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A Rainha Morta e o Rei Justiceiro: A Brutal Vingança de Dom Pedro I por Inês de Castro

No dia 2 de abril de 1361, uma procissão saiu de Coimbra em direção ao mosteiro de Alcobassa. Eram 17 légoas de estrada. Ao longo de cada metro do caminho, homens e mulheres seguravam sírios acesos em silêncio. Centenas de tochas cortando a escuridão. [música] Cavaleiros, fidalgos, clérigos, freiras, camponeses, todos em silêncio, todos olhando para a liteira no centro do cortejo.

Dentro da liteira havia um corpo, um corpo de mulher que estava morto há 6 anos. Quando o cortejo chegou à Alcobaça, o rei Dom Pedro I de Portugal mandou abrir o caixão, mandou vestir o cadáver com trajes reais, mandou colocar uma coroa na cabeça daquele [música] corpo que já não era mais um corpo. E então mandou que toda a corte portuguesa, duques, condes, bispos, conselheiros, se ajoelhasse um por um e beijasse a mão da morta.

A morta se chamava Inês de Castro. E o rei que obrigou um país inteiro a ajoelhar diante de um cadáver era o homem que a amou mais do que amou a própria sanidade. Essa é a história mais brutal, mais perturbadora e mais real da realeza europeia. E cada detalhe que você vai ouvir nos próximos minutos aconteceu de verdade, segundo os cronistas que registraram os fatos, em especial Fernão Lopes, o cronista oficial do reino de Portugal, que escreveu a crônica de Dom Pedro I com base em documentos da Torre do Tombo, relatos de testemunhas e

registros diplomáticos que sobreviveram quase 700 anos. Inês de Castro nasceu por volta de 1325 na Galiza, no noroeste da Península Ibérica, numa região que hoje fica entre o norte de Portugal e a Espanha. A data exata é incerta. O que se sabe com certeza é que ela era filha ilegítima de Pedro Fernandes de Castro, senhor de Lemos e Sarria, um dos nobres mais poderosos [música] da Galiza.

A mãe era uma fidalga portuguesa chamada Aldonça Lourenço de Valadares. Ser filha ilegítima não era uma vergonha tão grande naquela época quanto seria depois, mas significava uma coisa importante. não tinha direito à herança nem a títulos. Dependia [música] da proteção da família, dependia de um bom casamento arranjado, dependia, acima de tudo, de não causar problemas.

Inês causou o maior problema da história de Portugal. Para entender o que aconteceu, é preciso entender quem era o outro lado dessa história. Pedro, o infante de Portugal, filho do rei Afonso Pedro nasceu em 1320 em Coimbra. Era o herdeiro do trono e como todo herdeiro de trono medieval, não tinha o direito de escolher com quem casaria.

Em [música] 1336, o casamento de Pedro foi arranjado por procuração [música] com Constância Manuel, filha de Dom João Manuel, um dos nobres [música] mais poderosos de Castela. Constância era uma aliança política, uma peça num tabuleiro diplomático entre Portugal e [música] Castela. O amor não fazia parte da equação, nunca fazia.

Constância chegou a Portugal em 1340. A cerimônia de casamento aconteceu na sede Lisboa em agosto daquele ano e no sécto de Constança, [música] entre as damas de companhia que a acompanharam de Castela, estava uma jovem galega de cabelos claros e olhos que os cronistas descreveram como extraordinários. Inês de Castro.

Pedro viu Inês pela primeira vez na cerimônia do próprio casamento e alguma coisa aconteceu. Os cronistas não dizem exatamente o quê. Fernão Lopes é discreto, mas o que se sabe é que a partir daquele momento, Pedro não conseguiu mais tirar Inês da cabeça e Inês não conseguiu ou não quis se afastar dele.

O que começou nos meses seguintes [música] não é claro. Os relatos são vagos de propósito. Sabe-se que Pedro e Inês começaram uma relação enquanto Constança ainda era viva. Constân sabia, toda a corte sabia, Afonso sabia e Constança tentou uma manobra desesperada para impedir o caso. Convidou Inês para ser madrinha de batismo de seu filho, o futuro rei Fernando I.

