ELES A TRATAVAM COMO LIXO NA FRENTE DO BARÃO VIÚVO… MAS O GESTO DE AMOR DELE CALOU A BOCA DE TODOS!

A vila inteira acreditava que ela não passava de uma sombra, uma garota destinada a limpar o chão e engolir as humilhações da própria família em silêncio. Mas o que eles não sabiam é que naquela exata noite, sob a luz dos lustres da grande mansão, a maior de todas as humilhações se transformaria no maior escândalo que aquela região já viu.
Quando a xícara de porcelana quebrou e ela caiu de joelhos, o homem mais temido e poderoso da cidade não riu. Ele fez algo que fez o coração de todos parar. Na imponente e vasta propriedade dos Valadares, uma mansão erguida com pedras escuras que parecia engolir a luz do sol, o luxo das cortinas de veludo carmesim e dos tapetes persas contrastava violentamente com a crueldade silenciosa que se escondia nos bastidores úmidos da cozinha.
Lá entre panelas de ferro fundido e o calor sufocante do fogão à lenha vivia clarice. Era uma jovem de traços finos e delicados, com olhos amendoados de um castanho tão profundo que pareciam guardar todas as tristezas do mundo. Seus cabelos, embora constantemente presos sob uma touca encardida, possuíam o brilho acobreado das folhas de outono.
Clariss havia perdido os pais em um trágico acidente de carruagem quando era apenas uma criança, sendo deixada a mercê da caridade de sua tia paterna, Amália, e de sua prima, a vaidosa e implacável Leonor. A promessa de cuidado logo se transformou em uma servidão cruel e interminável. Clarice foi despojada de seu quarto no andar de cima, de suas roupas de boa qualidade e de seu sobrenome, sendo reduzida a uma presença espectral, menos que uma criada assalariada.
Seu cotidiano era um ciclo exaustivo. Acordar antes do sol despontar no horizonte, quando a geada ainda cobria os vidros das janelas para acender as lareiras, polir a prataria pesada, até que seus reflexos fossem impecáveis e esfregar o açoalho de madeira rústica até que suas mãos estivessem em carne viva. Ela era o alvo diário de insultos calculados, obrigada a vestir os trapos desbotados que já haviam servido a Leonor anos antes.
O tecido áspero machucava sua pele, mas a dor física era ínfima comparada à dor da rejeição constante. Naquela semana específica, a atmosfera na mansão estava carregada com uma tensão elétrica. O ar cheirava a cera de abelha, lavanda e ambição desmedida. O motivo de tamanho alvorosso era o iminente retorno do Barão Artur de Montemor, um homem cuja reputação o precedia, um viúvo recluso, dono de vastas extensões de terra, moinhos e ferrovias.
Diziam as más línguas que, após a morte prematura de sua esposa em terras estrangeiras, o coração do Barão havia se petrificado. Ele era conhecido por sua frieza implacável nos negócios. e por sua postura inatingível. No entanto, os rumores recentes apontavam que ele procurava uma nova consorte para administrar sua propriedade, uma fortaleza de pedra e solidão no alto da colina.
Tia Amália, cujas finanças estavam em um declínio oculto sob aparências extravagantes, viu na chegada do Barão a tábua de salvação perfeita. Ela instruiu os criados a limparem cada milímetro da casa com um rigor militar. A sala de estar foi reorganizada, as melhores porcelanas foram retiradas dos armários trancados e Leonor passou dias provando vestidos de seda importada, buscando o ângulo perfeito que capturasse a atenção do homem mais rico da província.
Clarice, por sua vez, recebeu ordens estritas. sob nenhuma circunstância, deveria cruzar o caminho do barão. Ela deveria permanecer invisível, confinada aos fundos da casa, lavando as roupas pesadas no tanque de pedra do quintal, como um fantasma que a família desejava apagar da própria história. O final da tarde trouxe consigo nuvens espessas e um vento cortante que anunciava uma tempestade iminente.
A luz do sol poente lutava para atravessar a neblina, criando feixes de luz difusa que iluminavam as árvores nuas da propriedade. Foi nesse cenário melancólico que a imponente carruagem negra do Barão Artur de Montemor cruzou os portões de ferro forjado dos Valadares. O som dos cascos dos cavalos de raça pura batendo contra os paralelepípedos ecoou como o tic-taque de um relógio marcando o início de um julgamento.
