Exclusivo: confira os depoimentos dos envolvidos na morte de Maria Eduarda durante salto radical

“Apagão da Mente” ou Negligência Fatal? O Que Dizem os Acusados de Atirar Jovem para a Morte sem Corda em Salto Radical
A Imagem do Ano que Chocou o País
Há cenas que se fixam na memória coletiva não pela beleza, mas pelo horror absoluto da realidade. O registro em vídeo do salto de Rope Jump de Maria Eduarda, de apenas 22 anos, é uma delas. A jovem atira-se de uma ponte com cerca de 40 metros de altura, confiando a sua vida a uma equipa de supostos profissionais. O que se segue é o incompreensível: Maria Eduarda cai em queda livre direta, colidindo violentamente contra o solo. Não havia corda atada ao seu corpo. O equipamento de segurança essencial permaneceu intacto, enrolado no chão da plataforma de salto.
O caso, que gerou uma onda de indignação nacional após ser revelado em detalhe pelo programa Cidade Alerta, resultou na detenção imediata de três homens: Luiz Felipe, Maicon Fernandes e Vittor. Em exclusivo, os depoimentos prestados por estes jovens perante o juiz na audiência de custódia revelam uma mistura desconcertante de amnésia coletiva, desculpas evasivas e uma aparente falta de empatia que chocou até os investigadores mais experientes.
O Negócio Clandestino por Trás do “Esporte Radical”
À medida que as investigações avançam, a fachada de “empresa de desportos radicais” desmorona-se. O grupo responsável pelo evento não possuía registo legal, CNPJ ou qualquer tipo de seguro ou autorização governamental para operar. Tratava-se, na verdade, de um grupo de amigos que se organizou informalmente para explorar comercialmente uma atividade de altíssimo risco.
No sábado do trágico acidente, a meta do grupo era ambiciosa: realizar 90 saltos ao longo do dia. Cada participante pagava cerca de R$ 200 pela experiência de adrenalina. Matemática simples revela que o faturamento daquele único dia ultrapassaria os R$ 20.000. Maria Eduarda foi a 15ª pessoa a saltar. Um dos clientes seguintes, agendado para o número 45, relatou o ambiente de pressa e a pressões de tempo para maximizar os lucros.
Para além do valor do salto, o grupo cobrava uma taxa extra pela gravação do momento em vídeo. Maria Eduarda pagou por esse serviço. Ela saltou segurando uma câmara com a mão direita — uma câmara que registou os seus últimos segundos de vida e o impacto fatal. Contudo, esse equipamento crucial desapareceu misteriosamente após a queda. A polícia investiga agora quem recolheu e ocultou o dispositivo com o objetivo de destruir provas.
Os Depoimentos: Versões que se Cruzam na Irresponsabilidade
Luiz Felipe: “Depois disso, já apagou da mente”
Luiz Felipe era um dos responsáveis diretos pela colocação e verificação das cordas no peito dos saltadores. Confrontado pelo tribunal com a evidência gritante das imagens — onde se nota claramente que a jovem avança para a beira do precipício sem qualquer amarra —, a sua defesa baseou-se num esquecimento inexplicável.
“Ou sou eu ou é ele que faz [a colocação da corda], tá? Só que eu passei lá para a frente primeiro. Aí, depois disso, já apagou da mente. Eu não lembro”, afirmou Luiz Felipe perante o juiz.
Quando questionado sobre como o sistema de dupla checagem falhou de forma tão grosseira, o arguido justificou-se com a suposta distração causada pelo público presente. “Tinha muita aglomeração, muita gente falando. Às vezes vai para o salto, o pessoal começa a gritar. Daí, tipo, não ouvi nada.” Luiz Felipe admitiu ainda ter retirado a camisola da equipa e mudado de roupa no seu automóvel logo após o acidente, alegando que a peça estava “suja e molhada” devido aos procedimentos de socorro.
Maicon Fernandes: “Todos ficaram cegos”
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Maicon Fernandes, o homem que aparece nas imagens a segurar os pés de Maria Eduarda antes do arremesso, possui anos de experiência na modalidade. No entanto, o seu depoimento seguiu a mesma linha de incompreensão e transferência de culpas.
“Na operação, às vezes eu coloco a corda, às vezes o Felipe. O Felipe é o que estava na frente. Não consigo entender em que momento é que eu não vi uma corda. É visível no peito. Então é difícil entender como não viu. Simplesmente não consigo entender”, declarou Maicon.
O arguido negou ter ouvido os gritos desesperados de “A corda, a corda!” vindos de uma testemunha que filmava a ação de longe. Sobre o paradeiro da câmara que estava com a vítima, Maicon confirmou que o procedimento padrão era recolher o equipamento após o salto para transferir os ficheiros, mas alegou não saber onde o objeto foi parar naquele dia específico. À semelhança do colega, Maicon também mudou de roupa antes da chegada da Polícia Militar.
Vittor: O Homem do Arremesso Final
O terceiro detido, Vittor, tentou afastar a sua responsabilidade direta sobre a segurança técnica do salto. Segundo o seu relato, a sua função inicial era equipar os clientes numa tenda de apoio afastada da ponte. Ele terá sido chamado à plataforma apenas no momento exato do salto de Maria Eduarda para ajudar na força física do lançamento.
“Eu fui chamado para ajudar a levantar. Não estava ali responsável pela colocação da corda naquele momento. Quando eu sou chamado, já é para estar tudo OK. Não tenho essa autoridade ali”, defendeu-se. Vittor admitiu que ninguém da equipa confirmou visualmente o equipamento antes do empurrão final. Ele confirmou que todo o grupo trocou de roupa após a tragédia porque “estava todo mundo sujo”.
A Frieza que Assusta e a Busca por Justiça
A análise dos três depoimentos revela uma postura que chocou a opinião pública e os comentadores do caso: a extrema naturalidade com que os arguidos descrevem o erro fatal. Não há relatos de desespero, pedidos de desculpas genuínos ou explicações lógicas. A linha de defesa parece focar-se num “erro coletivo invisível”, onde três homens experientes olharam para o peito nu de uma jovem e nenhum deles notou a ausência de duas cordas grossas de 12 milímetros, projetadas para aguentar duas toneladas.
O crime, que está a ser tratado pelas autoridades com a máxima gravidade, levanta um debate urgente sobre a total falta de regulamentação e fiscalização destas atividades de turismo de aventura em pontes e viadutos pelo país.
Enquanto a comunidade de Jandira, na Grande São Paulo, chora a perda prematura de Maria Eduarda, a polícia continua as buscas para localizar a câmara desaparecida. As autoridades acreditam que o conteúdo do cartão de memória poderá trazer respostas definitivas sobre as últimas conversas na plataforma e clarificar de uma vez por todas se houve dolo ou uma negligência que roça a criminalidade consciente. Os três envolvidos permanecem detidos e vão responder perante a justiça pela morte da jovem.