiro. O chaveiro de metal com a letra R que minha mãe me deu no dia em que me formei na UFPR. Um presente simples. Ela não tinha dinheiro para muito mais, mas era o objeto que eu mais prezava no mundo. R de Renata. R de recomeço.
Ela tinha dito naquele dia com os olhos cheios. Na gaveta, embaixo de um manual de garantia de aparelho e um bloco de notas, havia uma pasta marrom que eu nunca tinha visto. Abri. eram extratos de uma conta que eu não conhecia, no nome de Fábio, individual, com movimentações dos últimos 18 meses, entre as movimentações, saques e transferências regulares, jantar em restaurante que eu nunca fui.
Uma viagem para Florianópolis em março. Eu estava em São Paulo nessa semana numa capacitação, hotel com diária de R$ 480, duas diárias. Guardei o chaveiro no bolso da calça, fotografei todos os documentos da pasta, recoloquei tudo exatamente como estava. Fechei a gaveta, saí do apartamento com a mala, o chaveiro e as fotos no celular.
No elevador, fechei os olhos por 3 segundos. Quando abri, estava no térrio. Liguei pro Solange do estacionamento. Sou? Pode falar. Tinha mais coisa. Ela ficou em silêncio do segundos. Vem para cá. Eu fui. Ficamos acordadas até meia-noite organizando as novas informações. O dossier cresceu. Naquela noite, enquanto a Solange dormia no quarto e eu estava no sofá dela debaixo de uma manta, olhei pro chaveiro com a letra R que estava na minha mão.
R de Renata, R de recomeço. Ainda não era hora, mas estava chegando. O momento certo veio embalado num convite de festa. No final de junho, Fábio me disse que o aniversário de 70 anos de dona Célia seria no segundo sábado de julho. Jantar formal, 22 pessoas. Você vai, né? Ele perguntou com aquele jeito que não era bem uma pergunta.
Vou, eu disse. Claro. E fui preparar o que eu precisava preparar. Chamei a Solange na semana anterior. Chegou a hora, eu disse. O dossiê está pronto há três semanas. Ela disse. Eu sei. Eu precisava ter certeza de que eu estava pronta também. Ela me olhou com aquele jeito dela, direta, sem rodeio, mas com tanto carinho que dói.
Você está? Pensei no chaveiro. Pensei na torta de limão. Pensei em 12 pares de olhos desviando o olhar num sábado de abril. Estou. Solange preparou o envelope. Imprimimos tudo em ordem cronológica. Uma cópia para mim, uma cópia que eu ia deixar sobre a mesa e uma terceira que Solange guardaria consigo.
Porque uma analista financeira e uma contadora sabem que documentos importantes existem em triplicata. No sábado de manhã, eu fui ao cabeleireiro, escovei o cabelo, deixei solto. Me vesti com um vestido azul marinho que eu tinha comprado especialmente, não exagerado, nada que dissesse. Eu me preparei para isso, só o suficiente para que eu me sentisse eu mesma na sala daquela casa.
Peguei o Civic, peguei minha bolsa. Dentro da bolsa, o envelope bege. Fábio já estava na casa de dona Célia quando eu cheguei. As 22 pessoas foram chegando entre 19 e 19:30. Tinha champanhe sendo servido na entrada. Eu peguei uma taça, cumprimentei todo mundo. Beijos, abraços, como você está bem? Até dona Célia, que me recebeu com o Chanel número cinco e as mãos frias de sempre, e disse: “Que bom que veio, Renata!” Com aquele sorriso, eu sorri de volta.
Não perderia por nada. O jantar foi sendo servido. Frango assado com ervas, arroz com açafrão, salada, pão de queijo. Fábio estava animado, falando bastante, fazendo todo mundo rir. Era bom nisso, em parecer o centro da sala sem precisar esforçar. Sobremesa. Dois tipos de torta, uma de maçã e uma de chocolate.
Eu comi a de maçã. Não, eu que fiz aquela. Depois da sobremesa, Fábio se levantou. Eu queria fazer um brinde”, ele disse pegando a taça. Todo mundo ficou quieto. Sorrisos, expectativa. 70 anos, mãe. 70 anos de uma mulher que construiu uma família com dedicação, com amor, com sacrifício. Pausa calculada. E eu fico feliz que a gente esteja aqui do lado dela como família, porque família é isso, é construção, é união.
Família é construção. Eu coloquei a taça de champanhe sobre a toalha de linho branco, abri a bolsa devagar, tirei o envelope bege e coloquei sobre a mesa entre o prato vazio e a taça. Fábio parou no meio da frase, eu disse com a voz de analista financeira que encontrou um erro no balanço.