Artur desceu da carruagem com uma agilidade que desmentia o peso de suas responsabilidades. Ele era um homem de presença avaçaladora, alto, com ombros largos, sob um sobretudo de lã escura de corte impecável. Seu rosto possuía ângulos definidos, uma mandíbula rígida e olhos de um cinza tão gélido e penetrante que pareciam capazes de enxergar através de qualquer fachada.
Ele não estava ali por prazer. O convite de Amália era um movimento previsível no jogo social que ele desprezava. O barão conhecia a natureza daquelas pessoas, bajuladores movidos pela ganância. Ele aceitara o convite apenas para avaliar as terras adjacentes que a viúva possuía e talvez, apenas talvez, para encerrar os rumores sobre sua reclusão.
Enquanto o coxeiro cuidava dos cavalos, Arthur decidiu dar alguns passos pelo jardim lateral antes de se submeter à tortura das falsas cortesias. A arquitetura da casa era pretenciosa, cheia de ornamentos desnecessários, mas o silêncio do crepúsculo oferecia uma trégua. Foi então que, ao virar a esquina em direção aos fundos, próximo ao poço de pedra coberto de musgo, ele parou abruptamente.
A luz alaranjada do entardecer incidia sobre uma cena que contrastava violentamente com a opulência da fachada da mansão. Havia uma garota debruçada sobre uma pesada tina de madeira. O frio era evidente na fumaça que escapava de seus lábios sempre que respirava. Mas ela não usava casaco, apenas um vestido fino e esgarçado, amarrado na cintura com um pedaço de corda.
Suas mãos, mergulhadas na água gélida, esfregavam com vigor os lençóis de linho da família. Arthur, escondido pelas sombras do arvoredo, observou a curva de suas costas exaustas e o tremor constante de seus ombros. Mas não foi a miséria da cena que o paralisou, foi o som que emanava dela. Claro. Era uma melodia antiga, uma canção de ninar melancólica, cantada com uma voz tão pura e carregada de uma tristeza tão profunda que fez o peito do barão apertar de forma inesperada.
As notas flutuavam no ar frio, cheias de uma resiliência que ele raramente encontrava nos salões da alta sociedade. Ele observou o momento em que ela parou para enxugar o suor da testa com as costas da mão vermelha e machucada, revelando por um breve segundo um perfil de beleza melancólica e autêntica. Arthur permaneceu imóvel, o olhar fixo naquela figura solitária.
Em um mundo de máscaras, ele acabara de vislumbrar a única coisa real daquela propriedade. Sem dizer uma palavra, com a imagem daquela garota gravada a fogo em sua mente, ele girou os calcanhares e caminhou em direção à porta da frente. A sala de jantar dos Valadares havia sido transformada em um palco de ostentação. O lustre de cristal central lançava uma luz quente e dourada que refletia na prataria minuciosamente polida e nas taças de cristal lapidado.
O cheiro de carne assada e especiarias caras preenchia o ar, mascarando a tensão subjacente. A malha, vestida com um excesso de rendas escuras, ocupava a cabeceira oposta a tubarão. Enquanto Leonor, em um vestido de seda esmeralda, que apertava sua cintura a ponto de dificultar a respiração, sentava-se estrategicamente próxima a Artur, monopolizando a conversa com risadas estridentes e comentários vazios sobre a moda europeia.
O barão Artur mantinha uma postura impenetrável. Ele cortava sua refeição com precisão cirúrgica, acenando em concordância quando necessário. Mas seus olhos cinzentos estavam distantes, analisando cada movimento, cada falsidade. Ele notou a forma como a malha tratava os criados que entravam e saíam, com pequenos gestos de desdém. A superficialidade do ambiente o sufocava.
E contra a sua vontade, seus pensamentos retornavam à garota no frio do quintal. Quem era ela? Por que estava sendo submetida à aquelas condições enquanto a família banqueteava em fartura? O destino, contudo, tem uma forma peculiar de forçar confrontos. Na cozinha, o caos havia se instalado. A criada encarregada de servir a sobremesa e o chá especial, uma senhora de idade avançada, sofreu um mal-estar repentino devido ao calor extremo do fogão, desmaiando brevemente.
Malha, percebendo o atraso imperdoável na troca de pratos, pediu licença com um sorriso forçado e marchou em direção aos bastidores, com os olhos faiscando de fúria. Ao adentrar a cozinha, a matriarca não demonstrou nenhuma empatia pela mulher doente. Seu olhar recaiu imediatamente sobre Clarice, que tentava socorrer a senhora.
