TÚNEL É ENCONTRADO NA MANSÃO DE DEOLANE? O QUE ESTAVA LÁ CH0CA

O Brasil assistiu a um dos desdobramentos mais impactantes do ano na crônica policial e de celebridades com a deflagração da Operação Vernix. Conduzida em uma ação conjunta entre a Polícia Civil do Estado de São Paulo e o Ministério Público, a operação resultou na prisão preventiva da empresária, advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra. Conhecida por ostentar uma vida de altíssimo luxo para seus mais de 20 milhões de seguidores, a famosa agora enfrenta acusações severas de atuar como um braço financeiro estratégico para o Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior organização criminosa do país. A magnitude das investigações liga diretamente a influenciadora a Marcos William Herbas Camacho, o Marcola, apontado pelas autoridades como o líder supremo da facção.
A prisão ocorreu nas primeiras horas da manhã em um condomínio residencial de alto padrão em Alphaville, localizado em Barueri, na Região Metropolitana de São Paulo. Cerca de dez policiais civis invadiram a residência da influenciadora para cumprir os mandados expedidos pela Justiça. Deolane havia retornado recentemente de uma viagem à Itália, período no qual chegou a ter seu nome incluído na difusão vermelha da Interpol, a lista de procurados internacionais. Ela conseguiu retornar ao Brasil pouco antes de qualquer ação externa, mas foi detida imediatamente ao se reinstalar em solo nacional. A Operação Vernix não mirou apenas a advogada: foram expedidos seis mandados de prisão preventiva — modalidade de prisão que não possui prazo determinado para expirar — e múltiplos mandados de busca e apreensão.
Entre os principais alvos da mesma operação figuram o próprio Marcola e seu irmão, Alejandro Camacho, que atualmente cumprem pena na Penitenciária Federal de Brasília, de segurança máxima. Familiares diretos do chefe da organização também foram incluídos na investida judicial. Dois sobrinhos de Marcola foram identificados como operadores internacionais do esquema: Paloma Sanchez Herbas Camacho, considerada uma das principais intermediárias financeiras da facção e que foi localizada e presa na Espanha, e Leonardo Alexander Ribeiro Herbas Camacho, que a polícia suspeita estar escondido na Bolívia. O influenciador Giliarde Vidal dos Santos, filho de criação de Deolane Bezerra, também foi alvo de busca e apreensão, demonstrando o cerco fechado em torno do núcleo familiar e de negócios da advogada.
As investigações que culminaram no desmantelamento desta rede começaram há sete anos, em 2019, quando agentes da Polícia Penal apreenderam bilhetes e manuscritos nas celas da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, local onde a cúpula do PCC ficava concentrada antes de ser transferida para o sistema federal por determinação do então ministro da Justiça, Sérgio Moro. O material bruto deu origem a três inquéritos policiais robustos, revelando a complexa engrenagem da facção, planos de fuga e ordens de ataques violentos contra servidores públicos. Um detalhe crucial chamou a atenção dos investigadores: menções repetidas a uma “mulher da transportadora” que seria responsável por levantar dados residenciais para os atentados.
Essa pista levou à Operação Lado a Lado, em 2021, que desmascarou uma transportadora de cargas com sede em Presidente Venceslau como uma empresa de fachada utilizada unicamente como braço logístico e financeiro do crime organizado. Com a apreensão do celular do operador financeiro Ciro César Lemos (atualmente foragido) e o monitoramento das mensagens de Everton de Souza, conhecido no submundo como “Player”, a Polícia Civil mapeou transações bancárias diretas. De forma explícita, mensagens interceptadas mostraram “Player” orientando a distribuição de repasses financeiros e indicando contas correntes para o depósito do dinheiro ilícito originado na transportadora de fachada.
Para a surpresa das autoridades, os dados bancários repassados coincidiam exatamente com a conta de pessoa física de Deolane Bezerra. Em uma das conversas interceptadas datada de setembro de 2020, operadores dividiam valores expressivos de dezenas de milhares de reais e apontavam os dados ocultados da influenciadora para a lavagem do dinheiro. O Ministério Público do Estado de São Paulo destacou que o crescimento estrondoso e repentino do patrimônio de Deolane carecia completamente de lastro econômico legal. De acordo com os investigadores, a projeção pública massiva da advogada, suas atividades empresariais e a movimentação patrimonial constante eram utilizadas de forma deliberada como camadas de fumaça para dar aparência de legalidade a recursos obtidos de forma criminosa, dificultando o rastreamento por órgãos de fiscalização financeira.
Paralelamente às revelações financeiras, o caso ganhou contornos dramáticos nas redes sociais e nos bastidores jornalísticos. O apresentador Luiz Bacci, amigo pessoal de longa data de Deolane, relatou publicamente que a influenciadora teria sofrido ameaças severas oriundas de facções rivais ou de membros descontentes assim que deu entrada no sistema prisional. No rastro do escândalo, antigos desafetos e ex-integrantes do crime organizado vieram a público trazer novas acusações. Um ex-membro do PCC, identificado apenas como Frank, divulgou um vídeo que viralizou rapidamente, no qual relata uma suposta e sombria articulação envolvendo a morte do ex-marido de Deolane, o cantor MC Kevin, falecido em 2021 após cair da sacada de um hotel no Rio de Janeiro.