Na época, ser madrinha criava um parentesco espiritual. Se Ines era madrinha do filho de Pedro, ela se tornava com dele e a relação entre compadres era considerada incestuosa pela igreja. Constância apostou que isso bastaria para impedir que Pedro e Inês ficassem juntos. Não bastou. Pedro ignorou o parentesco espiritual, ignorou a esposa, ignorou o pai, ignorou a igreja e continuou com Inês.

Afonso furioso, mandou expulsar Inês de Portugal. Inês foi para Castela, Pedro ficou em Portugal, separados à força. E aqui entra um detalhe que muda tudo. Em outubro de 1345, Constança Manuel morreu. O parto de seu quarto filho foi complicado. Constância não sobreviveu. Deixou um único filho vivo, Fernando, o herdeiro do trono.

Pedro ficou viúvo [canto] e com Constância morta não havia mais nenhuma barreira entre ele e Inês, nenhuma barreira moral, pelo menos a barreira política continuava enorme. E foi essa barreira que matou Inês. Mas naquele momento nenhum dos dois sabia disso. Inês voltou para Portugal e o reencontro foi como se o exílio nunca tivesse existido.

Pedro foi buscá-la, trouxe-a de volta como se trouxesse a própria vida de volta. E a partir de 1346, Pedro e Inês passaram a viver juntos abertamente. Não se escondiam mais. Moravam em Coimbra, no Passo de Santa Clara, ao lado do mosteiro de Santa Clara. A velha tiveram filhos, quatro filhos ao todo. Afonso, que morreu ainda bebê, João, Dinis e Beatriz.

viviam como marido e mulher em tudo, menos no nome. Pedro tratava Inês como rainha, dava-lhe joias, vestidos, criados. Os filhos deles eram tratados como infantes, com educação, sequito e todas as honras, que só filhos legítimos teriam direito. Coimbra se tornou o mundo deles, longe de Lisboa, longe da corte do pai, longe das intrigas.

Pedro e Inês construíram uma vida paralela que funcionava como se Inês já fosse a rainha. E esse foi o erro que custou a vida dela. Porque o problema nunca foi o amor. O problema era que Pedro dava poder demais aos irmãos de Inês, os Castro, uma família galega com conexões profundas em castela, terras, títulos, influência. Os nobres portugueses começaram a temer que quando Pedro subisse ao trono, estrangeiros controlariam Portugal.

E pior, Pedro e Inês tinham filhos homens. Se Pedro os legitimasse, haveria uma guerra de sucessão contra Fernando, o herdeiro de Constança. O país inteiro podia se partir ao meio. Três conselheiros martelaram esse medo no ouvido de Afonso durante anos. Álvaro Gonçalves, Puo Coelho e Diogo Lopes Pacheco. Afonso resistiu. Amava o filho.

Tentou afastar Inês de novo. Pedro recusou. Tentou negociar outro casamento. Pedro rejeitou. E o pior ainda estava por vir. Em janeiro de 1355, Afonso I cedeu. O que aconteceu no dia 7 de janeiro de55 é o momento mais sombrio da história de Portugal. Pedro não estava em Coimbra, tinha ido caçar.

Alguns historiadores acreditam que a ausência foi planejada, que os conselheiros esperaram propositalmente que Pedro estivesse longe. Outros acham que foi coincidência. O fato é que Pedro não estava lá. Afonso IV foi pessoalmente a Coimbra com os três conselheiros. Fernão Lopes registra que o rei foi ao passo de Santa Clara, onde Inês vivia com os filhos.

E nei soube que estavam vindo. Saiu ao encontro do rei com os filhos nos braços ou ao lado, dependendo da fonte. Suplicou, chorou, pediu misericórdia, pediu que o rei olhasse para os netos, porque os filhos de Inês eram netos de Afonso. Fernão Lopes escreve que Afonso hesitou, que olhou para os netos e quase desistiu, que se virou e começou a ir embora.

