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Caso Henry Borel: Depoimento de delegado no segundo dia de julgamento expõe tentativas de ocultação e revelações devastadoras sobre a rotina de violência

Caso Henry Borel: Depoimento de delegado no segundo dia de julgamento expõe tentativas de ocultação e revelações devastadoras sobre a rotina de violência

O segundo dia do julgamento do caso Henry Borel trouxe à tona revelações contundentes e dolorosas que reconstroem as primeiras e decisivas horas após a morte do menino de quatro anos, ocorrida em março de 2021. A sessão foi marcada pelo longo e detalhado depoimento do delegado Dr. Edson Henrique Damasceno, que na época dos fatos era o titular da 16ª Delegacia de Polícia da Barra da Tijuca e responsável por conduzir as investigações. Sob juramento e diante do conselho de sentença, a autoridade policial detalhou a complexidade da investigação, as pressões de bastidores, os laudos periciais e o comportamento dos réus, desmontando definitivamente a tese inicial de que a morte teria sido decorrência de um mero acidente doméstico.

Logo no início de sua inquirição, o Dr. Edson Henrique esclareceu o fluxo da notícia-crime e as primeiras providências adotadas pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. Segundo ele, o primeiro comunicado oficial partiu de Leniel Borel, pai de Henry, que compareceu à delegacia para registrar a ocorrência logo após receber a confirmação do óbito da criança no hospital. O delegado de plantão tomou as medidas imediatas e solicitou a perícia criminal para o apartamento onde o menino residia com a mãe, Monique Medeiros, e o padrasto, o então vereador Jairo Souza Santos Júnior, conhecido como Dr. Jairinho.

No entanto, o delegado ressaltou que o local do crime já havia sido severamente prejudicado quando a equipe técnica chegou para realizar o trabalho. A funcionária doméstica da residência havia limpado o apartamento na manhã seguinte aos fatos, removendo possíveis vestígios materiais cruciais. Apesar desse obstáculo inicial, as respostas definitivas começaram a surgir com o laudo de necropsia emitido pelo Instituto Médico Legal (IML). O documento cadavérico chocou a equipe de investigação pela gravidade e pela quantidade de lesões internas e externas encontradas no corpo de uma criança de apenas quatro anos.

Com vasta experiência em investigações de homicídios — tendo atuado por cerca de seis anos em delegacias especializadas da capital fluminense —, o Dr. Edson Henrique explicou que percebeu a gravidade e a complexidade do caso no momento em que leu os achados patológicos. O laudo apontava para múltiplos traumas que incluíam equimoses na região da cabeça, hematoma no rim, lesão pulmonar e uma laceração hepática significativa. “São lesões incompatíveis com uma queda de cama”, frisou a autoridade policial, acrescentando que os peritos legistas foram categóricos ao sugerir que a causa da morte decorreu de uma ação violenta contundente, estimando que o óbito possa ter ocorrido em até quatro horas após as agressões sofridas no interior do imóvel.

Um dos pontos mais tensos do depoimento envolveu a conduta do padrasto, Dr. Jairinho, logo após a constatação da morte de Henry no ambiente hospitalar. O delegado confirmou que o réu tentou exercer forte influência política junto à alta administração e a diretores da rede hospitalar privada para agilizar os trâmites burocráticos e emitir a declaração de óbito diretamente na unidade de saúde. O objetivo manifesto dessa manobra era evitar o encaminhamento do corpo do menino ao Instituto Médico Legal, o que impediria a realização da necropsia e, consequentemente, a descoberta das lesões internas provocadas por agressões físicas. A tentativa de interferência, contudo, foi prontamente negada pela direção e pela equipe médica de plantão, que seguiram o protocolo legal devido à dubiedade do quadro clínico da criança.

Caso Henry Borel: começa o julgamento de Jairinho e Monique | G1

Questionado pela defesa e pela acusação sobre os motivos de o inquérito ter permanecido na delegacia territorial da Barra da Tijuca, em vez de ser transferido imediatamente para a Delegacia de Homicídios, o Dr. Edson Henrique explicou as regras institucionais e operacionais vigentes. A princípio, o caso foi reportado e registrado formalmente como um suposto acidente doméstico, uma tipificação que inicialmente atrai a competência da distrital. O delegado ressaltou que preferiu manter a condução dos trabalhos baseada estritamente no rigor técnico e no acúmulo de provas coligidas, evitando precipitações institucionais. Ele lembrou que chegou a consultar o então diretor da instituição sobre o declínio de competência, mas recebeu a orientação de dar continuidade às investigações, o que se provou acertado diante da celeridade com que o caso foi solucionado e relatado ao Poder Judiciário.

