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O Púlpito do Ódio: Como a Disputa por Fiéis Levou um Pastor a Arquitetar uma Barbárie no Interior da Bahia

O Púlpito do Ódio: Como a Disputa por Fiéis Levou um Pastor a Arquitetar uma Barbárie no Interior da Bahia

A pacata rotina de Barra do Choça, no sudoeste da Bahia, sempre foi costurada por laços de vizinhança, hábitos simples e, acima de tudo, uma fé religiosa inabalável. Naquela pequena comunidade, a igreja nunca foi apenas um teto para orações; funcionava como o coração social da cidade, um refúgio onde segredos eram partilhados e o amparo mútuo ditava as regras. No centro dessa teia de confiança estava Edmar da Silva Brito. Homem de voz firme e magnetismo singular, ele liderava uma congregação independente que, apesar de não possuir os selos das grandes denominações evangélicas, arrastava multidões de fiéis leais. Para o povo, Edmar era o próprio reflexo da liderança espiritual. No entanto, por trás das vestes pastorais e dos sermões inflamados sobre o amor divino, ocultava-se uma mente obcecada pelo poder e pelo controle — uma vaidade cega que culminaria em uma das tramas criminosas mais brutais da história recente do estado.

A Ruptura e a “Declaração de Guerra”

Entre os membros mais destacados e influentes daquela igreja estava o casal formado por Marcilene Oliveira Sampaio, de 38 anos, e Carlos Eduardo de Souza, de 50 anos. Marcilene não era apenas uma mulher de fé; era uma respeitada professora universitária, admirada tanto pelo rigor acadêmico quanto pela generosidade com que guiava seus alunos e irmãos de crença. Carlos Eduardo, também pastor, dividia com ela o prestígio e a voz ativa dentro da comunidade. Eles eram o pilar intelectual e moral da congregação.

Ninguém soube precisar o momento exato em que as primeiras rachaduras teológicas e administrativas começaram a surgir. O que começou com sussurros e questionamentos discretos sobre a conduta e os rumos impostos por Edmar logo se transformou em um abismo intransponível. Sem encontrar respostas que pacificassem suas consciências, Marcilene e Carlos Eduardo tomaram uma decisão legítima, porém fatal aos olhos do líder: desligaram-se da instituição para fundar seu próprio ministério.

Para o casal, tratava-se de um novo ciclo na caminhada espiritual. Para Edmar da Silva Brito, a saída foi interpretada como uma humilhante declaração de guerra. O cenário piorou drasticamente quando a nova congregação do casal começou a crescer em um ritmo avassalador. Domingo após domingo, os bancos da igreja de Edmar esvaziavam-se. Rostos conhecidos e dízimos históricos migravam para o novo templo. A influência que ele erguera com anos de esforço estava se dissolvendo diante de seus olhos. O Ministério Público da Bahia sustentaria, anos mais tarde, que ver sua autoridade contestada acendeu em Edmar um rancor incontrolável. Ele não via uma transição natural de fiéis; via traição. E a resposta para a traição seria o sangue.

A Conspiração na Sombra das Tesouras

A vingança foi meticulosamente arquitetada. Afastando-se completamente da imagem de pastor misericordioso, Edmar cooptou dois de seus discípulos mais fervorosos e cegamente leais: Fábio de Jesus Santos, de 34 anos, e Adriano Silva Santos, de 36 anos. Homens que viam no líder uma extensão da própria vontade de Deus.

Na noite anterior ao crime, o trio encontrou-se em um cenário mundano e insuspeito: uma barbearia local. Entre o som de tesouras e conversas triviais, o plano da emboscada foi selado. O objetivo era claro e definitivo: interceptar o casal, decapitar a liderança da nova igreja e cessar, de uma vez por todas, o crescimento dos rivais. A eliminação física era vista por Edmar como o único remédio para estancar a perda de seu poder político e financeiro.

Emboscada e o Milagre da Sobrevivência

A oportunidade surgiu na noite em que Marcilene, Carlos Eduardo e a prima dela, Ana Cristina Santos Sampaio — que estava na cidade a passeio —, retornavam de um compromisso religioso. O veículo do casal singrava a escuridão do quilômetro 12 da estrada que interliga Vitória da Conquista a Barra do Choça. O trecho, ermo, desprovido de iluminação pública e cercado por vegetação densa, era o cenário perfeito para o horror.