Mas os conselheiros insistiram. Disseram que se Inês não morresse agora, ela nunca morreria e que quando Pedro subisse ao trono, seriam eles os mortos. Afonso deu a ordem ou permitiu, ou simplesmente virou as costas e deixou que os conselheiros fizessem o que queriam fazer. As fontes divergem sobre o grau exato de responsabilidade do rei.

Uns dizem que ele ordenou diretamente, outros dizem que ele apenas não impediu. Vernão Lopes é ambíguo de propósito, talvez para proteger a memória do rei. Mas o resultado foi o mesmo. Álvaro Gonçalves, Pu Coelho e Diogo Lopes Pacheco voltaram ao Passo de Santa Clara e mataram Inês de Castro. Os cronistas dizem que a degolaram, outros dizem que a apunhalaram.

Fernão Lopes não detalha o método exato. O que se sabe é que foi violento, foi rápido e os filhos de Inês estavam presentes ou próximos quando aconteceu. E ali, diante dos próprios filhos, o destino dela foi decidido por homens que nunca tiveram coragem de enfrentar Pedro, mas tiveram coragem de matar uma mulher desarmada. Inês de Castro morreu no dia 7 de janeiro de 1355.

Tinha cerca de 30 anos. A mulher [música] que tinha vindo de Castela como dama de companhia, que se apaixonou pelo príncipe [música] errado, que viveu 9 anos de felicidade roubada em Coimbra, morreu no mesmo lugar onde tinha sido mais feliz. O sangue de Inês manchou as pedras do Passo de Santa Clara.

Há quem diga que a fonte que corre na Quinta das Lágrimas em Coimbra ficou vermelha naquele dia. É lenda, mas é o tipo de lenda que nasce quando a realidade já é insuportável demais. O corpo foi enterrado no mosteiro de Santa Clara Velha, em Coimbra. Os assassinos acharam que o assunto estava encerrado. O rei achou que o problema estava resolvido e Portugal achou que ia seguir em frente.

Ninguém contou com o que Pedro ia fazer e o que ele fez mudou Portugal para sempre. Quando Pedro soube da morte de Inês, a reação foi imediata e devastadora. Pedro pegou em armas, reuniu tropas e se revoltou contra o próprio pai, o infante herdeiro do trono de Portugal. declarou guerra ao rei de Portugal, pai contra filho, pelo amor de uma mulher morta.

A guerra civil durou meses. Pedro atacou cidades no norte. Afonso tentou conter o filho. O país se dividiu. Nobres tomaram lados. E quem parou a guerra não foi nenhum dos dois homens. Foi a rainha dona Beatriz, mãe de Pedro e esposa de Afonso. Beatriz mediou a paz entre marido e filho. Em agosto de 1355, pai e filho se reconciliaram oficialmente, mas Pedro não esqueceu.

Pedro nunca esqueceu nada. E quando um homem como Pedro ganha o poder absoluto sem ter esquecido nada, o mundo ao redor paga o preço. Do anos depois, em maio de 1357, Afonso I morreu. Pedro I subiu ao trono. Tinha 37 anos e a primeira coisa que fez como rei foi caçar os assassinos de Inês.

Os três tinham fugido para a Castela imediatamente depois do assassinato. sabiam o que viria. Pedro negociou com Pedro I de Castela, que a história chama de Pedro, o cruel, um acordo de extradição. Portugal entregaria refugiados castelhanos em troca dos assassinos de Inês. Pero Coelho e Álvaro Gonçalves foram entregues.

Diogo Lopes Pacheco, o terceiro, conseguiu escapar. Fugiu para a França e nunca foi capturado. Viveu até os 90 anos. voltou a Portugal só depois da morte de Dom Pedro e morreu de causas naturais. A história nem sempre é justa, mas com os dois que Pedro capturou, a justiça, se é que se pode chamar assim, foi total. Pedro mandou executar Pu Coelho e Álvaro Gonçalves em Santarém. Não foi uma execução comum.

Pedro mandou arrancar o coração de Pero coelho pelo peito e mandou arrancar o coração de Álvaro Gonçalves pelas costas. Fernão Lopes registra que Pedro assistiu à execução enquanto jantava. comeu. Enquanto os homens que mataram Insis tinham os corações arrancados na frente dele.