Fábio, me desculpa interromper, mas já que você falou em construção, eu precisava entregar isso agora. Silêncio. 21 pessoas olhando. O que é isso? Ele perguntou controlado, mas com aquela vibração na voz de quem percebe que alguma coisa está saindo do script. É um resumo, eu disse, do que construímos juntos com os documentos que comprovam cada item.
Eu abri o envelope por ele, peguei a primeira folha, o apartamento do Batel, entrada de R$ 120.000 da minha parte, R 72.000 da sua. Aqui está o contrato. Coloquei sobre a mesa a conta conjunta dos últimos 24 meses com R$ 87.000 transferidos para a construtora, sem a minha autorização formal. Segunda folha, os documentos societários que eu assinei e que me fazem sócia de 40% de uma empresa que vale 2,3 milhões.
Terceira folha, o contrato de aval de um empréstimo de R$ 130.000 no meu nome que eu nunca soube que existia. Quarta folha e o documento do veículo Hilux em meu nome, segurado por mim, usado exclusivamente por você. As folhas foram sendo postas sobre a toalha, uma por uma em silêncio. Nenhum grito, só papel.
Dona Célia ficou completamente imóvel, com a taça ainda na mão, olhando para as folhas como se fossem uma coisa de outro idioma. Gilson olhou para o prato. Patrícia, a namorada nova, olhou para a janela. A tia mais velha, tia Mara, levou a mão à boca. Seu Antônio colocou o garfo sobre a mesa muito devagar. Fábio falou.
Renata, isso não é o momento. O momento foi em abril, eu disse quando você me disse na frente de 12 pessoas que eu não fazia parte disso. Pausa. Uma respiração. Eu apenas esperei o momento certo para concordar com você. Silêncio. Talvez 6 segundos. Em uma sala com 22 pessoas, seis segundos de silêncio so como um anúncio. Fábio tentou.
Você está distorcendo as coisas. Esses documentos têm contexto. O contexto está aqui eu disse, apontando para as folhas. Cada um pode ler. Ele tentou de novo. Você está fazendo isso no aniversário da minha mãe porque você quer me humilhar. Não disse. Voz quieta. Completamente quieta.
Eu estou fazendo isso agora porque você fez o brinde sobre construção de família e eu quis ser honesta sobre o que foi construído e com o quê. Outra pausa. Tia Mara disse muito baixo. Fábio, só o nome, só isso. Mas no tom que uma mulher de 65 anos usa quando ela reconhece que um homem mais jovem fez algo que não tem defesa razoável. Fábio sentou, não porque capitulou, mas porque ficar de pé naquele momento era pior. Ficou olhando para a mesa.
Dona Célia ainda estava imóvel. O chanel número cinco no ar, as velas queimando. Eu me levantei, peguei minha bolsa. Boa noite a todos. Feliz aniversário, dona Célia. 70 anos são uma conquista enorme. E saí, não corri. Caminhei, peguei o casaco no cabide da entrada, abri a porta. O ar frio de Júlio em Curitiba entrou no meu rosto como uma mão aberta e gentil.
Entrei no Civic, coloquei as mãos no volante e, só então, sozinha no escuro do condomínio, permiti que meus olhos ficassem úmidos por exatamente dois minutos. Não choro de dor, não choro de raiva. O tipo de choro que acontece quando você finalmente solta alguma coisa que estava carregando há tempo demais e o corpo precisa marcar aquele exato momento de alívio. 2 minutos.
Depois limpei o rosto com as costas da mão, liguei o motor e fui. Nos dias seguintes, Curitiba continuou sendo Curitiba, fria, cinza, com aquele vento que corta quando você vira à esquina. E a vida foi seguindo com a lógica burocrática e lenta que todas as grandes mudanças t quando você está no meio delas. Na segunda-feira após o jantar, eu liguei para a advogada que Solange havia indicado, uma mulher chamada Dra.
Fernanda Luz, especialista em direito de família e societário, escritório no centro cívico. Ela leu o dossiê em uma hora e disse: “Está tudo aqui. Podemos protocolar essa semana.” E protocolamos. A separação foi protocolada na quarta-feira. regime de bens, comunhão parcial, o que significava que tudo que foi adquirido durante o casamento era de ambos, incluindo a participação societária.
Fábio contratou um advogado também. Havia esperado que eu fosse razoável, que fosse negociar quietinha, que a vergonha do jantar me fizesse querer resolver rápido e barato. Não conhecia a mulher que havia passado três meses montando um dossiê. A negociação levou seis semanas. O apartamento do Batel foi avaliado e dividido, mas como Fábio não tinha os recursos para me pagar a metade, ficou decidido que o apartamento seria colocado à venda.