Com um movimento brusco, Amália agarrou o braço de Clarice, cravando as unhas através do tecido fino do vestido surrado. “Levante-se, sua criatura inútil”, sussurrou a tia, a voz carregada de veneno. “Temos um convidado de honra na sala e eu não permitirei que esta noite seja arruinada. Você vai pegar a bandeja de prata, vai servir o chá e vai voltar para este buraco antes que eu a coloque na rua para congelar.
Clarou os olhos, o pânico tomando conta de suas feições. Ela olhou para suas roupas manchadas, para as mãos calejadas e ásperas. Tia, por favor, olhe para o meu estado. Eu não posso me apresentar diante de um barão. Você não vai se apresentar. Você vai servir e ser invisível. cortou a malha, empurrando a pesada bandeja de prata carregada com um bule de porcelana fumegante e xícaras delicadíssimas nas mãos de Clarice.
Mantenha a cabeça baixa. Se você ousar olhar para ele, se ousar abrir a boca, eu garanto que você não terá onde dormir esta noite. Tremendo da cabeça aos pés, sentindo o peso do metal em suas mãos cansadas e o peso do mundo em seus ombros, Clarice caminhou em direção à porta dupla de Carvalho, que separava seu inferno pessoal do salão iluminado.
A porta se abriu com um rangido suave e Clarice entrou no salão. A mudança abrupta da penumbra da cozinha para a luz ofuscante dos lustres a deixou momentaneamente desorientada. O ar ali era quente e pesado, impregnado de perfume forte. Ela fixou o olhar no chão de mármore xadrez, concentrando toda a sua energia em equilibrar a bandeja, colocando um pé na frente do outro com extrema cautela.
O som de seus sapatos gastos abafados pelo tapete persa parecia o tamborilar do seu próprio coração acelerado. No momento em que ela entrou, a atenção de Artur foi imediatamente desviada de Leonor. O barão reconheceu instantaneamente a silhueta frágil, a mesma garota que vira no jardim. Ele observou a forma como ela caminhava curvada, como se tentasse ocupar o menor espaço possível no mundo.
A visão dela, vestindo farrapos no meio de tanto luxo, servindo as mesmas pessoas que usufruíam de sua herança roubada, acendeu uma faísca perigosa na mente do barão. Leonor, irritada por ter perdido a atenção de seu cobiçado alvo, seguiu o olhar de Artur. Ao ver que ele observava a prima maltraapilha.
O ciúme distorceu suas feições. Como o homem mais importante da região, poderia desviar os olhos de sua seda esmeralda para olhar para o lixo da casa. Uma fúria silenciosa tomou conta dela. Enquanto Clarice se aproximava hesitante do lado da mesa, onde o barão estava sentado, preparando-se para servir a xícara com as mãos trêmulas.
Leonor calculou o momento exato. Com um sorriso perverso escondido atrás de sua taça de cristal, a prima esticou o pé baixo da longa toalha de renda belga, exatamente no caminho da jovem. O impacto foi repentino e inevitável. O bico do sapato de Leonor prendeu o tornozelo de Clarice. O equilíbrio frágil foi quebrado.
O tempo pareceu desacelerar enquanto a bandeja de prata escapava de suas mãos calejadas. A gravidade tomou seu curso cruel. O bule de porcelana finíssima atingiu o chão de mármore com um estalo ensurdecedor, fragmentando-se em dezenas de pedaços afiados. O chá fumegante espirrou em todas as direções, molhando a barra do vestido desbotado de Clarice e atingindo seus joelhos nus quando ela desabou com força contra a pedra fria.
A dor física do impacto e da água quente foi engolida por uma onda paralisante de vergonha e terror absoluto. Ela caiu de joelhos no meio dos cacos, as lágrimas brotando imediatamente ardendo em seus olhos. Ela tentou desesperadamente esconder o rosto, sentindo-se a criatura mais minúscula e patética da Terra. A malha levantou-se num salto, a cadeira raspando violentamente contra o chão.
A máscara de anfitriã perfeita desapareceu, revelando a verdadeira face de seu ódio. Sua criatura estúpida, desastrada e inútil. O grito de Amia rasgou o silêncio do salão, o rosto vermelho, as veias do pescoço saltadas. Olhe o que você fez. Você destruiu uma peça de herança. Você não serve nem para carregar uma bandeja.