Há quem diga que Pedro disse que os assassinos não tinham coração, já que tinham destruído o dele. As fontes divergem se essa frase é real ou foi acrescentada depois por cronistas posteriores. Mas a execução em si é fato documentado, mas arrancar corações foi só o começo. O que Pedro fez a seguir é o que transformou essa história numa lenda que sobrevive há quase 700 anos.

Em junho de 1360, Pedro convocou uma reunião solene em Cantanhede. Diante de bispos nobres e oficiais do reino, Pedro jurou publicamente que havia se casado com Inês de Castro em segredo antes da morte dela. Disse que [música] o casamento aconteceu em 1354 ou 53. As fontes divergem sobre a data exata. disse que o casamento foi celebrado pelo bispo da guarda, Dom Gil.

Duas testemunhas confirmaram o casamento. Estevão Lobato, criado de Pedro, [música] e Dom Gil, o bispo. Não havia nenhum documento escrito, nenhum registro eclesiástico. A palavra de Pedro e de duas testemunhas era tudo o que existia. Muitos historiadores duvidam que o casamento realmente aconteceu. Alguns acreditam que Pedro inventou tudo para legitimar os filhos.

Outros [música] acreditam que houve sim uma cerimônia secreta. A verdade é que nunca saberemos, mas o que importava naquele momento não era a verdade, era o poder. Pedro era rei e o rei disse que era casado com Inês e ninguém ousou contradizer. Com o casamento declarado, Inês de Castro se tornou retroativamente rainha de Portugal, uma rainha póstuma.

E os filhos de Inês foram oficialmente legitimados como infantes. E então Pedro mandou trazer o corpo dela. A cerimônia da transladação aconteceu em 2 de abril de 1361. O corpo de Inês foi esumado do mosteiro de Santa Clara à Velha em Coimbra, onde estava enterrada há 6 anos. foi colocado numa liteira e levado em procissão até o mosteiro de Alcobassa.

17 léguas de distância, cerca de 80 km. Ao longo de todo o caminho dos dois lados da estrada, homens e mulheres do povo seguravam sírios acesos, centenas, talvez milhares de tochas iluminando a noite. O clero rezava, os fidalgos caminhavam em silêncio. Era um cortejo fúnebre como Portugal nunca tinha visto e nunca mais veria.

Em Alcobaça, o bispo de [música] Viseu celebrou os funerais em Pontifical. E aqui é onde a história entra no território que divide historiadores até hoje. Segundo algumas fontes, mas não segundo Fernão Lopes, que é a fonte mais confiável, Pedro mandou sentar o corpo de Inês num trono, vestido com trajes reais, com uma coroa na cabeça, e mandou que toda a corte portuguesa se ajoelhasse um por um e beijasse a mão da morta como ato de homenagem à rainha legítima de Portugal.

Imagina a cena. Um salão de pedra iluminado por tochas, um cadáver de 6 anos sentado num trono vestido de rainha e dezenas de nobres. Os mesmos nobres que tinham deixado Inês morrer, [música] que não tinham feito nada para impedir, que tinham ficado em silêncio quando os assassinos foram à Coimbra, agora obrigados [música] a ajoelhar diante dela, a beijar aquela mão, um por um, em silêncio, com o rei Pedro olhando cada rosto, cada gesto, cada hesitação.

Ninguém ousou recusar. É preciso ser honesto. Essa cena provavelmente não aconteceu exatamente como a tradição conta. A primeira menção aparece só em 157 numa peça do espanhol Jerônimo Bermudes, mais de 200 anos depois dos fatos. Fernão Lopes não a menciona. O que ele confirma é a trasladação solene, a procissão com tochas, os funerais reais em Alcobaça e o sepultamento no túmulo que Pedro mandou construir.

Mas mesmo que a cena do beijo seja lenda, o que aconteceu de verdade já é insano o suficiente. Um rei mandou desenterrar o corpo de uma mulher morta há 6 anos. Levou esse corpo em procissão por 80 km com milhares de tochas, fez funerais de rainha e mandou construir um dos túmulos mais impressionantes da arte gótica europeia para abrigá-lo.