De repente, as luzes de um segundo veículo cortaram a noite, bloqueando abruptamente a pista. A abordagem foi fulminante. Rendidos e sem qualquer chance de defesa, os três foram subjugados. Carlos Eduardo foi arrancado com violência do carro e jogado no banco traseiro de outro automóvel, sob a guarda de Fábio de Jesus Santos, que passou a espancá-lo brutalmente durante o trajeto.

Entre um golpe e outro, sentindo o gosto de sangue na boca e o terror congelar suas veias, Carlos Eduardo percebeu que o destino final daquela viagem seria a sua execução. Num ato de puro instinto de sobrevivência e desespero, ele provocou intencionalmente uma colisão do veículo em movimento. No caos gerado pelo impacto e pela fumaça, mesmo gravemente ferido, o pastor conseguiu abrir a porta, lançar-se na escuridão da mata densa e fugir em busca de socorro. Ele havia sobrevivido, mas o pior ainda estava por vir.

Crueldade com Pedradas: O Martírio das Vítimas

Enquanto Carlos Eduardo corria por sua vida, sua esposa Marcilene e a prima Ana Cristina eram conduzidas pelo restante do bando para um local ainda mais isolado, longe do asfalto. Ali, no silêncio quebrado apenas pelo pavor das vítimas, a face mais perversa da conspiração se revelou.

Sem armas de fogo, os executores optaram pelo uso de meio cruel. Utilizando pedras pesadas colhidas no próprio chão daquela estrada de terra, os agressores desferiram repetidos golpes contra as cabeças das duas mulheres. Marcilene e Ana Cristina foram brutalmente espancadas até a morte, sofrendo traumatismos cranianos severos que desfiguraram seus rostos. Os corpos foram abandonados à margem da via, como se fossem descarte.

Na manhã seguinte, moradores locais depararam-se com a cena dantesca. A notícia do duplo homicídio abalou as estruturas de Barra do Choça e repercutiu intensamente por toda a Bahia. A comoção foi geral: como uma professora universitária tão querida e uma visitante inocente puderam ter um fim tão selvagem? A resposta não tardaria, vinda da boca do único sobrevivente. Carlos Eduardo, ainda em estado de choque e sob cuidados médicos, apontou formalmente o pastor Edmar da Silva Brito como o mentor intelectual do massacre.

A Longa e Tortuosa Estrada da Justiça

A máquina policial agiu rápido nas primeiras horas. O investigador Marcos Vinícius e sua equipe prenderam Fábio de Jesus Santos, que confessou a participação e confirmou as ordens diretas de Edmar. Adriano Silva Santos também foi capturado. Edmar, por sua vez, fugiu e permaneceu foragido por semanas, até ser localizado pelas técnicas de inteligência da polícia civil e recolhido à prisão preventiva.

Contudo, o desfecho judicial transformou-se em uma longa agonia de quase dez anos para os familiares. Em 2017, Adriano foi condenado a 30 anos, mas em 2019 a sentença foi anulada em grau de recurso, resultando em sua absolvição e gerando forte indignação pública. No mesmo ano de 2019, Edmar, que havia obtido o direito de responder a parte do processo em liberdade, voltou a ser preso por um crime que chocou novamente a comunidade: o abuso sexual de sua própria enteada de 21 anos.

O julgamento definitivo de Edmar pelo duplo homicídio só ocorreu em março de 2025, no Tribunal do Júri de Vitória da Conquista. A defesa tentou desqualificar as provas e explorou a ausência física de Carlos Eduardo, alegando erro judiciário. No entanto, o Ministério Público demonstrou com maestria a premeditação e o meio cruel.

A juíza Ivana Pinto Luz foi implacável em sua leitura. Edmar da Silva Brito foi condenado a 32 anos de reclusão em regime fechado — sendo 16 anos pelo homicídio de Marcilene e 16 anos pelo de Ana Cristina —, tendo sua prisão decretada imediatamente na sala de audiências devido ao alto risco de fuga. Quase uma década depois, a justiça finalmente se fez presente, deixando para trás a dolorosa reflexão de como o púlpito, que deveria emanar o amor, foi transformado em palanque para a morte.