Terror e Barbaridade em Dias d’Ávila: Como a Guerra de Facções Converteu uma Cidade Baiana em Tabuleiro de Sangue

Dias d’Ávila, um município da Região Metropolitana de Salvador com cerca de 71 mil habitantes, carrega no papel a imagem de um polo promissor, impulsionado pelo comércio, transporte e indústrias não metálicas. No entanto, quem digita o nome da cidade nos motores de busca é bombardeado por uma realidade paralela e sombria: decapitações, toques de recolher, fuzilamentos de caixões e um clima generalizado de pânico. A violência que assola a região reflete uma estatística alarmante de 2025, ano em que a Bahia se consolidou na segunda posição entre os estados mais violentos do Brasil (com 40,6 mortes por 100 mil habitantes), abrigando 13 das 100 cidades mais perigosas do país.
O capítulo mais recente e macabro dessa guerra de territórios ocorreu na madrugada do dia 4 de junho de 2026. A brutalidade do crime chocou até mesmo os moradores já calejados pela violência, redesenhando os limites da crueldade humana através das ações do chamado “tribunal do crime”.
A Noite do Horror: O Sequestro e a Execução de Raí
Raí Ferreira Silva tinha apenas 17 anos. Na calada da noite, a tranquilidade de sua residência, localizada na Segunda Travessa Alvorada, no bairro Jardim Alvorada, foi despedaçada. Homens armados a bordo de um Ford Ka branco arrombaram a porta e invadiram o imóvel. Sem dar qualquer chance de defesa, os criminosos dominaram o adolescente e o arrastaram para fora de casa.
O cenário que se seguiu foi de puro desespero familiar. A mãe e o irmão caçula de Raí foram forçados a assistir a tudo. De joelhos, a mãe implorou pela vida do filho, suplicando para que os executores tivessem piedade. Os apelos foram ignorados. Raí foi espancado brutalmente em plena via pública antes de ser executado e decapitado na frente de seus familiares.
O sadismo, contudo, não terminou com a morte. Membros da facção rival gravaram um vídeo chocante que rapidamente circulou pelas redes sociais e aplicativos de mensagens: os criminosos usaram a cabeça decepada do adolescente para “jogar bola”, chutando-a pelo asfalto como se fosse uma bola de futebol. Horas depois, moradores locais encontraram o corpo mutilado no meio da rua e acionaram as guarnições da 36ª Companhia Independente da Polícia Militar (CIPM), que isolaram a área até a chegada do Departamento de Polícia Técnica (DPT) e a posterior remoção ao Instituto Médico Legal (IML).
Efeito Dominó: Vingança, Caixões Metralhados e o Caso “Maquinista”
Para a Polícia Civil, a execução bárbara de Raí não foi um ato isolado, mas sim uma retaliação direta a outro episódio sangrento ocorrido menos de um mês antes. O estopim teria sido a morte de Wanderson Nascimento Lima, de 17 anos, conhecido no mundo do crime pelo vulgo de “Maquinista”. Integrante do Comando Vermelho (CV) e apontado como braço direito de lideranças locais, Maquinista morreu em um confronto direto com a Polícia Militar.
A morte de um criminoso de alto escalão costuma gerar repercussões, mas o que aconteceu no funeral de Wanderson rompeu barreiras simbólicas: membros de uma facção rival — supostamente o Bonde do Maluco (BDM) — invadiram o velório e metralharam o caixão com o corpo do adolescente dentro. O ataque gerou intensa comemoração por parte de rivais nas redes sociais.
Informações preliminares apontam que Raí Ferreira Silva mantinha ligações com o BDM e teria celebrado publicamente o ataque ao caixão de Maquinista. Essa provocação virtual selou o seu destino. O “tribunal do crime” entrou em ação para enviar um recado claro. A dinâmica de traições e celebrações mórbidas na Bahia assemelha-se a casos célebres do Rio de Janeiro, como o da criminosa conhecida como “Diaba Loira”, cuja morte também foi amplamente comemorada por rivais após ela trocar a bandeira do CV pelo Terceiro Comando Puro (TCP).
O Império do Terror de Sid, o “Mad Mac”
No centro do tabuleiro de sangue de Dias d’Ávila está um nome que evoca pânico generalizado: “Sid” ou “Mad Mac”. Apontado como a liderança máxima do Comando Vermelho na cidade, ele coordena as ações bélicas e financeiras da facção, seja escondido nos complexos de favelas do Rio de Janeiro ou dando ordens de dentro do sistema prisional. Sob o seu comando, bairros como Concórdia, Santa Helena, Entroncamento e Lama Preta vivem sob rígidas leis paralelas.
A escalada bélica ganhou contornos dramáticos em maio de 2025, quando áudios atribuídos a Mad Mac circularam nas redes. Na ocasião, uma liderança identificada como “Tatai”, do Primeiro Comando da Capital (PCC), ordenou um ataque no bairro Concórdia, vitimando inocentes. A resposta de Mad Mac foi implacável, ordenando uma contraofensiva nos bairros Cristo Rei, Jacumirim, Varginha, Lessa Ribeiro e Padre Torrente, com ordens explícitas para “atirar em qualquer um que estivesse de bobeira na pista”. Desde então, a guerra aberta entre Mad Mac (CV) e Caik (BDM) transformou as ruas da cidade em um corredor da morte. O racha interno na facção entre Mad Mac e “Barriga Peixe” no final de 2025 elevou ainda mais os índices de homicídios dolosos na região.
Além das Drogas: O Monopólio da Internet e o Debate sobre a Maioridade Penal
A atuação das facções em Dias d’Ávila e municípios vizinhos, como Camaçari, transcendeu o tráfico de entorpecentes. Hoje, o crime organizado diversificou suas fontes de renda, focando na extorsão e no controle de serviços essenciais, como a distribuição de internet banda larga.
Criminosos arrancam os cabos e destroem a infraestrutura de operadoras licenciadas, forçando os moradores a assinarem o serviço clandestino controlado pela facção. Técnicos de empresas privadas são constantemente ameaçados e o atendimento em diversas áreas de vulnerabilidade — e até em condomínios de alto padrão — passou a ser negado por falta de segurança pública. Os cidadãos tornaram-se reféns duplos: não têm liberdade para caminhar nas calçadas e são privados do direito básico de comunicação.
A recorrência de episódios brutais envolvendo menores de idade — como Raí, Maquinista e Fábio Santos (outro jovem de 17 anos executado por desobedecer ordens em 2025) — reacendeu com força o debate político nacional. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) aprovou propostas que visam reduzir a maioridade penal. Defensores da medida argumentam que jovens de 16 e 17 anos possuem pleno discernimento sobre a gravidade de seus atos, enquanto críticos apontam que a redução não resolve o aliciamento em massa promovido pelos barões do tráfico. No fogo cruzado dessa discussão teórica, a juventude da periferia baiana continua sendo dizimada pelo sadismo das facções.