Quando vendido, eu receberia 50% do valor líquido, mais o diferencial da entrada, os 48.000 que eu havia dado a mais que ele. Total: R$ 312.000. O Civic ficou comigo. Era meu desde o começo. A Hilux voltou para Fábio. No papel, no seguro, no custo, tudo. A participação societária foi o ponto mais longo.
Fábio argumentou que eu havia assinado sem entender. A Dra. Fernanda mostrou que isso legalmente não desfazia o acordo e que se ele queria que eu saísse da sociedade, precisava me indenizar. A indenização foi calculada em R$ 210.000. R 87.000 da conta conjunta, mais 210.000 da participação societária, 312 do apartamento quando fosse vendido.
O empréstimo de 130.000 para o qual eu havia sido arrolada como avalista sem saber, a Dra. Fernanda conseguiu remover meu nome mediante comprovação de que a assinatura havia sido obtida sem plena informação. Fábio ficou com a dívida inteiramente. Cada uma dessas conquistas demorou semanas.
Cada uma foi negociada em reunião, em audiência, em e-mail, com cópia para todos os advogados. Não foi rápido, não foi limpo, mas foi feito. Enquanto isso, a vida continuava nas suas franjas. Gilson entrou em contato uma vez. Mensagem de texto. Três linhas. Renata, eu não sabia de tudo isso. Sinto muito. Eu li, guardei.
Não respondi naquela hora. Duas semanas depois, respondi com duas linhas. Obrigada por dizer. Cuida bem de você, Gilson. Ele nunca mais escreveu. Mas eu sabia que ele havia dito a verdade. Gilson era muita coisa, mas não era esperto o suficiente para fingir. Dona Célia nunca entrou em contato. Eu sabia que não ia entrar. Algumas pessoas são assim.
Quando a armadura cai, elas constróem uma parede atrás. Não é perversidade, é medo. E eu já tinha me machucado o suficiente, tentando atravessar paredes que não eram minhas para atravessar. Fábio tentou uma vez uma conversa de precisamos resolver isso como adultos. A do Fernanda foi gentil, mas direta.
Toda a comunicação passaria pelos advogados. Ele não insistiu. Em setembro, com a indenização da sociedade depositada na minha conta, 210.000 R000 chegando numa terça de manhã, como uma notificação qualquer no celular. Eu aluguei um apartamento de 62 m² no seminário. Bairro mais quieto, mais arborizado, longe do batéu e de tudo que o batéu representava.
Segundo andar, com janela da sala dando para uma amendoeira grande que em novembro ia ficar vermelha. Fui buscar minhas coisas no antigo apartamento numa tarde em que sabia que Fábio não estaria. Peguei roupas, livros, o notebook, os documentos todos, a pasta azul da minha mãe, peguei a batedeira que era minha, o jogo de panelas que a Solange tinha me dado de presente de casamento e fui até a gaveta da mesa de cabeceira do quarto.
O chaveiro com a letra R ainda estava lá, exatamente onde eu o tinha deixado no dia em que fui pegar as roupas e encontrei a pasta marrom. Ele havia ficado ali o tempo todo naquela gaveta, quieto como eu havia sido quieta, esperando. Coloquei no bolso, no corredor, na saída, passei pela cozinha, a bancada onde eu tinha feito tantas tortas, tantos jantares, tantas tentativas silenciosas de pertencer.
Fui embora. Solange foi me ajudar a arrumar o apartamento novo no sábado seguinte. Ela chegou com caixas, fita crepe e o contador, o cachorro enorme que ficou explorando cada canto do apartamento novo com uma seriedade que só cães grandes conseguem ter. Passamos à tarde montando prateleiras, pendurado quadros, decidindo onde ia a batedeira.
Às 6 da tarde, Solange fez um chá de erva cidreira no meu fogão novo e nós nos sentamos no chão da sala, que ainda estava vazio de móvel nenhum, bebendo chá de caneca e olhando pela janela para a amendoeira lá fora. E aí? Ela disse. E aí? Eu disse? Ela riu. Que resposta inútil. É a única que tenho agora. Ficamos em silêncio por um momento.
O chá estava quente. O contador foi dormir no meu casaco que estava dobrado no chão. “Você está bem?”, ela perguntou com o tom diferente. “Não o da contadora, não o da parceira de dossiê. O tom de quem te conhece desde que você tinha 22 anos e chegou na faculdade com uma mochila remendada e a determinação de alguém que não pode desperdiçar bolsa”.
Eu pensei de verdade antes de responder. Ainda não. Eu disse, mas vou estar. E era verdade. As duas partes. Nos meses seguintes, outubro e novembro, eu fui reconstruindo no ritmo que uma pessoa que organizou documentos por três meses consegue reconstruir. Metódica com lista, um passo de cada vez. Renovei o contrato de trabalho, pedi aumento e consegui porque eu tinha entregado resultados concretos nos últimos dois anos e minha gestora sabia disso.