Lenda ou não, o ato de Pedro não tem paralelo na história da realeza. E aqui entra o detalhe final que transforma essa história de trágica em eterna. Pedro mandou construir dois túmulos no mosteiro de Alcobaça, um para Inês, um para ele. Os dois túmulos são obras primas da escultura gótica portuguesa. O túmulo de Inês mostra sua figuracente coroada, com anjos amparando sua cabeça.

Os laterais [música] mostram cenas do Novo Testamento e nos pés o [música] juízo final, a ressurreição dos mortos no fim dos tempos. E Pedro mandou posicionar os dois túmulos frente à frente, não lado a lado, como era costume, frente à frente, os pés de um voltados para os pés do outro, para que, segundo a tradição, no dia do juízo final, quando os mortos se levantarem [música] dos túmulos, Pedro e Ini se levantem e a primeira coisa que vejam seja o rosto um do outro.

No mármore está escrito: “Até o fim do mundo, Pedro I morreu em janeiro de 1367, com 46 anos. Reinou durante 10 anos. foi enterrado no túmulo que mandou construir em [música] Alcobassa, de frente para Inês. E lá estão os dois até hoje, 660 anos depois, um de frente pro outro, esperando o fim do mundo. Mas para entender o que Pedro fez com o poder que ganhou, é preciso entender o que ele perdeu.

Porque o homem que sentou naquele trono em 1357 não era mais o mesmo Pedro que dançava com Inês em Coimbra. Era um homem partido ao meio. E um homem partido ao meio com poder absoluto é a coisa mais perigosa que existe. Fernão Lopes dedica capítulos inteiros da crônica de Dom Pedro I à forma como ele governou. E o retrato que emerge é o de um homem obsecado com justiça, uma justiça brutal, pessoal e completamente desproporcional pelos padrões de qualquer época.

Pedro era um rei que não dormia ou dormia pouco. Fernão Lopes descreve que ele sofria de insônia crônica e passava as noites agitado. Mandava chamar músicos, trombeteiros e tamborileiros para tocar durante a madrugada, enquanto ele dançava sozinho pelos salões do palácio. Os criados eram obrigados a acompanhá-lo.

Às vezes saía pelas ruas de Santarém ou Lisboa no meio da noite, inquieto, sem destino. Um rei insônio vagando por um reino que não conseguia acalmar a mente dele. E durante essas noites, Pedro fazia justiça com as próprias mãos, literalmente andava pelas ruas e quando encontrava criminosos, ele mesmo aplicava o castigo, açoitava ladrões pessoalmente.

Fernão Lopes registra que ele interrogava os acusados com um chicote na mão, falando com sua dicção difícil de gago, ameaçando enquanto perguntava. Mandou açoitar publicamente um bispo do porto, porque o bispo tinha se envolvido com uma mulher casada, um bispo na idade média. Pedro não se importou com a hierarquia da igreja.

Mandou castrar um escudeiro chamado Afonso Madeira, porque ele tinha dormido com uma mulher casada. Fernão Lopes dedica um capítulo inteiro a esse episódio. O escudeiro tinha seduzido a esposa do corregedor, uma mulher que os cronistas descrevem como elegante e graciosa. Pedro descobriu e mandou castrá-lo sem julgamento formal.

Mandou enforcar um homem que tinha se casado com uma mulher após tê-la forçado, mesmo depois de terem filhos juntos e viverem em aparente harmonia. Para Pedro, o crime original não se apagava com o tempo. A mulher e os filhos choraram atrás do cortejo que levava o homem à forca. Pedro não se comoveu. O povo adorava. Chamava Pedro de o justiceiro.

Os nobres e o clero tinham medo. Chamavam-no de o cruel. Os dois títulos estavam certos. Pedro era as duas coisas ao mesmo tempo. Um rei que amava o povo e aterrorizava quem tinha poder. Um rei que arrancava corações de assassinos e chorava por uma mulher morta. Um rei que castigava adúlteros com a mesma intensidade com que amava uma mulher que o mundo considerava adúltera.