A investigação revelou também uma rotina de sofrimento e pavor vivida por Henry Borel no ambiente familiar. O depoimento destacou o conteúdo de mensagens e conversas extraídas de telefones celulares, que comprovaram que a mãe, Monique Medeiros, tinha pleno conhecimento do comportamento violento do companheiro. Em diálogos mantidos com uma babá e com uma prima, ficou evidenciado que o menino demonstrava reações psicossomáticas graves, como episódios frequentes de vômito apenas ao avistar o padrasto ou ao saber que precisaria retornar ao apartamento do casal. Em uma das ocasiões relatadas, Henry teria mencionado que levou uma “banda” (uma rasteira) e que sua cabeça doía em decorrência de agressões desferidas por Jairinho. No hospital, contudo, a versão sustentada pela mãe seguiu estritamente a narrativa de uma queda acidental da cama, configurando o que a polícia e o Ministério Público denominam como “história cobertura” — uma farsa planejada para mascarar o crime.

O histórico de violência doméstica de Dr. Jairinho não se restringia ao caso de Henry Borel. O delegado relembrou que, no curso do inquérito policial, novas testemunhas e ex-companheiras do réu foram localizadas e prestaram depoimentos fundamentais. Mulheres relataram episódios anteriores de agressões físicas brutais contra elas e contra seus respectivos filhos. Entre os relatos mais estarrecedores descritos no tribunal, estava o depoimento de uma ex-namorada cujo filho sofreu uma fratura de fêmur durante o período de convivência com o acusado. Em outra ocasião de maus-tratos severos, o réu teria circulado de automóvel com a criança enquanto colocava um saco plástico em sua cabeça, demonstrando um padrão reiterado de comportamento sádico e violento contra menores indefesos.

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A prisão dos réus também foi detalhada de forma minuciosa pelo Dr. Edson Henrique Damasceno. Diante do risco de fuga e da necessidade de garantir a instrução criminal, a polícia montou um esquema de vigilância e localizou o casal em um endereço que não havia sido fornecido formalmente no inquérito — a residência de uma tia-avó. No momento da abordagem policial na madrugada, os agentes precisaram ingressar no imóvel e flagraram Monique Medeiros e Dr. Jairinho deitados em um dos quartos. Ao perceberem a chegada da polícia, os investigados tentaram se desfazer de provas urgentes, arremessando seus aparelhos celulares pela janela do quarto em direção ao terreno vizinho. Os telefones foram recuperados pela equipe de investigação e submetidos à perícia técnica, fornecendo dados cruciais para o indiciamento.

Durante a fase de perguntas conduzidas pelos defensores dos réus, o ambiente do plenário do júri registrou momentos de embate técnico e questionamentos acerca de supostas lacunas no inquérito. A defesa de Monique questionou os motivos pelos quais a ré não foi reinquirida pela autoridade policial após a decretação de sua prisão preventiva, momento em que ela manifestou o desejo de apresentar uma nova versão dos fatos, afastada da influência do companheiro. O delegado esclareceu que a decisão de encerrar as diligências e relatar o inquérito baseou-se no fato de que os réus sustentaram firmemente a versão do acidente doméstico durante toda a fase inicial e no depoimento formal do dia 17 de março. Diante da robustez das provas periciais, dos laudos médicos e das mensagens de texto recuperadas, a polícia considerou que a autoria e a materialidade estavam plenamente consolidadas, não havendo necessidade técnico-jurídica de estender o procedimento policial, que foi concluído de forma célere e enviado ao Ministério Público.

Ao final do depoimento, questionamentos de natureza político-institucional e menções a homenagens e promoções recebidas pela equipe policial foram rebatidos no plenário. Esclareceu-se que a designação do Dr. Edson Henrique para a Delegacia de Homicídios posterior ao caso obedeceu a critérios de movimentação rotineira da administração pública, haja vista que o profissional já pertencia à classe mais alta da carreira de delegado de polícia, inexistindo o conceito de promoção de classe por conta de um caso específico de repercussão midiática.

O encerramento do depoimento do delegado consolida a força das provas técnicas produzidas pelo Estado e expõe ao corpo de jurados a cronologia de um crime que comoveu a opinião pública nacional. Os trabalhos do conselho de sentença prosseguem com a oitiva de outras testemunhas arroladas pela acusação e pelas defesas, mantendo a centralidade do debate jurídico na busca pela responsabilização penal dos envolvidos na trágica morte de Henry Borel.