É um desperdício do ar que respira. Você é um lixo, uma vergonha para esta família. Saia da minha frente e limpe essa sujeira agora mesmo com as suas próprias mãos. Leonor soltou uma risada curta, aguda e carregada de malícia, inclinando-se levemente na direção de Artur. Eu suplico que nos perdoe, Barão. É um constrangimento indescritível.
Esta infeliz é apenas uma agregada que recolhemos por pena. Mas como o senhor pode ver, sangue ruim não se conserta com caridade. Ela nasceu para rastejar na sujeira. Após as palavras venenosas de Leonor, o salão mergulhou em um silêncio absoluto e sufocante. Era o tipo de silêncio que antecede uma tempestade brutal, um vazio denso, onde nem mesmo a respiração ousava ser ouvida.
O único som era o choro contido de Clarice, soluços abafados, enquanto ela, desesperada e tremendo incontrolavelmente, começava a recolher os estilhaços de porcelana com as mãos nuas. Sua visão estava embaçada pelas lágrimas e, em sua pressa cega, a borda afiada de um caco cortou profundamente seu dedo indicador. O vermelho vivo de seu sangue misturou-se a poça de cháarrom no mármore impecável.
Ela esperava o golpe final. esperava que o Barão de Montemor, o homem implacável, se levantasse em desgosto, repreendesse a família por submetê-lo a tal espetáculo patético e fosse embora, selando o destino de Clarice a punições ainda mais severas nos porões da casa. Ela fechou os olhos com força, antecipando a humilhação vinda daquela voz grave.
Mas Arthur não falou. Ele não olhou para a senora Amália, cujo peito subia e descia ofegante de raiva. Ele não devolveu o olhar cúmplice e perverso de Leonor. A expressão do Barão havia se transformado em uma máscara de pedra fria, mas seus olhos cinzentos agora queimavam com um fogo perigoso, uma tempestade contida de repulsa e autoridade absoluta.
Lentamente, de forma calculada e deliberada, Artur empurrou sua pesada cadeira de madeira entalhada para trás. O som do raspar dos pés da cadeira no chão reverberou pelo salão como um trovão, fazendo o coração de Amália falhar uma batida. Ele se levantou, revelando toda a sua altura intimidadora, seus ombros largos bloqueando a luz do lustre.
Com uma calma aterrorizante, ele desabotoou o botão central de seu palitó. A família prendeu a respiração. Arthur não caminhou em direção à porta de saída. Em vez disso, ele deu a volta na grande mesa de jantar, [roncando] seus passos firmes ecoando no silêncio mortal, e caminhou diretamente até o centro da tragédia.
Diante dos olhos arregalados de Amália e da boca entreaberta de Leonor em puro choque, o homem mais poderoso da região, o aristocrata intocável, abaixou-se. O barão Arthur dobrou os joelhos e se ajoelhou no chão sujo de chá e sangue, acomodando sua postura bem em frente à garota que havia sido jogada ao chão como lixo.
Barão, pelo amor de Deus, o que o senhor está fazendo? Por favor, levante-se. Não suje suas roupas com essa desgraça. A voz de Amália falhou, um gaguejo agudo de puro pânico, sentindo o controle da situação escorrer pelas suas mãos. Arthur não moveu um músculo em direção à viúva. Ele a ignorou com a mesma indiferença que reservaria a um inseto.
Toda a sua atenção estava concentrada na figura encolhida à sua frente. Clarice, paralisada pelo medo, continuava de cabeça baixa, o sangue pingando do corte em sua mão. Foi então que ela sentiu um toque, não o puxão violento de sua tia, não o empurrão de sua prima, mas um toque de uma firmeza incrivelmente gentil.
Arthur, com suas mãos grandes e fortes, segurou os pulsos delicados da jovem, interrompendo seu movimento desesperado de recolher os cacos. Ele enfiou a mão no bolso interno do palitó e retirou um quadrado de linho puro e alvo com o brasão dos Montemor bordado em fios de ouro. Com uma delicadeza que ninguém acreditaria ser possível em um homem tão formidável, ele envolveu a mão ferida de Clarice, estancando o sangramento, limpando a sujeira e o sangue com um cuidado quase reverencial.