Na gravação de Frank, o ex-membro afirma categoricamente que a morte do músico não foi um acidente, mas sim um assassinato planejado e executado por pessoas do círculo íntimo, incluindo uma suposta conivência de Deolane, com o objetivo de “apagar” o cantor antes que ele revelasse informações confidenciais à polícia. Embora a versão oficial das autoridades até o momento tenha arquivado o caso de MC Kevin como um trágico acidente, a repercussão das novas denúncias foi tamanha que a mãe do funkeiro solicitou formalmente a reabertura das investigações criminais. Em sua defesa prévia, conforme depoimento vazado à revista O Antagonista, Deolane negou veementemente qualquer ligação com o crime organizado ou jogos ilegais, alegando que sua renda mensal de R$ 1,5 milhão provém exclusivamente de seus contratos publicitários legítimos, de sua empresa Bezerra Publicidade e de suas consultorias jurídicas. Ela justificou a compra de veículos de luxo, como um carro avaliado em R$ 4 milhões, e de suas 12 mansões — incluindo uma recém-adquirida em Orlando, nos Estados Unidos — como frutos puros de seu sucesso profissional.

Em meio ao turbilhão policial, o impacto político da prisão de Deolane Bezerra atingiu em cheio o Palácio do Planalto e a militância do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Deolane sempre foi uma apoiadora pública fervorosa do petista, utilizando ativamente suas redes sociais com milhões de seguidores para fazer campanha aberta e declarar seu voto nas eleições de 2022. Com a confirmação de sua prisão e a acusação de lavagem de dinheiro para o tráfico de drogas, parlamentares da oposição e influenciadores políticos de direita agiram rapidamente. O deputado Eduardo Bolsonaro e outros opositores inundaram as redes com vídeos e fotos antigas onde o presidente Lula aparece abraçado com Deolane, trocando elogios e celebrando o apoio da advogada.
A estratégia da oposição visa carimbar no governo federal a pecha de conivência ou proximidade indireta com indivíduos ligados a grandes facções criminosas. As críticas contra a gestão atual se intensificaram, resgatando debates polêmicos sobre a recusa do governo em catalogar o PCC formalmente sob termos de legislações mais rígidas ou a suposta fragilidade na segurança pública nacional. Para piorar o cenário político, vazamentos preliminares da imprensa indicam que as mensagens interceptadas pela Polícia Civil também mencionam o envolvimento de repasses financeiros da facção para um “suposto grupo político”, embora o nome do partido ou dos envolvidos ainda permaneça sob segredo de Justiça e investigação sigilosa. O Planalto optou pelo silêncio institucional e não emitiu pronunciamentos oficiais sobre a prisão até o momento, mas conselheiros políticos admitem nos bastidores que o desgaste de imagem nas redes sociais é severo e difícil de estancar.
Outro ponto que gerou imensa curiosidade pública e dividiu opiniões na internet foi o boato sobre a existência de um suposto túnel secreto descoberto pela polícia dentro da mansão de Deolane em São Paulo. Publicações sensacionalistas em páginas de fofoca afirmavam detalhadamente que, após uma denúncia anônima de vizinhos sobre movimentações estranhas na casa após a prisão, policiais teriam retornado ao local e encontrado uma passagem subterrânea escondida sob um tapete, logo abaixo da cama da influenciadora. A narrativa fantasiosa descrevia gritos das irmãs de Deolane tentando impedir a entrada dos agentes e a suposta descoberta de malas abarrotadas com notas de R$ 200 escondidas no barro úmido do túnel, ligando o caso a um antigo vídeo onde malas de dinheiro apareciam casualmente ao fundo de uma gravação caseira na cozinha da famosa.
No entanto, as autoridades e analistas de segurança pública desmentiram categoricamente a existência desse túnel cinematográfico. Trata-se de uma notícia falsa que pegou carona no clamor popular e no choque da prisão para gerar engajamento. O que a polícia de fato apreendeu e bloqueou foram patrimônios reais e muito expressivos: as ordens judiciais determinaram o bloqueio imediato de contas bancárias dos investigados que somam mais de R$ 357 milhões, além do sequestro de 17 veículos de luxo avaliados em mais de R$ 8 milhões e o bloqueio de quatro imóveis de alto padrão vinculados ao esquema de lavagem de dinheiro. As autoridades classificam a Operação Vernix como um golpe crucial de “descapitalização do crime organizado”, focando em sufocar as finanças da facção em vez de apenas prender os soldados do tráfico nas periferias. Enquanto os advogados da família Bezerra prometem processar criminalmente qualquer portal ou indivíduo que propague informações falsas ou fira a presunção de inocência de Deolane, a influenciadora segue detida, enfrentando o momento mais nebuloso de sua trajetória pública sob o olhar atento de milhões de brasileiros.