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Garotos brincando de bandidos: A trágica e bizarra saga de Pato Rouco no interior do Maranhão

Garotos brincando de bandidos: A trágica e bizarra saga de Pato Rouco no interior do Maranhão

O cenário é Bacabal, uma cidade no interior do estado do Maranhão, historicamente marcado por ser uma das regiões mais vulneráveis do Brasil. Longe dos grandes holofotes da mídia nacional e sem qualquer relevância no eixo principal do tráfico internacional de entorpecentes, o município parecia pacato. No entanto, as ruas de bairros periféricos como Vila Mearim, Trisidela e Bairro Areia tornaram-se o palco de uma das tramas mais bizarras, amadoras e, acima de tudo, sangrentas da história recente do crime subterrâneo brasileiro. Esta é a história de João Vittor Vieira, o “Pato Rouco”, e de um bando de jovens que decidiram brincar de ser gente grande — e descobriram, da pior forma possível, que a vida real não tem botão de reiniciar.

O amadorismo que enganou uma comunidade

A criminalidade em Bacabal sempre foi alimentada por delinquentes locais, criminosos sem bandeira ou ideologia, operando em um ambiente que muitos moradores descreviam como um verdadeiro inferno isolado. Contudo, o panorama mudou superficialmente com as ondas de repressão policial no Sudeste do país, especialmente após a histórica ocupação do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Expulso de seus redutos originais, o Comando Vermelho (CV) expandiu seus tentáculos em direção ao Nordeste, sendo o Maranhão uma de suas últimas fronteiras.

Quando as grandes organizações criminosas começaram a ecoar na região, a juventude local, sem perspectivas de futuro, educação de qualidade ou empregabilidade, encontrou uma perigosa válvula de escape. O paradoxo de Bacabal reside no fato de que a maioria absoluta dos jovens que afirmavam pertencer a essas facções sequer eram batizados. Na verdade, a dinâmica limitava-se a adolescentes que vestiam a camisa de uma organização, adotavam gírias e postavam ameaças na internet.

Nesse cenário de ilusões e redes sociais, surgiu Pato Rouco. Com apenas 16 anos e uma audácia inversamente proporcional à sua estrutura financeira, ele declarou publicamente lealdade ao Comando Vermelho. O detalhe irônico e perigoso: a Vila Mearim, onde ele morava com os pais e vários irmãos, estava majoritariamente alinhada ao Primeiro Comando da Capital (PCC), a facção paulista rival. Pato Rouco iniciou uma guerra praticamente solitária baseada em provocações virtuais. Era um teatro tão amador que, inicialmente, as próprias forças de segurança pública não levaram a sério.

A ilusão da ostentação na pobreza extrema

Dizer-se faccionado dava aos jovens de Bacabal um status artificial de poder. No entanto, a realidade por trás dos panos era de uma miséria degradante. Não havia lucro, não havia grandes carregamentos de drogas e não havia enriquecimento. A vida desses garotos era uma exata soma zero.

A própria família de Pato Rouco sobrevivia na extrema pobreza. O desespero financeiro era tamanho que a mãe do jovem chegou a ser detida pela polícia civil após ser flagrada furtando alimentos em um supermercado local, acompanhada por outro filho de apenas 11 anos. Enquanto o adolescente de 16 anos postava bravatas na internet e ostentava armas fornecidas por criminosos mais velhos e experientes — que usavam esses menores como bucha de canhão —, a sua realidade doméstica era de fome.

Mesmo com a óbvia desvantagem numérica e estrutural, Pato Rouco parecia ter um pacto com a sorte. Em um intervalo inferior a doze meses, seus rivais tentaram assassiná-lo em pelo menos nove ocasiões distintas. Três desses atentados ocorreram em uma única semana. Ele sempre escapava ileso, muitas vezes acompanhado por sua namorada, que o seguia cegamente pelas vielas da cidade. Seus algozes eram tão inexperientes quanto ele: garotos pobres que mal sabiam manusear o armamento precário que possuíam.

