Justiçamento Sanguinário: Menino de 12 Anos é Forçado a Cavar a Própria Cova pelo Tribunal do Crime no Mato Grosso
O Brasil atravessa um momento de crise institucional profunda, onde a ausência do Estado em diversas regiões permitiu que o crime organizado assumisse o controle não apenas do tráfico, mas da própria aplicação da “justiça” local. Recentemente, um episódio ocorrido em Várzea Grande, no Mato Grosso, chocou o país e reabriu feridas sobre a atuação dos chamados “Tribunais do Crime”. Um menino de apenas 12 anos, acusado de cometer pequenos furtos na vizinhança, foi capturado por integrantes de uma facção criminosa e submetido a uma sessão de tortura psicológica e física que culminou em uma ordem de execução sumária: o jovem foi forçado a cavar a sua própria cova em um cemitério clandestino antes de ser morto.

A lógica por trás do Tribunal do Crime é, em sua essência, a substituição do Estado de Direito pela lei da força. Nessas audiências informais e ilegais, não há contraditório, não há defesa e, sobretudo, não há humanidade. A facção estabelece normas de conduta — o “manual de procedimentos” do crime — e qualquer desvio, por menor que seja, pode ser punido com a pena capital. O caso do menor em Várzea Grande, que causou alvoroço em abril e ainda hoje ecoa como um sintoma da falência da segurança pública, revela que o poder das organizações criminosas ignora qualquer limite ético, incluindo a idade de seus alvos. O fato de uma criança estar sendo submetida a tal violência é o atestado de falha de uma sociedade que não consegue proteger seus vulneráveis.
O desenrolar dos fatos é emblemático da confusão moral em que vivemos. Relatos indicam que parte da população local, exausta com a série de furtos cometidos pelo menor, teria solicitado, em um primeiro momento, a intervenção dos criminosos para dar um fim à desordem. Ocorre que o “corretivo” esperado pela vizinhança — possivelmente apenas uma surra ou uma intimidação — escalou rapidamente para a pena de morte. Foi a mesma população, horrorizada com o desfecho trágico e a crueldade da cova cavada pelo garoto, que acabou recorrendo à polícia militar para impedir que a execução se concretizasse. A intervenção das forças policiais, felizmente bem-sucedida, resgatou o jovem momentos antes de o crime ser consumado, revelando que, no limite, a sociedade ainda clama pela presença da autoridade estatal, ainda que tardiamente.
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A existência desses tribunais informais espalhados por capitais como Manaus e cidades como Várzea Grande não é um evento isolado; trata-se de uma fase da expansão do crime organizado que busca a “pacificação” territorial através do terror. Para que uma facção mantenha o controle de um bairro pobre, ela precisa que o medo seja a linguagem universal dos moradores. Ao executar um infrator, mesmo que este seja uma criança ou um adolescente, a facção envia uma mensagem clara: o comando é total, absoluto e não tolera desvios. O uso de técnicas como o esquartejamento ou a cova cavada pela própria vítima serve como ferramenta de propaganda criminal, um marketing de violência desenhado para consolidar o poder e amedrontar qualquer tentativa de resistência.
O drama vivido por esse jovem de 12 anos é um retrato da “juventude perdida” que é engolida pelas facções. Em muitos desses territórios, o tráfico de drogas ou a vida no crime é a única via de ascensão ou sobrevivência que o garoto conhece. Quando ele falha em seguir as regras impostas pelos seus chefes, ou quando começa a prejudicar o lucro local, ele se torna um estorvo. O tribunal, então, desumaniza-o. O vídeo da confissão forçada, gravado sob a mira de armas, é um ritual macabro de legitimação: o carrasco precisa que a vítima confesse para que ele, o carrasco, sinta que está fazendo justiça.
A polícia civil, ao intervir em casos como este, encontra desafios imensos. Não é apenas prender os executores; é retomar um território onde a facção impôs um código de silêncio e medo. Muitos desses locais operam sob uma “justiça” própria que, por vezes, goza de uma estranha aceitação popular, um fenômeno perigoso que ocorre justamente porque o sistema judiciário formal é percebido como lento, ineficiente ou ausente. Onde o Estado falha em garantir a ordem pública, o crime organizado entra e impõe a sua própria ordem, ainda que esta seja escrita com sangue.
É fundamental que o debate sobre a segurança pública vá além da repressão policial. O que estamos assistindo é uma crise de cidadania. Quando uma mãe, um pai ou um vizinho pede para que uma facção “resolva” o problema de um jovem infrator, eles estão, inconscientemente, validando a barbárie que pode atingir seus próprios filhos amanhã. É necessário repensar o acolhimento desses menores infratores, não através de torturas e tribunais ilegais, mas por meio de políticas públicas, educação e assistência social. O garoto de Várzea Grande, salvo por um resgate policial por pouco, é um sobrevivente de um sistema que o condenou antes mesmo de ele entender as consequências de seus atos.
A repercussão dessas histórias na internet, com milhares de pessoas pedindo a íntegra dos vídeos de tortura e execução, reflete também uma curiosidade mórbida que tem se tornado parte da cultura digital brasileira. Há um apetite por esse conteúdo que esconde, por vezes, uma insensibilidade perigosa. Precisamos urgentemente de uma mudança de rumo. O Brasil não pode se acostumar com a ideia de que crianças cavam as próprias covas em cemitérios clandestinos. A dignidade humana não pode ser negociada, e o poder das facções deve encontrar um limite intransponível na força das nossas instituições. Se não reagirmos enquanto sociedade, se continuarmos a aceitar o “justiçamento” como solução para nossos problemas, estaremos condenados a viver em um país onde a barbárie é a regra, e o Estado é apenas um expectador passivo de uma tragédia que nunca termina. O resgate desse jovem foi um sucesso pontual, mas a ferida aberta por este tribunal de terror permanece pulsando, exigindo uma solução que envolva muito mais do que apenas viaturas policiais; exige a retomada do território, da educação e da esperança.