Ator de Dark Horse segue Lula, Erika Hilton e perfis anti-Bolsonaro
O universo das produções cinematográficas brasileiras, especialmente quando se trata de biografias políticas, costuma ser um território fértil para debates intensos e, muitas vezes, inflamados. No centro dessas atenções encontra-se o filme “Dark Horse”, a cinebiografia que promete retratar os momentos cruciais da carreira e da vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. No entanto, o que deveria ser um foco na produção e na fidelidade do roteiro desviou-se para uma polêmica envolvendo a escalação de um de seus atores principais: José Trassi.

Trassi, um rosto conhecido do grande público desde o final da década de 1990, quando despontou no sucesso “Sandy & Junior”, foi escalado para interpretar o personagem Aurélio Barba. A figura, abertamente inspirada no autor do atentado a faca que atingiu Jair Bolsonaro em 2018, é um dos papéis mais tensos e politicamente carregados do longa. O que parecia ser uma oportunidade de destaque na carreira do ator transformou-se rapidamente em um alvo de escrutínio digital assim que os espectadores começaram a analisar sua presença nas redes sociais.
Não demorou muito para que usuários do Instagram realizassem uma espécie de “auditoria digital” no perfil do ator. A surpresa, para parte da base de apoiadores do ex-presidente, foi encontrar uma lista de seguidos que, no mínimo, destoa da ideologia política de Bolsonaro. Entre as contas acompanhadas por José Trassi, destacam-se a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) e de diversas páginas de humor ligadas à ex-presidente Dilma Rousseff. Mais do que isso, o ator também mantém em seu histórico de interação a página “Defund Bolsonaro”, um perfil que ganhou notoriedade durante o governo anterior por sua oposição ferrenha e críticas constantes às políticas ambientais e de preservação da Amazônia adotadas pelo então governo federal.

Essa desconexão entre o papel — um homem que tentou ceifar a vida do biografado — e as convicções políticas manifestadas pelo ator gerou um efeito viral instantâneo. A pergunta que se repete em fóruns e redes sociais é: até que ponto a vida pessoal de um artista deve interferir na aceitação do público sobre um personagem? No caso de “Dark Horse”, que já carrega consigo o peso da polarização, a escalação foi recebida por alguns como um descuido de produção e por outros como uma ironia do destino.
Para o setor de elenco, a escalação de um ator não deveria ser pautada por suas preferências ideológicas, mas sim pela capacidade técnica de interpretar uma figura complexa. José Trassi não é um novato. Com uma carreira construída na TV Globo em obras como “Segunda Chamada”, “Além da Ilusão” e a recente e aclamada série “Sutura”, do Prime Video, o ator tem um currículo que prova sua versatilidade. Seu rosto, que durante anos esteve atrelado ao imaginário jovem de sucesso da virada do século, agora é visto sob uma lente inteiramente nova, a de um profissional envolvido em uma obra que, por si só, é um manifesto político.

A produção de “Dark Horse” tem se esforçado para manter o mistério e a integridade da obra, que ainda deve retratar os bastidores da campanha de 2018 e o impacto do atentado. O filme, que é tratado como uma superprodução, tem atraído atenção não apenas pelo seu conteúdo, mas pela constante comparação entre os atores e os membros da família Bolsonaro. A escolha de nomes para interpretar figuras tão centrais da vida pública brasileira é um exercício que beira a perfeição, e qualquer desvio, real ou percebido, é imediatamente processado pelo tribunal das redes sociais.
Este episódio ilustra bem a atual atmosfera do Brasil: a polarização invadiu todos os campos, inclusive o das artes. Quando um filme sobre Bolsonaro escolhe um ator que segue Lula, a discussão deixa de ser sobre a estética do filme e passa a ser sobre o alinhamento moral e político dos envolvidos. O ator, que trabalhou com Sandy em diversos projetos, incluindo o clipe da música “Nosso Nó(s)”, sempre transitou com naturalidade entre diferentes esferas do entretenimento. Agora, ele se encontra na linha de frente de um debate que questiona se a arte é capaz de ser, de fato, neutra em tempos de radicalismos ideológicos.
Enquanto a polêmica segue gerando cliques e comentários, o filme “Dark Horse” continua a ser desenvolvido. A produção tem o desafio de equilibrar a narrativa histórica, o peso emocional dos eventos retratados e a expectativa de um público que está cada vez mais atento aos detalhes. José Trassi, por sua vez, mantém-se em seu papel, uma escolha que, independentemente da controvérsia, demonstra que a escalação de elenco para filmes sobre figuras políticas sempre será um dos aspectos mais delicados do cinema nacional. Resta saber se, quando o filme for lançado, a entrega de Trassi como o personagem Aurélio Barba conseguirá silenciar as críticas sobre sua vida pessoal e transformar a polêmica em reconhecimento artístico.
A verdade é que a arte, muitas vezes, funciona como um espelho de nossas próprias divisões. Ao olharmos para José Trassi e vermos não apenas o ator, mas suas conexões políticas, o público brasileiro confirma que vivemos em um país onde nem a ficção é tratada com distanciamento. O filme sobre Bolsonaro terá o desafio de superar o ruído dessas polêmicas e mostrar que, nas telas, o que deveria prevalecer é a construção da história, o drama humano e a habilidade daqueles que dão vida aos personagens, independentemente da sigla partidária que seguem na vida real.