O ponto de inflexão e a tragédia do inocente

Tudo escalou em 2019. A rivalidade mortal entre Pato Rouco e Micael Felipe Viano de Souza atingiu o ápice após o famoso assalto a banco no estilo “Novo Cangaço” que abalou Bacabal. As provocações virtuais transformaram-se em ordens de execução. Em um dia fatídico, um grupo de rivais armados invadiu a humilde residência de Pato Rouco na Vila Mearim. O alvo principal não estava lá; havia viajado e continuava a enviar mensagens provocativas aos inimigos.

O que se seguiu foi um ato de covardia sem limites. Ao perceber a invasão, o irmão mais novo de Pato Rouco, Kauan Vieira Marinho, de apenas 14 anos, tentou se esconder debaixo de uma cama. Os criminosos abriram fogo contra a estrutura da residência. Kauan foi localizado e executado ali mesmo, recebendo cerca de três tiros nas costas. Outro irmão, Jeenderson Vieira Marinho, de 10 anos, foi baleado na perna, mas sobreviveu. Todo o episódio de horror ocorreu diante dos olhos da mãe.

A partir daquele momento, a opinião pública local e os seguidores da “saga” nas redes sociais esperavam que Pato Rouco se transformasse em um perigoso e implacável cobrador de dívidas. A mídia sensacionalista local alimentava a narrativa, colocando mais lenha na fogueira. Contudo, a vida real provou ser muito mais cruel e patética do que a ficção do crime organizado.

Ao tentar vingar o irmão, Pato Rouco localizou um dos supostos algozes. Ele sacou a arma e disparou repetidas vezes, mas errou absolutamente todos os tiros. Dias depois, foi até a casa de um parente de Micael e descarregou o revólver contra as paredes, recuando apenas porque as munições acabaram. Em uma terceira tentativa cega de vingança, ele invadiu e baleou uma residência, quase matando uma criança inocente. O motivo do erro? Pato Rouco baseou seu ataque na cor do imóvel: ele procurava uma casa vermelha, mas acabou alvejando uma casa cor de vinho. Os moradores da periferia de Bacabal já não aguentavam mais o terror imposto por um menor de idade descontrolado.

O voo muito próximo ao sol

O destino final de João Vittor estava traçado. Na madrugada de um domingo, enquanto estava com a namorada em um bar localizado na Avenida Francisco Marques, no centro de Bacabal, o cerco se fechou. Elementos rivais aproximaram-se de surpresa e efetuaram múltiplos disparos à queima-roupa. Pato Rouco foi atingido por seis a nove tiros de pistola calibre .40, inclusive na região do pescoço.

Ele ainda foi socorrido por populares e levado às pressas para a base do SAMU, sendo posteriormente transferido para o Hospital Regional Dra. Laura Vasconcelos. Ele não resistiu à gravidade dos ferimentos e teve seu óbito confirmado. Terminava ali a trajetória do líder amador da Vila Mearim, mas não o rastro de sangue deixado por suas escolhas.

O efeito dominó: Um ciclo sem fim

A morte de Pato Rouco desencadeou um ciclo interminável de vinganças familiares. Seu irmão, Jonathan Marinho, assumiu o manto da retaliação. Jonathan começou a atirar aleatoriamente contra suspeitos, chegando a balear um cidadão inocente que transitava de motocicleta com a namorada. Após ser preso e libertado, Jonathan decidiu fugir do Maranhão em busca de paz, mudando-se para Sorriso, a cidade considerada a mais segura do estado do Mato Grosso. No entanto, o passado o encontrou. Envolvido novamente com o tráfico local, Jonathan e sua esposa foram brutalmente executados a tiros em solo mato-grossense.

A trupe rival de Pato Rouco teve um fim igualmente trágico e violento, desenhando o mapa da autodestruição do crime juvenil em Bacabal

No fim dessa tragédia real, a figura que mais sofreu foi a mãe de Pato Rouco, que perdeu três de seus filhos para a violência urbana. A única história de redenção pertence à ex-namorada do jovem que, anos após sobreviver aos tiroteios, mudou completamente de vida, constituiu uma família e hoje expressa profundo arrependimento pelo tempo em que viveu na ilusão das facções falsas de Bacabal. A cidade, segundo relatos de ex-moradores, ficou marcada por uma atmosfera pesada, fazendo com que muitos vissem a única solução para o futuro na plataforma de embarque da rodoviária local.