O Preço da Traição Política: Como o Deputado Otony de Paula Mudou de Lado, Perdeu os Aliados e Acabou Isolado por Lula

Da militância bolsonarista ferrenha à tentativa de aproximação com o PT, a trajetória recente do parlamentar fluminense se tornou o maior exemplo de como o pragmatismo exagerado pode sepultar uma carreira política.
O cenário político brasileiro é conhecido por suas reviravoltas dramáticas, mas poucas trajetórias recentes ilustram tão bem o conceito de “suicídio político” quanto os passos dados pelo deputado federal do Rio de Janeiro, Otony de Paula. Eleito e reeleito sob a esteira do fenômeno bolsonarista, o parlamentar — que outrora utilizava discursos inflamados e as redes sociais para atacar a esquerda com termos pesados — protagonizou uma das transições ideológicas mais controversas da história recente do Congresso Nacional.
Contudo, o que parecia ser uma jogada estratégica para se aproximar do novo poder central transformou-se em um pesadelo político. Hoje, rejeitado pela base que o elegeu e ignorado pela cúpula petista que tentou seduzir, Otony de Paula vive o isolamento das urnas e dos bastidores, servindo de alerta para navegantes que acreditam que o eleitorado possui memória curta.
1. A Ascensão na Onda Verde e Amarela (2018–2022)
Para entender a magnitude da queda, é preciso lembrar como Otony de Paula chegou ao topo. Em 2018, surfando na onda de renovação conservadora que levou Jair Bolsonaro à presidência da República, Otony se posicionou como um dos defensores mais intransigentes das pautas de direita e dos valores da família tradicional no Rio de Janeiro. Fotos sorridentes ao lado do ex-presidente dentro do Palácio do Planalto e discursos inflamados no plenário da Câmara dos Deputados moldaram sua identidade pública.
A retórica era agressiva e sem concessões. Em 2022, no auge do processo eleitoral, Otony não poupava palavras para classificar o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus aliados. Em declarações públicas que hoje ecoam com ironia, o deputado chegou a disparar ataques frontais:
“O Lula ladrão tem agora um método para que esta casa se curve aos seus interesses. Eu quero dizer para vagabundos igual a Lula: não atravesse a escola dos meus filhos e nem pense em visitar minha esposa. Ir em casa, então, inimaginável. Sabe por quê? Porque lá no Rio de Janeiro a gente tem um método de tratar bandido. Isso é no Rio, é na bala!”
Essa postura garantiu a ele a confiança e os votos de milhões de bolsonaristas fluminenses que enxergavam nele um guerreiro leal na trincheira ideológica. No entanto, o resultado das urnas de 2022 mudaria tudo.
2. A Virada de Casaca e o Pragmatismo de Bastidores
Com a vitória de Lula em 2022, o pragmatismo político de Otony de Paula falou mais alto que suas convicções declaradas. Quase que do dia para a noite, o deputado desembarcou do bloco de oposição e iniciou um movimento de aproximação com o novo governo. O tom dos discursos mudou radicalmente. Otony passou a criticar publicamente figuras centrais do bolsonarismo, como o senador Flávio Bolsonaro, apontando supostos escândalos de corrupção e questionando a moralidade daqueles que continuavam apoiando a família do ex-presidente.
Em vídeos publicados em suas redes, Otony passou a confrontar seus antigos eleitores, afirmando que o problema deles “nunca foi a corrupção, mas sim o Lula”, e que ao apoiarem outros nomes da direita, estavam dando um “salvo-conduto” para irregularidades.
Mas o que motivou uma mudança tão drástica e repentina? Nos bastidores de Brasília e do Rio de Janeiro, a resposta aponta para uma complexa articulação envolvendo o setor religioso.
3. A Articulação com o Ministério Madureira e o Fator Jorge Messias

Como uma das principais lideranças políticas ligadas à Assembleia de Deus – Ministério Madureira, Otony de Paula atuou fortemente como interlocutor entre a igreja e o Palácio do Planalto. O objetivo central dessa reaproximação tinha nome e sobrenome: Jorge Messias, o Advogado-Geral da União e um dos nomes cotados pelo governo para vagas nos tribunais superiores e no cenário político nacional.
A estratégia ficou evidente quando fotos do Bispo Samuel Ferreira, liderança máxima de Madureira, ao lado do presidente Lula e de Gleisi Hoffmann, começaram a circular. Otony era visto como o arquiteto dessa ponte de ouro. A moeda de troca parecia clara: o apoio da influente fatia evangélica ao governo em troca de espaço político, prestígio e a consolidação de indicações estratégicas no Judiciário e no Legislativo.
Para cumprir sua parte no acordo, Otony precisou “engolir o cuspe”, abraçar a gestão petista e isolar-se de seu antigo nicho. Ele apostou alto. O problema é que, na política, apostas altas sem garantias reais costumam terminar em tragédia.
4. O Castigo do Pragmatismo: Rejeitado por “Painho”
O desfecho dessa articulação foi desastroso para o deputado. Além de ver as negociações de bastidores perderem força no Senado, Otony de Paula descobriu da pior maneira possível que o Partido dos Trabalhadores e o presidente Lula não costumam premiar novos convertidos com total confiança.
Apesar de ter abraçado a agenda governista, Otony acabou completamente escanteado pelo PT no Rio de Janeiro. O partido não ofereceu o apoio político esperado para seus projetos locais, negou-lhe espaço de legenda expressivo e vetou qualquer protagonismo em coligações majoritárias na capital fluminense.
Lula e a cúpula petista mantiveram o deputado à distância, cientes de que um aliado que trai sua base original com tanta facilidade pode fazer o mesmo com qualquer um. Otony ficou em um limbo político: para a direita, é visto como o “traidor supremo”; para a esquerda, é apenas um oportunista descartável que perdeu a utilidade prática.
5. O Cenário para 2026: O Julgamento das Urnas
A desidratação política de Otony de Paula já é evidente. Sem o apoio da máquina petista e sem o voto de opinião da direita bolsonarista, analistas apontam que o parlamentar enfrentará um cenário devastador nas próximas eleições. No Rio de Janeiro, o eleitorado de direita é conhecido por sua fidelidade partidária e por punir severamente aqueles que mudam de lado por conveniência.
Como ironizam seus críticos mais ferrenhos, o deputado que antes sonhava com voos altos no plano estadual e federal agora corre o risco de não conseguir se eleger nem para síndico do próprio condomínio. A trajetória de Otony de Paula deixa uma lição clara e atemporal para a política brasileira: a credibilidade é um patrimônio difícil de construir, mas que pode ser destruído em um único piscar de olhos. Em 2026, a resposta do eleitorado fluminense promete ser amarga, soberana e pedagógica.