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Do Esporte ao Crime: A Tragédia de Rosquinha e o Limite dos Projetos Sociais na Periferia

Do Esporte ao Crime: A Tragédia de Rosquinha e o Limite dos Projetos Sociais na Periferia

A história de um jovem conhecido pelo apelido de “Rosquinha” (ou Donut) é um dos exemplos mais emblemáticos e tristes de como a linha entre a esperança e o abismo pode ser tênue para milhares de adolescentes que crescem em áreas de vulnerabilidade social no Brasil. Sua trajetória, que começou nos gramados e nos projetos sociais que visavam o afastamento do crime, terminou de forma brutal nas linhas de frente de uma guerra territorial na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Analisar o caso de Rosquinha é, acima de tudo, abrir um debate necessário sobre a complexidade da segurança pública e os desafios reais que o terceiro setor enfrenta ao tentar competir com a sedução do mundo do crime.

A Promessa do Campo: A Educação pelo Esporte

Rosquinha frequentava projetos sociais dentro da favela do Rodo (comunidade frequentemente referida como Rola, devido à conotação do nome original). Para muitos, o esporte é a última barreira de proteção contra o assédio das facções criminosas. O projeto em que o jovem participava tinha como objetivo principal a formação de cidadãos através da disciplina, do convívio social e da busca por uma oportunidade de carreira — quem sabe, no futebol de elite.

No entanto, é preciso ser realista quanto à eficácia desses projetos quando atuam de forma isolada. O desporto, embora essencial, não possui, por si só, a capacidade de suprir todas as carências de um jovem que vive na linha da pobreza extrema. O “ser jogador de futebol” é o sonho mais concorrido do planeta, e quando o jovem percebe a distância abismal entre a realidade do seu bairro e o sucesso das ligas europeias, a frustração pode ser um terreno fértil para a influência negativa.

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A Cooptação e a “Gelatina” do Crime

A entrada de Rosquinha no crime não foi um evento súbito, mas um processo de absorção lenta e constante. O convívio diário com indivíduos que eram, simultaneamente, amigos de infância e membros de facções criminosas, criou uma normalização da ilegalidade. O caminho é sempre o mesmo: a tarefa de guardar um fuzil, a entrega de uma pequena porção de drogas, a função de olheiro. Quando o jovem percebe, já não há mais retorno. Ele abandonou a escola, deixou o projeto social e foi “absorvido” pela estrutura do crime organizado.

O Comando Vermelho (CV), que dominava a região na época, viu-se sob pressão extrema. Com a ascensão da figura de Wellington Braga, o “Ecko”, um rosto que unificou diversas milícias na Zona Oeste carioca, a disputa territorial tornou-se sangrenta. Para o crime organizado, o recrutamento de jovens como Rosquinha serve a um propósito prático e cruel: a reposição de “bucha de guerra”. Jovens inexperientes são frequentemente colocados na linha de frente para defender territórios sob cerco, um papel que, no caso de Rosquinha, custou a vida.

O Fogo Cruzado da Realidade

O desfecho do jovem foi o resultado de um cenário em que a comunidade se tornou o centro de um embate entre o Estado (Polícia) e milícias que buscavam expulsar o CV da região. No fogo cruzado, não houve espaço para a antiga promessa do projeto social. Rosquinha foi morto em um intenso confronto armado, encerrando uma trajetória que, em outro contexto, poderia ter sido de sucesso e cidadania.

Este triste fim nos força a questionar: os projetos sociais são suficientes? A resposta, embora dolorosa, é que eles são fundamentais, mas insuficientes se não houver um suporte sistêmico. Projetos que visam a redução da violência devem estar atrelados a uma rede de proteção que inclua educação de qualidade, apoio financeiro às famílias e, principalmente, uma presença estatal que ofereça alternativas reais de renda. Sem uma “musculatura” maior que apenas o desporto, o crime organizado — que oferece dinheiro imediato, status e uma falsa sensação de pertencimento — continuará vencendo a disputa pela alma desses jovens.

Crianças brincam no Campo de futebol da Favela Mandela | Flickr

A Segurança Pública e o Papel do Cidadão

A segurança pública não pode ser resumida à polícia na rua. Ela é um ecossistema que depende da sensibilização dos pais, da permanência escolar e da oferta de oportunidades. Quando olhamos para a foto de Rosquinha com armas, comparando-a com sua fase no projeto social, não vemos apenas um “criminoso infrator”; vemos um reflexo do fracasso coletivo de uma sociedade que não conseguiu oferecer um horizonte melhor.

O caso de Rosquinha é um alerta. A cada jovem que perdemos para a “guerra” do tráfico, perdemos também uma parte do futuro da comunidade. É urgente que as discussões políticas sobre a segurança nas favelas superem a retórica dos tiros e passem a focar na inteligência social. Se não fizermos do mundo formal da legalidade um espaço mais atrativo e viável do que a oferta do crime, continuaremos assistindo a histórias repetidas, onde o talento é desperdiçado em confrontos inúteis e vidas precoces são interrompidas antes mesmo de florescerem. Rosquinha foi, acima de tudo, mais uma vítima de um jogo onde a única regra clara é que, para quem entra no mundo do crime, a saída é quase sempre a morte.