O calor das mãos dele transpassou o frio que dominava o corpo dela. Clarice não suportou mais a curiosidade e lentamente ergueu o rosto molhado de lágrimas. Através da cortina de fios acobreados que haviam escapado de sua touca, ela encontrou o olhar do barão. Não havia pena ali.
Havia reconhecimento, profundo respeito e uma compaixão silenciosa que a desarmou por completo. “A senhorita está gravemente ferida”, a voz de Artur ressoou no salão, não mais fria, mas carregada de uma gravidade protetora, profunda e retumbante. Não, senhor, por favor, me perdoe. Eu sou tão desastrada. Eu mereço. Ela sussurrou, a voz rouca tentando recolher as mãos instintivamente, envergonhada pela feiura de suas unhas curtas e pele castigada em contraste com a luva impecável dele.
Arthur apertou levemente seus dedos, impedindo-a de recuar. Ele não soltou. Em vez disso, ele ergueu as mãos de Clarice até a altura de seu peito, examinando cada calo, cada marca vermelha do frio, cada cicatriz do trabalho forçado. Em seguida, ele virou a cabeça milimetricamente e lançou um olhar cortante, como uma lâmina, para as mãos perfeitamente lisas, macias e pálidas de Leonor, repousadas sobre a mesa de jantar.
A inteligência do Barão juntou as peças em um segundo. Ele compreendeu perfeitamente a dinâmica daquela casa, a natureza do tropeço e a verdadeira identidade da garota tratada como escória. Os únicos que devem pedir perdão, implorar por misericórdia de joelhos nesta sala. Senhorita! A voz do Barão agora se elevou, dura como aço forjado, ecoando nas paredes altas e atingindo a malha e Leonor como chibatadas.
São aqueles que possuem audácia de confundir nobreza de berço com crueldade de alma. A verdadeira sujeira deste lugar não está neste chão. O salão parecia estar encolhendo ao redor da família Valadares. O barão Artur ficou de pé com uma fluidez majestosa, trazendo Clarice consigo. Ele não a soltou, pelo contrário, posicionou-se ao lado dela, uma montanha de proteção escura e imponente, abrigando a figura frágil em trapos.
A malha estava branca como cera, os lábios tremendos, sem emitir som. Leonor parecia prestes a desmaiar, a arrogância completamente esmagada pela humilhação de ser exposta e rejeitada pelo homem que ela acreditava ter conquistado. “Senora Amália”, começou Artur, o olhar faiscando com uma fúria fria que prometia ruína.
Eu vim até sua propriedade porque a sociedade exige que eu procure uma consorte, uma mulher digna de administrar minha casa, de sentar à minha mesa e de carregar o nome de minha família. Eu buscava uma mulher de valor. Leonor, em um ato de desespero patético, tentou forçar um meio sorriso, os olhos marejados.
Arthur cortou qualquer esperança com a precisão de um carrasco. Eu encontrei essa mulher esta noite. Ele pausou, garantindo que cada sílaba cravasse na alma daquelas mulheres. Mas garanto a vocês, o valor de um ser humano não se mede pelos metros de seda importada que veste, nem pela falsidade das palavras que profere. O valor está na luz e na resiliência da alma.
E a única luz verdadeira, a única nobreza real desta casa, foi trancafiada na cozinha e obrigada a servir monstros vestidos de seda. O choque no rosto de Amália foi absoluto. Senr. Barão, o senhor está confuso. Ela é apenas silêncio. O comando de Arthur reverberou nas taças de cristal, silenciando a viúva imediatamente.
O barão virou-se para Clarice. A dureza em seu rosto derreteu, revelando uma suavidade que ele não exibia há anos. Sem hesitar, ele tirou seu sobretudo de lã grossa e o colocou sobre os ombros trêmulos e estreitos da garota, fechando a frente para protegê-la do frio, e, simbolicamente, escondendo seus farrapos da visão daquelas que a atormentavam.
O sobretudo engoliu a figura dela, impregnando-a com o cheiro de sândalo e charuto do barão, o cheiro de segurança. “Se você permitir, Clarice”, ele disse, usando o nome dela pela primeira vez, ignorando as formalidades. Eu a tirarei desta casa sombria esta noite. Você nunca mais terá que curvar a cabeça para ninguém.
Nunca mais lavará o chão ou recolherá os cacos da inveja alheia. Ele estendeu o braço para ela. Você sairá por aquela porta da frente. Entrará na minha carruagem, não como uma criada, mas como uma convidada de honra em minha propriedade, e só sairá de lá, se assim o desejar, como a senhora de Montemor. Clarice olhou para cima, o peito subindo e descendo acelerado.