Comecei a fazer acompanhamento com uma psicóloga que a Solange indicou, uma mulher de 50 anos chamada Docoura, Vera, que tinha o escritório na praça Osório e falava de forma direta e sem floreio, o que eu precisava. O apartamento foi vendido em outubro, R$ 312.000 R$ 1000 chegaram em novembro. Eu os coloquei numa aplicação segura e deixei render enquanto eu decidia o que fazer com aquele dinheiro.
Não havia pressa. Pela primeira vez em muito tempo, não havia pressa. Numa tarde de novembro, de volta ao apartamento novo, depois do trabalho, fiz uma torta de limão sozinha. A mesma receita da minha mãe. Massa amanteigada, creme de limão com gemas frescas, merengue tostado. A cozinha foi ficando com aquele cheiro bom e exato.
O cheiro de manhã de sábado, o cheiro de coisas feitas com cuidado para as pessoas certas. Só que dessa vez eu fiz para mim. Coloquei um pedaço no prato. Sentei na janela da sala com o prato no colo e a amendoeira lá fora, já vermelha, como eu havia imaginado. O sol de fim de tarde entrando pelas folhas, o chaveiro com a letra R na bancada ao lado, onde eu o havia colocado no primeiro dia no apartamento novo, no lugar mais visível da cozinha. R de Renata, R de recomeço.
Comi devagar e foi bom. Você que está assistindo agora, me ouve um momento. Existe uma coisa que eu aprendi nesse processo que eu não conseguia articular enquanto estava no meio dele, mas que agora eu vejo com uma clareza que às vezes me surpreende. Quando você é a pessoa que faz funcionar em casa, no relacionamento, às vezes até na família do outro, você aprende a encolher.
Não de uma vez, vai acontecendo aos poucos. Você deixa de comentar uma coisa porque o ambiente ficou tenso. Você assina um papel porque confia. Você faz a torta porque é o seu jeito de pertencer. E um dia alguém fala para você na frente de 12 pessoas que você não faz parte disso. E a parte mais triste não é a frase, é que você já estava tão acostumada a ocupar menos espaço, que a frase quase parece razoável por 2 segundos. Não é razoável.
O espaço que você ocupa em uma vida que você ajudou a construir não é um favor, é um direito. E a diferença entre esses dois é exatamente a diferença entre uma pessoa que confia e uma pessoa que sabe. Saber onde você está, ler o que você assina, guardar os documentos, todos os documentos.
Não porque você precisa desconfiar de todo mundo, mas porque a sua segurança não pode depender exclusivamente da boa fé de outra pessoa, nunca. Você já sentiu que o espaço onde você mora, seja uma casa, um relacionamento, uma família, foi sendo construído com o seu trabalho, mas habitado como se fosse um favor que te fizeram? Se sim, me conta nos comentários.
Não precisa ser nome, não precisa ser detalhe. Só me conta se isso te tocou, porque tem uma coisa que o chaveiro com a letra R me lembra toda vez que eu passo por ele na bancada da cozinha. Minha mãe me deu aquele chaveiro no dia da minha formatura. Ela que tinha costurado roupas de bairro em bairro para pagar parte das minhas contas enquanto eu fazia a faculdade.
Ela disse: R de Renata, R de recomeço. Eu achei que ela estava falando sobre a formatura, sobre a vida que eu ia construir a partir dali, mas ela estava falando sobre qualquer dia que eu precisasse lembrar quem eu era. Qualquer dia que alguém tentasse me convencer de que eu não fazia parte de algo que eu mesma havia construído. R de Renata.
R de eu me recusar a ser apagada que a tinha. Hoje eu tenho 31 anos. Moro num apartamento de 62 m com uma janela para uma amendoeira que agora, em novembro, está vermelha como fogo. Tenho um emprego que me remunera com o que vale o meu trabalho. Tenho uma conta bancária que é só minha.
Tenho a minha batedeira, o meu jogo de panelas e a minha pasta azul com todos os documentos organizados por data, o hábito que a minha mãe me deu e que um dia me salvou. Tenho a minha melhor amiga, que aparece com dois cadernos e uma caneta vermelha. quando eu preciso de alguém que resolve problemas em vez de só lamentar. E tenho o meu chaveiro com a letra R no lugar mais visível da minha cozinha.
Isso é suficiente, mais do que suficiente. Se essa história foi útil para você, se ela te lembrou de algo que você precisa verificar, de um papel que você precisa ler, de uma conversa que você precisa ter, compartilha com alguém que também precisa ouvir. Não precisa ser palavra por palavra, só compartilha.
Obrigada por ficar comigo até aqui até o fim. Isso significa mais do que eu sei explicar.