A contradição é o coração dessa história. Pedro destruiu homens por fazerem com outras mulheres o que ele mesmo fez com Constância. traiu a esposa, viveu com a amante, ignorou a lei e depois, quando se tornou rei, aplicou essa mesma lei com uma violência que chocou até os cronistas que o admiravam.

Mas a outro lado, Pedro foi um rei competente, governou bem. As finanças do reino melhoraram. A justiça, por mais brutal que fosse, era aplicada a todos, nobres, clérigos e plebeus. Ninguém estava acima da lei. Numa época em que reis serviam apenas aos interesses da nobreza, Pedro serviu ao povo e o povo nunca o esqueceu.

Os filhos de Pedro e Inês tiveram destinos variados. João de Castro tentou reivindicar o trono durante a crise de 1383 a 85, quando a dinastia da Borgonha se extinguiu com a morte do rei Fernando, o filho de Constança. João fracassou. Quem venceu a disputa foi João, mestre de Avis, meio irmão ilegítimo de Fernando, que se tornou João Iou dinastia de Avis.

Dinis de Castro também tentou resistir e acabou exilado em Castela. Beatriz, a filha casou-se com Sancho [música] de Castela, Conde de Albuquerque. E por essa linha Beatriz se tornou ancestral de todos os monarcas trastâmara e Absburgo da Espanha. O sangue de Inês de Castro correu nas veias dos reis mais poderosos da Europa durante séculos.

Inês morreu como amante. Foi declarada rainha depois de morta. Teve o corpo esumado e levado em procissão por um país inteiro. Tem um túmulo que é uma das maiores obras de arte de Portugal. E 700 anos depois, as pessoas ainda peregrinam a Alcobaça para ver os dois túmulos, um de frente pro outro, e ler as palavras no mármore até o fim do mundo.

Camões imortalizou a história nos luzíadas. O canto terceiro, Estrofes 118 a 135 conta a morte de Inês com versos que se tornaram os mais famosos da língua portuguesa. Tu, só tu, puro amor, com força crua, que os corações humanos tanto obriga, deste causa a molesta a morte sua como se for a pérfida inimiga. A história foi contada e recontada centenas de vezes.

Virou ópera, virou teatro, virou romance, virou poesia em dezenas de idiomas. Mas debaixo de todas as camadas de mito e romantismo existe uma verdade simples e brutal. Uma mulher foi assassinada por ordem de um rei porque amou o filho dele. O filho desse rei passou o resto da vida tentando desfazer o que o pai fez. arrancou corações, declarou um casamento que talvez nunca tenha existido, [música] desenterrou um cadáver, construiu túmulos eternos e nada disso trouxe Inês de volta.

O que Pedro fez não foi amor ou não foi só amor, foi obsessão, foi luto transformado em poder. Foi a recusa absoluta de aceitar que a morte é o fim. E nessa recusa, nessa teimosia insana de um rei medieval, que se recusou a deixar uma mulher morrer de verdade, nasceu uma das histórias mais [música] extraordinárias que a humanidade já produziu.

Pedro morreu com 46 anos, reinou 10. E há quem diga que Pedro passou cada um desses 10 anos esperando morrer. Não de tristeza, mas porque acreditava que do outro lado, em algum lugar, Inês ainda estava esperando por ele. Eles ainda estão lá em Alcobassa, um de frente pro outro. 671 anos depois, o mosteiro foi saqueado pelas tropas de Napoleão em 1811.

Os soldados franceses quebraram [música] rostos de anjos, arrancaram detalhes da escultura, sobreviveram a terremotos, invasões, guerras, revoluções, mas ninguém conseguiu destruí-los. Ninguém conseguiu separar o que Pedro uniu. Os túmulos continuam lá. Pedro continua olhando para Inês.

Inês continua olhando para Pedro até o fim do mundo. Ela [música] foi silenciada uma vez. Não deixa que aconteça de novo. Compartilha essa história e se inscreve, porque as histórias que a gente conta aqui são as que os livros de escola nunca vão contar. Yeah.