O mundo ao seu redor estava girando. As palavras do homem à sua frente pareciam um sonho impossível. Mas o peso do casaco em seus ombros e o calor de sua mão eram a prova de que era real. Ela olhou para o rosto atônito e derrotado de sua tia, para as lágrimas de fúria e inveja de sua prima. E então, olhando profundamente nos olhos cinzentos do homem que a enxergou quando todos fingiam que ela era invisível, ela a sentiu levemente, um simples movimento de cabeça, acompanhado de lágrimas de alívio e libertação que escorreram por
suas bochechas. Artur a conduziu. Ele não a guiou pelos fundos, mas caminhou de braços dados com ela pelo centro da sala de jantar, os passos firmes ecoando como uma marcha de vitória, deixando para trás os estilhaços de porcelana e duas mulheres paralisadas pelo próprio veneno. Eles a trataram como lixo, esconderam-na como um segredo vergonhoso.
Mas naquela noite de ventos uivantes, a vila viu a garota de vestido rasgado, envolta no sobretudo do barão, partir na carruagem negra rumo ao alto da colina, deixando para sempre a sombra da rejeição para se tornar a luz da fortaleza de pedra. Seis meses se passaram desde a noite tempestuosa que mudou a história da província.
A imponente fortaleza de pedra no alto da colina, outrora conhecida por seu silêncio lúgubre, agora transbordava vida. A luz suave da manhã invadia os enormes vitrais da biblioteca, iluminando Clarice. Ela já não era a garota assustada de trapos rasgados, vestida com um elegante e fluido vestido de seda azul celeste, feito sob medida pelos melhores alfaiates da capital.
Seus cabelos acobreados desciam em ondas brilhantes pelas costas. Suas mãos, outrora calejadas e machucadas pelo frio do tanque de lavar roupas, agora eram macias e ostentavam uma majestosa aliança de ouro maciço e safira. Ela havia se tornado, em todos os sentidos, a verdadeira rainha de Montemor.
Na vila lá embaixo, a justiça implacável do destino havia cobrado seu preço com juros. sem o apoio financeiro, a influência ou sequer o olhar do Barão Artur, que cortou sumariamente todos os laços e negócios com a família. A falsa opulência de tia Amália ruiu como um castelo de cartas. Afogada em dívidas que não conseguia mais esconder, a mansão dos Valadares foi leiloada.
Leonor, a prima que um dia zombou da miséria alheia, viu-se forçada a se mudar para um casebre úmido nos arredores da cidade. Agora era Leonor quem precisava esfregar o próprio chão de pedra e costurar roupas para fora para sobreviver, engolindo a seco o gosto amargo do próprio veneno. Ninguém na alta sociedade ousava dirigir a palavra às mulheres que haviam humilhado a atual e adorada baronesa.
Clarice observava a vastidão verde de suas terras pela janela, um sorriso sereno desenhado nos lábios quando ouviu passos firmes se aproximarem. Dois braços fortes, largos e inabalavelmente protetores a envolveram pela cintura, puxando-a gentilmente para trás. Era Arthur. O lendário homem de gelo, havia derretido completamente.
Ao olhar para ela, seus olhos cinzentos transbordavam uma devoção e uma ternura que ele reservava única e exclusivamente para a sua esposa. Ele depositou um beijo suave no topo da cabeça de Clarice, repousando o queixo em seu ombro. No que a minha rainha está pensando tão cedo, olhando pela janela? sussurrou o barão, a voz grave e rouca, carregada de um amor profundo.
Clarice recostou-se no peito largo do marido, sentindo as batidas calmas do coração dele, o lugar mais seguro do mundo. Ela levantou a mão direita, roçando os dedos na bochecha de Artur com um carinho infinito. estava apenas pensando. Ela respondeu com um sorriso radiante, virando o rosto para encontrar os lábios dele.
Em como uma simples xícara de chá quebrada foi capaz de consertar toda a minha vida. Arthur sorriu, selando os lábios dela em um beijo apaixonado. Naquela imensa fortaleza, a garota, que um dia foi tratada como lixo, havia encontrado muito mais do que um trono ou uma coroa de pedras preciosas. Ela havia encontrado o amor verdadeiro.
E para o barão viúvo, a mansão escura finalmente havia voltado a ter luz.